Vox Lux

‘Vox Lux’, a tempestade Celeste

“Eu não quero que as pessoas pensem demasiado, eu só quero que elas se sintam bem”, é este um dos lemas de Celeste, uma jovem de 15 anos, interpretada por Raffey Cassidy, que se está a lançar na indústria da música pop. Na companhia dum guitarrista intoxicado por uma dose cavalar de vários tipos de drogas, esta vai divagando sobre os seus sonhos e desejos, ilusões e aspirações, enquanto o seu pescoço, coberto por uma tira de tecido, é objeto de estudo duma câmara intrusiva e do homem mais velho que, qual vampiro, vai mirando uma carótida à mão de semear. Pois, tal como em tantas outras histórias sobre a perda da inocência, dada a mordidela, já não há volta a dar. A gargantilha serve para esconder uma cicatriz eterna, um ferimento angariado num tiroteio na escola onde costumava ter aulas, numa aproximação ao fatídico ataque real de Columbine em que dois estudantes entraram pela escola adentro e assassinaram 12 colegas e um professor. Enfim, por mais funesta que a ideia possa parecer, o pós-tragédia serviu de degrau para a jovem sobrevivente tentar uma carreira musical a solo, acompanhada duma irmã preocupada, interpretada por Stacy Martin, um agente bastante oportuno, encarnado por Jude Law, e um narrador cuja voz sarcástica emana de Willem Dafoe. A mensagem inicial do realizador Brady Corbet é muito simples e incómoda: vivemos numa sociedade onde um massacre até já serve de catapulta para a fama, numa comunidade onde a violência se tornou banal. O que interessa é haver assunto, algo que discutir, ou alguém que possa preencher as colunas das revistas cor-de-rosa ou dos jornais sensacionalistas. A desgraça, tal como tudo o resto, transformou-se indiretamente num produto, numa comodidade dos tempos modernos.

Vox Lux

Vox Lux aborda, através duma divisão em vários capítulos, duas fases distintas da vida de Celeste: cerca de dois anos da sua adolescência, onde começa a luta por se transformar numa estrela pop, e um dia da sua vida adulta, já na casa dos trinta, prestes a dar um concerto de regresso à “terra natal”, onde se exploram os resultados da sua subida meteórica ao estatuto de ícone popular. Corbet optou por filmar a primeira metade duma forma mais analógica e barroca, recorrendo frequentemente a montagens Super 8 aceleradas ou ao granulado de 35mm para dar um aspeto ancestral aos primeiros passos de Celeste por aquele que virá a ser um estilo de vida algo destrutivo. A banda sonora da autoria de Scott Walker, um compositor algo experimental, oferece à obra sonidos apocalípticos que discordam completamente do género de música praticado pela jovem cantora, o que, em conjunto com a acre narração de Dafoe, dá a parecer que se está perante o estudo de algo extremamente grave e sinistro, como se os académicos mais trombudos do mundo se tivessem juntado para fazer um estudo pormenorizado e metódico sobre a vida de Britney Spears, desde a fase de menina bonita da América, até ao evidente descarrilamento. Algumas das cenas fazem lembrar A Woman Under the Influence (1974) e Opening Night (1977), ambos de John Cassavetes, ou Dancer in the Dark, filme de 2000 protagonizado pela cantora Björk e realizado por Lars Von Trier, cineasta com o qual Corbet partilha algumas escolhas de casting, assim como o dom da provocação. E, para provocar, é preciso arriscar. E os riscos começam a surgir quando se entra na segunda metade do filme, comandada por uma Natalie Portman frenética, na pele duma Celeste trintona e instável. Ao contrário do que seria de esperar, apesar do salto temporal de quinze anos, à exceção da personagem principal, todo o elenco se mantém igual, opção que poderá parecer algo descabida, mas que pretende realçar duma forma exagerada e propositadamente irrealista o quão drástica pode ser a mudança física e comportamental de alguém que adere à máquina oleada do showbiz – até o sotaque da cantora foi alterado, numa descarada alusão às figuras públicas que, dum ano para o outro, mudam de tom consoante o público alvo a que tentam agradar. A atriz, correndo o risco da sua interpretação poder parecer algo desleixada, adota com precisão este corpo de alguém que vive numa realidade à parte, numa bolha praticamente impenetrável dentro da qual finge ter algo de importante para dizer.  Nesta personagem exuberante residem extratos de algumas das maiores estrelas pop dos últimos anos, começando por Madonna, passando por Lady Gaga e acabando em Katy Perry, ao mesmo tempo que nas entrelinhas podemos pescar o registo precário de figuras como Kanye West que parecem dançar ao sabor de controvérsias potencialmente fabricadas. “There is no such thing as bad publicity”.

