‘Widows’, um assalto à América contemporânea

Depois de ser assaltado pelas perguntas difíceis dum jornalista persistente, Jack Mulligan, um político interpretado por Colin Farell, foge a passos largos do palanque onde fazia um discurso de campanha perante um grupo de cidadãos preocupados. Para transportá-lo, um SUV imponente, sinal do seu elevado estatuto financeiro. Dentro do veículo, este tem uma conversa acesa com a sua assessora, sintoma do choque moral que a vida política lhe começa a causar. No entanto, este não é um diálogo banal. Em vez de acompanhar a batalha de lábios, a câmara encontra-se lá fora, no tejadilho do jipe, onde segue o breve percurso desde um bairro pobre de Chicago – casas degradadas, crianças a brincar entre entulho, gangsters a vender droga numa esquina enquanto a pobreza espreita noutra – até à casa de Mulligan, num quarteirão repleto de mansões volumosas rodeadas de jardins verdejantes e portões maciços, não vá alguém do bairro ao lado ser tentado a entrar. Um sublime exemplar, apetrechado do poder altivo do cinema, de como a pobreza e a riqueza podem coexistir a tão curta distância, separadas por um punhado de ruas e pela vontade de quem comanda a agenda política.

Widows

E é de pobres e ricos que Widows, realizado por Steve McQueen, nos fala, já que toda a narrativa assenta na unidade de medida que estabelece a condição económica de cada um: o dinheiro. Pois é do malfadado dólar que um trio de viúvas necessita para satisfazer as exigências de Jamal Manning, um mafioso interpretado por Brian Tyree Henry, que concorre contra a personagem de Farell à cadeira do poder duma zona de Chicago e que foi defraudado pelo falecido marido de Veronica, interpretada por Viola Davis. Depois dum assalto mal sucedido aos cofres de Jamal, Harry, interpretado por Liam Neeson, morre, juntamente com os outros maridos, deixando para trás uma dívida colossal que agora tem de ser saldada pela esposa. Entra em marcha, então, graças a um caderno secreto deixado pelo falecido, um plano para executar um assalto milionário, conduzido pelas esposas abandonadas à mercê dos pecados dos ex-companheiros. Porém, este não é o corriqueiro heist movie. Por trás da preparação do dito assalto, esconde-se um poderoso e sagaz drama social, apinhado de pequenos pormenores que se vão amontoando e criando uma experiência cinematográfica rica em temáticas relevantes. Desde a desigualdade social, demonstrada por várias justaposições entre o bairro pobre e os salões opulentos das figuras políticas, passando pela corrupção financeira e moral, ilustrada pela necessidade vincada nas personagens de que tudo na vida consista em transações de valor, até ao cansaço e raiva inerentes a uma comunidade onde ganham sempre os mesmos, praticamente todas as cenas são recheadas de sabores típicos da realidade socioeconómica norte-americana. A título de exemplo, destaca-se uma cena em que uma das viúvas, interpretada por Elizabeth Debicki, entra numa loja de armas e depara-se com um cenário selvático onde dezenas de pessoas se estorvam em busca da metralhadora automática dos seus sonhos. Escrito por Gillian Flynn, escritora e guionista que tem construído uma carreira deveras frutífera, todas as ideias expostas parecem frescas de sobremaneira, sendo apresentadas, ora duma forma astuta, com frases meritórias que se vão amontoando, ora duma forma chocante, com o aparecimento repentino de petardos emocionais que vão desamarrando os traumas das personagens, principalmente de Veronica, sobre a qual o filme se debruça mais pormenorizadamente. Não obstante, este esquema de sensações apenas funciona graças ao excelente trabalho dos atores. Sem que seja preciso frisar a competência já habitual de Viola Davis, o destaque poderá ir para duas figuras secundárias que oferecem à narrativa uma intensidade incomum, em cenas que, sem essa dose de talento, poderiam muito bem não ser atingidos os níveis de tensão desejados: Daniel Kaluuya, na pele dum criminoso intimidante que faz o trabalho sujo de Jamal, e o veterano Robert Duvall, que encarna o pai da personagem de Farell, um ex-político em fim de vida que orienta o filho pelos pântanos mais fedorentos da sua candidatura política, propulsionando, no processo, a exploração dum dos clichês da política americana: o nepotismo.

Widows

Contudo, McQueen e companhia nunca deixam o filme transformar-se num sermão ou numa peça de propaganda, sendo que a maioria dos diálogos fluem a um ritmo acelerado, sem que exista a tendência comum a vários cineastas de deixar as frases mais impactantes fazer eco na mente dos espectadores. Joe Walker, o editor de serviço, sabe que, às vezes, um beliscão dado no sítio certo, na altura certa, pode causar mais dor que um soco bruto e desmazelado, por isso, a montagem roça a perfeição, percorrendo esta floresta pejada de dramas pessoais com uma precisão egrégia. Recorde-se que no seu currículo já caíram 12 Years A Slave (2013), Arrival (2016) ou Blade Runner 2049 (2017). Por sua vez, a lente manejada por Sean Bobbitt, o cinematógrafo responsável por todas as longas de McQueen, foca-se na ambiguidade das personagens, regateando um conjunto de planos ricos em jogos de espelhos e reflexos que, à semelhança de Shame (2011), pretendem captar as dúvidas e tristezas dos objetos de estudo. Adaptado da série britânica homónima transmitida entre 1983 e 1985, Widows, no meio dum enredo algo convencional, reveste-se duma coleção de pormenores autorais e mitologias sociopolíticas que lhe permitem destacar-se em relação aos demais filmes do género. Numa das cenas fulcrais, enquanto decorre uma perseguição automóvel, podemos ouvir no rádio do carro a história de Albert Woodfox, um homem que passou 43 anos numa prisão em Angola. No meio das luzes do trânsito, da banda sonora leve de Hans Zimmer, e do sorriso travesso de Kaluuya, o protagonista do dito momento, uma frase sobressai: “nada do que faças irá mudar a tua situação”. Pois bem, Steve McQueen resolveu contar-nos uma história sobre essa triste realidade, mas também sobre as raras pessoas que tentam quebrar esse fado. Mesmo que, ao fazê-lo, possam deitar tudo a perder. Como resultado, além dum cofre apetrechado de milhões, faz-se também um assalto à América contemporânea e ao mundo em geral.

Kubrickamente

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