Vice

‘Vice’, um humor anómalo e caótico

Numa das intervenções políticas mais virais dos últimos meses, a congressista norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez fez um jogo de perguntas perante o Comité da Câmara dos Representantes. Neste pequeno desafio, esta colocou várias perguntas aos seus interlocutores de forma a tentar perceber – óbvio que esta já sabia que tipo de respostas ia obter – o quão fácil é para um malfeitor, um político recheado de más intenções e interesses económicos, chegar a uma posição de poder dentro do sistema político norte-americano e, quiçá, tornar-se presidente. Para confirmação das ideias de alguns, e talvez surpresa doutros, as respostas do comité às suas perguntas são absurdamente assustadoras, já que é possível verificar que é extremamente fácil para um político – principalmente o presidente – servir os seus interesses pessoais ou dos seus financiadores de campanha no decorrer da sua atividade política, sendo que as leis existentes pouco ou nada fazem no sentido de evitar conflitos de interesses ou atropelos à ética e lógica. “Praticamente não há lei alguma que se aplique ao Presidente”, diz um dos membros do comité. Depois das manobras políticas que foram executadas antes, durante e depois da guerra do Iraque, seria de esperar que essas leis já tivessem sido recriadas de forma a evitar situações semelhantes. Recorde-se que os EUA invadiram o Iraque sob o pretexto de que o país árabe possuía armas de destruição maciça, operação militar que, direta ou indiretamente, encheu os bolsos de vários executivos com interesses económicos ligados ao petróleo, como foi o caso de Dick Cheney, na altura vice-presidente do país – depois de todos os factos expostos sobre este assunto, seria algo ingénuo afirmar o contrário. E, claro, condenou milhares de soldados a uma travessia no deserto, em busca de armas fictícias. Alguns poderão lembrar-se do filme concentrado nesta temática, Green Zone (2010), protagonizado por Matt Damon e realizado por Paul Greengrass. E é para este esquema nefasto que o realizador Adam McKay nos atira, recorrendo mais uma vez ao seu já habitual tom mordaz e escarnecedor, optando, desta vez, por uma abordagem ainda mais excêntrica do que a levada a cabo no seu sucesso de 2015, The Big Short. Desta vez, o cineasta ataca tudo e todos.

Vice

Em Vice, acompanhamos o percurso de Cheney, interpretado por Christian Bale, desde uma juventude boémia, marcada pela expulsão da universidade de Yale devido a uma série de excessos, até à sua ascensão como um dos homens mais poderosos do planeta, depois de ter saltado da liderança da Halliburton, uma petrolífera multinacional, para braço-direito de George W. Bush, interpretado por Sam Rockwell, mesmo que muitos afirmem que o segundo era apenas um fantoche ao serviço dos apetites do primeiro. Um dos principais problemas do filme talvez seja precisamente a sua fase inicial, onde assistimos à imersão do político nos corredores de Washington D.C., conforme este vai subindo na vida como assistente de Donald Rumsfeld, encarnado duma forma algo caricatural por Steve Carell. Adicionando à receita a esposa e escritora Lynne Cheney, interpretada por Amy Adams, as motivações primárias destas personagens, a centelha que acende o rastilho, são contextualizadas duma forma algo pobre, sendo criada a ideia de que o seu único combustível é a fome de poder, derivada duma frieza e ausência de amor pelo próximo cuja raiz fica por identificar – é aceitável, mas também demasiado simplista. Temos, portanto, um vilão e personagem principal sem um pano de fundo emocional concreto e palpável. Para mais, alguns dos saltos temporais que pautam a evolução da carreira de Cheney são algo confusos, nunca ficando devidamente assente que este homem, sem qualquer talento em particular, conseguiu fazer parte de todas as administrações republicanas desde Nixon, com destaque para o cargo de Secretário da Defesa no governo de George Bush sénior. Porém, à medida que os cabelos da personagem embranquecem, a narrativa vai ganhando ritmo, entrando em cena a comédia negra escrita por McKay. Apraz referir que estes laivos satíricos podem não agradar a todos, pois está-se perante um humor anómalo e caótico, com direito a quebras da “quarta parede” – à semelhança de The Big Short -, versos shakespearianos e até um audaz momento em que o realizador finge acabar o filme, logo após uma das raras cenas em que demonstra o lado humano do político. À imagem da congressista munida de perguntas incómodas, este veio para expor, duma forma bastante corrosiva, como estes malfeitores se apoderaram do trono americano, duma Casa Branca de calças pelos joelhos, a fazer lembrar o wild west sem leis, ou pelo menos sem as que impedem grandes corporações de usar o sistema político para benefício próprio. Quando, depois de abdicar do cargo de CEO da Halliburton para se tornar vice-presidente, a personagem de Bale anuncia que vai receber 26 milhões de dólares pela rescisão amigável, o dobro do esperado e estipulado, a sua esposa, justamente descrita como uma pessoa culta e inteligente, comenta “Pelo menos são espertos”. Em adição, o enredo consegue ganhar ramificações globais, à medida que a influência de Cheney e dos seus cúmplices em assuntos na altura emergentes, como o aquecimento global ou as notícias enviesadas, vai sendo demonstrada, criando-se um inevitável cordão entre os devaneios daquela época e a realidade sociopolítica atual. Vice é um filme descaradamente político, raivoso, talvez partidário, mas isso não invalida que tenha alguma razão, já que, por entre conversas imaginadas e sequências ligeiramente maniqueístas, apresenta factos concretos.