Vox Lux

Através das justaposições que vai criando com o mundo atual e com algumas das infames figuras que o habitam, com algumas referências discretas ao tormento racial norte-americano, Corbet, tal como no seu filme de estreia, The Childhood of a Leader (2015), inicia uma meditação sobre a influência macro-social da transformação do carisma numa mercadoria de consumo instantâneo, metamorfose essa assente numa realidade digital onde tudo parece ser absorvido sem contradição – se o meu ídolo o disse, é porque é verdade, mesmo que a mensagem em si apresente mais quantidade do que qualidade, mais polémica do que assertividade. O realizador, que também escreveu o guião, pega neste conceito e atira-o para a temática do terrorismo, depois duma simulação dum ataque terrorista em solo europeu onde os perpetradores do ato usam uma máscara popularizada pela cantora num dos seus videoclipes. Nasce a pergunta para a qual todos parecem precisar de resposta: o que tem a estrela pop Celeste a dizer sobre isto? Ora, Corbet atreve-se a perguntar porque raio queremos nós saber, nós povo, o que uma cantora ou cantor de música pop tem a dizer sobre um evento declaradamente político e religioso como um ataque terrorista? Ou sobre um outro qualquer acontecimento que não esteja relacionado com o mundo do entretenimento? E, no meio desse circo mediático, não estarão os terroristas a obter a atenção que precisamente pretendiam? Porque raio depositamos tanta responsabilidade e expectativa em pessoas cujo único trabalho, supostamente, devia ser apenas entreter? Porém, numa total contradição com os conceitos expostos, Celeste, de copo de vinho na mão, confessa que nada do que venha a dizer ou fazer realmente importa, que os seus fãs vão sempre adorá-la e compreendê-la, por mais estapafúrdios que sejam os seus atos. Tal como esta diz, é tudo uma questão de perspetiva, é tudo uma questão de narrativa. Apesar de nem sempre conseguir expressar ideias claras e concisas, o que nem é de todo negativo, o filme consegue abordar, através da verborreia pseudo-intelectual da personagem principal e do aparato à sua volta, a forma cínica como muitos se habituaram a depositar todas as suas esperanças na cultura popular e nos seus protagonistas mais óbvios, como é o caso dos profissionais do entretenimento. Tão enorme é essa confusão que, em alguns países, algumas dessas celebridades até se candidatam a cargos de máxima importância, tal é a facilidade com que tudo o que dizem de errado é perdoado ou amenizado, com os seus milhões de apoiantes a servirem de almofada. Como tal, o cineasta mostra-nos esta Celeste, esta estrela nascida duma calamidade, no seu pior, em toda a sua desconexão com a realidade do ser humano comum, uma deusa entre os mortais, nos bastidores de toda a máquina de produção que lapida o pedestal onde, fantástica e reluzente, aparece à frente dos seus fãs que, quais crentes religiosos, conhecem a sua mensagem, o seu evangelho, de cor e salteado, por mais banais e lamechas que possam ser os versos das suas músicas, escritos pela cantora e produtora do filme, Sia. Nesse campo, a intérprete australiana merece apreço por ter tido a coragem de fazer uma espécie de auto-sabotagem e auto-crítica à indústria onde prolifera, já que as letras que redigiu para este projeto são propositadamente rudimentares. Depois de nos mostrar a “tempestade Celeste”, e que imunda é essa borrasca, Corbet lá apresenta a cantora em cima do palco e estende esse momento por longuíssimos minutos, quase como um documentário sobre um concerto, sendo subtraída do plano toda a encenação, todo o mise-en-scène que oferece à maioria das cenas cinematográficas mais substância e sentido estético. Ficamos com uma catarse seca, desgarrada mas potencialmente profunda, consoante os passos de dança desajeitados de Portman enchem o ecrã dum vazio descomunal. Tudo aquilo é falso, produzido para entreter, para impressionar os mais suscetíveis. É uma farsa, um logro de proporções épicas que, visto de perto, é bem mais pobre do que parece à primeira vista. E o realizador, que está disposto a falhar estrondosamente, quer que vejamos isso, que a nossa pele enrugue de tão demorada é esta última sequência. Para, no fim, ficarmos com o retrato artístico duma sociedade onde um grande sucesso e um grande escândalo passaram a ter o mesmo valor. Uma aldeia global governada por celebridades, pelos deuses da fama e da popularidade. Um retrato do século XXI.

Kubrickamente

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