‘ZeroZeroZero’, uma réstia de humanidade

No contexto económico atual, na maioria dos ramos de negócio, existe uma constante: vendedores, intermediários e compradores. O mesmo se aplica ao tráfico de droga e à narrativa tripartida de ‘ZeroZeroZero’, uma minissérie produzida pela Amazon e Sky Italia, adaptada do livro homónimo de Roberto Saviano, o autor de ‘Gomorra’, obra também ela adaptada para televisão — primeiro, um sucesso em Itália, depois, ao nível internacional. Tal como na última, ao leme deste novo projeto esteve Stefano Sollima, o realizador de ‘Sicario: Day of the Soldado’ (2018).

‘ZeroZeroZero’ salta entre três realidades diferentes, à medida que acompanha o percurso de um grande carregamento de cocaína: a de Manuel Contreras, um soldado das forças especiais mexicanas, interpretado por Harold Torres, que nutre uma colaboração insidiosa com o cartel da cidade de Monterrey — os vendedores; a de uma família americana, os Lynwood, composta por pai, filha e filho, interpretados por Gabriel Byrne, Andrea Riseborough e Dane DeHaan — os intermediários; e a de um grupo de mafiosos italianos comandados por Don Minu, interpretado por Adriano Chiaramida, com o seu neto Stefano, interpretado por Giuseppe De Domenico, desejoso de surripiar o poder do avô — os compradores. Mais tarde ou mais cedo, estes elementos acabam por se cruzar.

A história do soldado mexicano é talvez a mais impactante de todas, destacando-se pelo retrato grotesco do que acontece em algumas zonas do México, em que o cenário urbano foi engolido pela indústria do narcotráfico, com comunidades inteiras grudadas, direta ou indiretamente, aos colossais tentáculos de um polvo com cabeça de alfinete, já que, por cima dos milhares de soldados rasos, estão apenas dois indivíduos, os chefes do cartel. Contreras, um religioso fervoroso, é o disruptor dessa sórdida harmonia, conforme usa o seu talento para a destruição para treinar um exército de miúdos de bairro dispostos a matar em nome do pó branco e do seu líder. A personagem é magnética, funcionando como um astuto estudo sobre a potencial frieza e crueldade do ser humano, de um tirano e sociopata em ascensão que não deixa de ter um minúsculo compasso moral, um monstro com uma réstia de humanidade escondida no bolso.

A romaria italiana não fica atrás. Sollima usa o seu conhecimento profundo da paisagem do país a favor da minissérie, com destaque para os planos abertos das vilas do interior onde se esconde Don Minu, o chefe da máfia local que vive em exílio e vê no seu neto um potencial adversário. O grande triunfo desta secção é a insuportável tensão com que todas as cenas se desenrolam, graças a uma luta simbólica e subtil entre a velha guarda e a nova escola. A qualquer momento, pode haver uma traição, uma goela cortada. Tal como a aventura mexicana, é de destacar o realismo, extraindo-se da atividade do mafioso o glamour exagerado de outros projetos da ribalta — muitos dos criminosos são quarentões barrigudos, com coletes de ir à caça e carros velhos, que fazem negócios em casas sujas e abandonadas. É palpável a inspiração na série ‘Gomorra’, especialmente a riqueza dos cenários, repletos de pequenos pormenores que mergulham o espectador numa peregrinação quase documental ao interior de Itália e aos rituais mundanos de criminosos baseados nos da vida real, banais como o vinho que bebem e o chouriço que assam na brasa.

Quanto aos americanos, são talvez o ponto menos forte da narrativa, apesar do trabalho muito competente dos atores. Riseborough impõe uma presença contagiante, também graças à caracterização da sua personagem: uma mulher moderna no meio dos galos que repudiam a sua presença. DeHaan também se esmera, na pele de um jovem com doença de Huntington que quer mostrar ao seu pai que, tal como a irmã, também consegue lidar com os negócios sujos da família, encobertos por uma empresa de importações e exportações. No entanto, a dinâmica entre irmãos, que preenche a maioria desta parte, parece algo trivial e, apesar da aventura de ambos se espalhar por cenários exóticos como Marrocos ou Senegal, somando um agregado de situações inesperadas, a sua história não consegue ter o mesmo impacto que a das outras personagens, mesmo sendo a que talvez apresente um teor mais emocional.

De forma geral, o ingrediente que permite que esta fornada de violência funcione tão bem é a banda sonora da autoria dos Mogway. Se bem que a banda já tenha concretizado alguns instrumentais de classe superior, como o do filme ‘Miami Vice’ (2006), realizado por Michael Mann, este é talvez o seu melhor trabalho. A música que acompanha esta atribulada viagem de um carregamento de droga é absorvente e coincide na perfeição com o ambiente da minissérie, funcionado como espinha dorsal de uma experiência audiovisual de requinte.

No fim, ‘ZeroZeroZero’ ganha relevo como uma fábula obscura sobre o quão longe certas pessoas estão dispostas a ir em busca de poder e lucro, num cosmo selvagem onde as vítimas são peões sem rosto e coração, mero dano colateral, num vil jogo que, tal como uma das personagens refere, mantém a economia mundial à tona. Com vestígios de ‘Sicario’ e ‘Narcos’, é um dos melhores projetos televisivos dos últimos anos sobre o narcotráfico.

Partilhar