‘Warrior’, Chinatown nunca foi tão promissora

Em 1882, o então Presidente dos Estados Unidos da América, Chester. A. Arthur, assinou o “Chinese Exclusion Act”, um documento que proibia a imigração de pessoas vindas da China. Esta foi a primeira lei implementada com o intuito de impedir a entrada no país de elementos duma determinada etnia ou nacionalidade. Tal como a sua primeira temporada dá a entender, a narrativa de Warrior chegará ao fatídico episódio em que esta assinatura é redigida. Porém, antes disso acontecer, há que recuar até 1878, quando Ah Sahm, um imigrante chinês interpretado por Andrew Koji, chega à cidade de São Francisco, depois de “atravessar o sal”, expressão utilizada pelos seus conterrâneos para descrever a travessia do Pacífico, em navios lotados de almas desesperadas, à procura duma vida melhor. No entanto, o que encontram depois dessa atribulada viagem é nada mais que um instantâneo estilhaçar da promessa divina, enganosa, de que iriam ao encontro da tal “terra dos livres”. Ao invés, deparam-se com a brutalidade policial, com dezenas de agentes da autoridade racistas, prontos a distribuí-los por várias redes duvidosas cujo único propósito é guiá-los para a próxima fábrica ou local de construção que precise de mão de obra barata: uma escravatura pós-escravatura, não andassem os cidadãos ainda a discutir as consequências do abolicionismo instaurado pelo ex-presidente Abraham Lincoln. A sorte de Ah Sahm é que, acabado de sair do barco, entra em conflito com um dos guardas que se encontra no local, o que lhe permite demonstrar a sua extraordinária aptidão para as artes marciais. Como consequência, ao contrário dos seus parceiros de viagem, este terá outro destino: juntar-se aos Hop Wei, o clã chinês mais poderoso de Chinatown, nome atribuído à zona destinada a albergar o povo chinês.

Graças a esta espécie de promoção, o jovem chinês que, devido ao seu parentesco incomum, sabe falar inglês, vê-se envolto nos jogos políticos da cidade, quer nas disputas entre clãs que pretendem dominar as atividades ilícitas dentro de Chinatown — tráfico de droga, armas, álcool e apostas ilegais —, quer nos avanços xenófobos levados a cabo pelas instâncias governamentais. Dum lado, o enredo desenrola-se nas ruas apinhadas de Chinatown, por onde o protagonista e os seus parceiros criminosos passeiam num ritual de marcação de território, com paragem obrigatória num bordel dirigido pela madame Ah Toy, interpretada por Olivia Cheng, ou no covil do traficante Chao, interpretado por Hoon Lee, personagem que vive no limbo, sem lealdades assumidas, o que lhe permite funcionar como um observador externo, sempre pronto a fazer a narrativa avançar com mais uma dica subtil ou um negócio obscuro e oportuno. Porém, é nos quartéis generais dos dois principais clãs que os aspetos mais rasteiros do guião se desenvolvem, principalmente na casa dos Long Xii, fação cujo líder vai sendo aos poucos revogado do seu poder pelas traições sorrateiras da sua companheira, Mai Ling, encarnada por Dianne Doan, uma mulher que se recusa a servir de decoração. Do outro lado, o enredo desenrola-se dentro das paredes autoritárias do “homem branco”, onde o Mayor da cidade, influenciado por um conselheiro deveras persuasivo, faz avançar uma agenda populista e discriminatória, pondo o peso de todos os males da sociedade nos ombros da praga chinesa que vem do Pacífico. Esta vertente da série do Cinemax, canal pertencente à HBO, é surpreendentemente relevante devido à forma como o seu criador, Jonathan Tropper, concebeu várias ligações com o ambiente social e político da atualidade, já que a animosidade para com os chineses em fins do século XIX se assemelha bastante com a que se regista no mundo ocidental face aos fluxos de migração do momento. Levanta-se a questão: é o povo que intrinsecamente nutre ódio e preconceito em relação aos imigrantes ou é esse asco produzido pelos discursos inflamados de políticos que necessitam dum buraco por onde entrar na mente do eleitorado mais frágil ou desatento? O medo como propulsor do voto imponderado, o elixir do populismo. Nesta missão de expor as ansiedades do imigrante chinês, Tropper e a sua equipa de guionistas não pouparam no vernáculo, podendo ouvir-se frequentemente várias expressões diminutas, como “chink” (“chinoca”). Para adensar ainda mais o barril de pólvora, é adicionada à conversa outra etnia, neste caso, os irlandeses, apresentados como a classe operária que enfrenta o desemprego em massa face à mão de obra mais barata fornecida pelos trabalhadores chineses. Como seria de esperar, os irlandeses, apesar de se terem apoderado da maioria dos empregos na polícia local, não veem a competição com bons olhos, funcionando este vasto grupo insatisfeito quase como mais um clã ou gangue — a fazer lembrar a excessiva sectorização mostrada em Gangs of New York (2002), realizado por Martin Scorsese. Está-se, portanto, perante uma história sobre a ideia do que é “ser americano” e quem tem legitimidade para reclamar esse estatuto. Para alcançar tal dinâmica, a narrativa divide as personagens em três estratos sociais distintos — chineses, irlandeses, americanos —, distribuindo-as pelas correspondentes ocupações — criminosos, operários e polícias, patrões e políticos. As colisões entre estes três agrupamentos perfazem uma interessante cogitação sobre como, tanto na altura como agora, o país nunca se conseguiu libertar das agravadas questões raciais, expondo-se igualmente a hipocrisia associada ao processo. Por exemplo, os irlandeses, devido às suas ações na Guerra Civil e ao contributo para a construção das infraestruturas modernas, pretendem ser vistos como “verdadeiros americanos”, ao mesmo tempo que excomungam os chineses, esquecendo-se de que, décadas antes, os seus pais estavam precisamente na mesma situação precária de imigrante indesejado, acrescentando-se ao lodo atitudes supremacistas. Esta exploração temática faz lembrar The Sopranos, série em que os gangsters ítalo-americanos vivem revoltados com a esteriotipagem de que são alvos, só para depois se emaranharem em diálogos onde depreciam outras etnias. Como resultado, duma forma ligeiramente atabalhoada, Warrior acaba por alcançar uma ilustração algo caricatural, mas pertinente, duma imutável América onde vários gangues, clãs, partidos políticos, classes sociais, o que lhes queiram chamar, influenciados por mentiras e preconceitos, lutam entre si, sem tréguas, sem evolução, em prol dos seus interesses.