Vice

No campo das conquistas técnicas, há que dar mérito aos profissionais responsáveis pela caracterização, desde os artistas de maquilhagem, até aos cabeleireiros. A parecença das várias personagens com os modelos da vida real é deveras fantástica, com destaque para as personificações de Condoleezza Rice e Colin Powell, interpretados por LisaGay Hamilton e Tyler Perry. Quanto ao protagonista, começam a esgotar-se as palavras para descrever o abismal talento dum ator que tem posto a sua vida em risco em nome da sétima arte. Apesar de não ser uma personagem propriamente forte ou devidamente construída do ponto de vista emocional, este Dick Cheney é diabólico, quase como se estivéssemos perante um drama sobre Ares, o deus da guerra, capaz de provocar alguns arrepios só através duma simples fala ou do olhar calmo e ardiloso que usa para perscrutar todas as situações que vai enfrentando: uma espécie de anti-herói disfuncional. Este efeito é aumentado pela fotografia de Greig Fraser que consegue compensar um conjunto de planos algo banais – a Casa Branca e o Iraque são captados duma forma bastante mortiça – com essa energia negra que emana das conversas entre políticos, com o evidente auxílio do editor Hank Corwin. A banda sonora, a cargo do talentoso Nicholas Britell, colaborador habitual de Barry Jenkins, conjura uma melodia maquiavélica e insidiosa, contribuindo para a patente recriminação do homem que, entre outras coisas, esburacou as zonas cinzentas da lei norte-americana de maneira a legalizar atividades como a tortura ou a iniciar a invasão do Iraque baseada numa das maiores mentiras do século XXI.

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Felizmente para os apanhados desprevenidos e infelizmente para os que já tenham estudado o assunto com alguma dedicação, Vice não acrescenta quase nada de novo ao tema, ficando-se por raciocínios do passado, agora apresentados com uma máscara divertida e recorrendo a várias metáforas visuais, correndo o risco de ser avaliado por alguns como uma constatação do óbvio. Com todas as suas virtudes e inconsistências, tem potencial tanto para ser adorado como repudiado, para ser visto tanto como um paladino das verdades difíceis como uma autêntica peça de propaganda liberal. Tudo isto porque McKay não se proíbe de praticamente insultar os seus objetos de estudo, como, por exemplo, quando, logo no princípio do filme, chama “sacana dissimulado” a Cheney. Além disso, fez também questão de introduzir várias linhas de diálogo em que atribui à audiência uma certa culpa pelos acontecimentos nefastos descritos, imputando ao cidadão comum parte da responsabilidade na eleição de tais antagonistas, o que não deixa de ser uma observação potencialmente justa, tendo em conta que, ainda recentemente, foi eleito um presidente que, segundo o “mentirómetro” de jornais como o The Washington Post, nos dois anos desde a sua eleição, proferiu mais de 8 mil afirmações falsas ou enganadoras, assim como incitou a atitudes ominosas, tendência que já se vinha a revelar durante a sua campanha eleitoral. Talvez duma forma demasiado agressiva, ou pouco subtil, o realizador tenta atirar-se à já estudada e contabilizada falta de atenção do eleitor, demasiado ocupado com as mil e uma vias de entretenimento que lhe enchem os olhos e o intelecto. Numa cena pós-créditos, é feita uma tão corajosa quanto despropositada referência aos filmes “Velocidade Furiosa”. Como tal, muitos espectadores poderão sentir-se injustiçados por Vice, um filme que, tal como a sua personagem principal, não olha a meios para atingir os fins. Dispara para todos os lados, quando, pelo caminho, podem ser feitos danos colaterais. A diferença entre Cheney e McKay é que, provavelmente, o segundo fá-lo por uma boa causa.

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