Como tal, é raro encontrar-se uma série de televisão focada em germinar cenas de pancadaria em que tantos assuntos de ordem ideológica ou intelectual podem ser explorados. Pena que alguns desses momentos de violência sejam forçados, sendo alguns diálogos conduzidos no sentido do expectável soco ou pontapé. Por vezes, parece que as personagens estão num videojogo, funcionando a cidade como o mapa gigante onde vão cumprindo missões e recolhendo recompensas. Dado o mote, as cenas de combate são magnificamente coreografadas, com todos os atores, vindos de projetos semelhantes, a fazerem um trabalho competente e esforçado. É clara a influência dos coordenadores de stunts, Brett Chan e Lin Oeding, ambos com currículos impressionantes, recheados de algumas das melhores cenas de ação de sempre. Ademais, apesar de não igualar o magnetismo de obras do mesmo género, como Peaky Blinders, o trabalho de edição, fotografia e realização é satisfatório, havendo, no entanto, espaço para aperfeiçoamentos. A infusão de referências western no universo asiático, com espaço para uma banda sonora com laivos de hip-hop, é extremamente entusiasmante. Por exemplo, um dos episódios dedica-se exclusivamente a fazer uma homenagem a The Hateful Eight (2015), realizado por Quentin Tarantino: e se mestres das artes marciais algum dia se encontrassem com uma trupe de cowboys mal-intencionados num saloon no meio do deserto? Óbvio que Warrior, inspirada nas escritas de Bruce Lee, tem ainda muito por onde melhorar para poder lutar ombro a ombro com as suas referências mais óbvias — refira-se também Deadwood —, porém, a sua mistura inebriante entre vários géneros cinematográficos e as ideias contemporâneas que têm inundado a sociedade ocidental nos últimos séculos fá-la merecedora de atenção. Se, na segunda temporada já anunciada, os criadores conseguirem melhorar os níveis de produção, intensificar a ruminação sobre as dores do imigrante e corrigir algumas linhas unidimensionais e apressadas, esta romaria até ao “Chinese Exclusion Act” corre o risco de se tornar obrigatória para os admiradores das narrativas sobre gangues, podendo até estar-se perante um inesperado clássico do género. Chinatown nunca foi tão promissora.

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