Peaky Blinders

Ver ‘Peaky Blinders’ é uma experiência memorável

Quase todos os episódios começam da mesma forma. Com um rosto jovial iluminado por olhos azuis penetrantes, Thomas Shelby, interpretado por Cillian Murphy, surge no plano. Sereno, confiante, a esgotar mais um cigarro, espalha o seu sopro diabólico pelo cenário. Mas Tommy nunca está sozinho nestas introduções. Como um fantasma que nos sussurra ao ouvido, surge a voz grave de Nick Cave. ‘Red Right Hand’ é o tema. Estranha e sinistra, ninguém se atreveria a dizer que existe melhor balada para acompanhar estes momentos, não fosse esta a perfeita ligação entre a personagem e o ambiente saburrento de Birmingham. Conforme a intensidade da melodia vai aumentando com a ajuda de um áspero refrão, eis que surge o sonido agudo e estridente que os fãs da série já tão bem conhecem e, branco no preto, como que desejosas de interromper o nosso deleite, surgem as letras que materializam o nome do gangue liderado por Mr. Shelby: Peaky Blinders, dando o tiro de partida para mais um episódio.

Peaky Blinders

A série romantiza a Inglaterra industrial do princípio do século XX, após a Primeira Guerra Mundial, onde o fenómeno das casas de apostas era comandado por várias fações criminosas. Um desses grupos são os “Peaky Blinders”. Conhecidos por serem de origem cigana, pelo penteado estilo militar e as suas boinas com lâminas escondidas, são liderados pela família Shelby, que no seu íntimo tem também a própria hierarquia machista da qual sobressai Thomas. Nele reconhecemos instantaneamente o mesmo conflito interior que outrora assaltou os olhos de Michael Corleone em The Godfather (1972) – homens que apenas querem ser felizes, mas que se deixam tingir por nódoas difíceis de lavar, pelas circunstâncias nefastas do meio envolvente e pela necessidade de proteger as pessoas de quem gostam. A sua família é duma variedade psicológica notável. A tia Polly (Helen McCrory) como voz do bom senso, o irmão mais velho, Arthur (Paul Anderson), descontrolado, imprevisível, uma personagem ímpar e incansável para a vista, e os irmãos mais novos, John (Joe Cole), Ada (Sophie Rundle) e Finn (Alfie Evans-Meese e Harry Kirton), que contribuem com a dose de juventude e imprudência que qualquer conto sobre família precisa. Juntos, e com a adição das futuras relações amorosas e “profissionais”, visto que a série já conta com quatro temporadas, formam uma espécie de Sons of Anarchy meet Boardwalk Empire, em que as motas foram trocadas por cavalos e carros clássicos, e a paisagem arejada de Atlantic City se encheu dos tons sujos da Inglaterra pós-guerra.

Peaky Blinders

Peaky Blinders destaca-se em relação aos demais projetos televisivos devido aos aspetos suplementares e técnicos. Os inimigos da família Shelby, todos eles interpretados por atores consagrados, são um dos primeiros sinais da importância que a equipa de produção dá aos enredos secundários. Desde um polícia conservador trazido à vida pelo veterano Sam Neill, passando por Alfie Solomons, o líder dum grupo criminoso judeu interpretado por Tom Hardy, ou Billy Kimber, um dos gangsters mais temidos de Birmingham interpretado por Charlie Creed-Miles, até um mafioso italiano encarnado por Adrien Brody, uma panóplia de sotaques e personalidades oferece vivacidade e diversidade a cada minuto da narrativa. Escrito por Steven Knight, o guião perfaz um caldeamento da linguagem corrente de ladrões e ímanes de sarilhos, e o dialeto de veludo que leva homens astutos longe, caso sobrevivam ao monstro devorador que vive nas traseiras de bares umbríferos e adegas subterrâneas. A banda sonora ganha importância redobrada pela maneira como fabrica uma admirável envolvência, quer nos momentos efusivos, quer nos momentos contemplativos. Nick Cave & The Bad Seeds, The White Stripes, Artic Monkeys, PJ Harvey ou Radiohead são algumas das bandas que figuram numa lista prodigiosa. Alguns espectadores poderão até perguntar-se se as faixas em questão não foram produzidas a pensar nas cenas específicas em que são tocadas. A acrescentar a tudo isto, a forma como realizadores como Tim Mielants ou Colm McCarthy captam a aura vintage e mal lavada de cidades como Birmingham ou Londres dos anos vinte contribui decisivamente para que todos os cenários transpirem vivacidade. A fotografia, baseada num estilo noir com laivos de videoclip, é peça fundamental na consagração sensorial da obra. Face à subida abrupta da família Shelby na pirâmide económica, a equipa de fotografia soube transportar o ambiente sombrio dos bairros fumarentos de Birmingham, captado na maioria das vezes com SteadyCam de forma a garantir uma experiência geométrica, para as mansões aristocráticas onde o gangue faz as suas negociatas mais ambiciosas. Como tal, dá-se uma mistura inebriante entre uma atmosfera glamorosa, com os Peaky a organizarem as suas primeiras festas e galas opulentas, e o lixo psicológico trazida do bairro – champanhe e violência. Entra-se, portanto, no drama de época, à moda do outro grande sucesso britânico, Downton Abbey, sem se perder uma atitude típica dos western americanos, com o homem mais rico e charmoso da sala a passear de pistola no coldre, por baixo dum fato por medida e dum manto de ilegalidades. Inspirada no Autochrome, antigo processo de fotografia colorida patenteado pelos irmãos Lumière em 1903, e uma das principais ferramentas para obter fotos a cor durante o início do século XX, a colorista Simone Grattarola oferece a todos os episódios um aspeto “dessaturado”, destacando-se as cores primárias – vermelho, verde e azul – no meio dum tom ligeiramente sépia.  O objetivo primordial desta coloração é despertar uma resposta emocional no público, oferecendo-lhe uma lasca de nostalgia, o pressentimento de estar a ver algo arcaico ou sagrado, no meio de quadros poluídos por fumo e sangue. Todavia, para contrariar uma potencial sensação de manufaturação, sob pena dos espectadores acharem os planos demasiado ensaiados ou artificiais, é usada uma câmara de mão – lentes de 35mm por norma – para captar os momentos mais instáveis dos protagonistas, como quando estão excessivamente embriagados ou em situações de perigo. Assim, a série entra numa explosiva espiral de improvisação, oferecendo às personagens um imaginário de intempestividade, e aos cenários que as rodeiam o mantra da singularidade. Como tal, ver Peaky Blinders é uma experiência memorável.

Peaky Blinders

A série britânica, produzida pela BBC, vai a caminho da quinta temporada e os direitos de transmissão foram adquiridos pela Netflix, numa altura em que já se fala numa longa-metragem que estará a ser planeada por Knight, que quer passear por terras norte-americanas e esticar a história até às primícias da Segunda Guerra Mundial. Tudo começou com uns GIFs de Tommy de cigarro na boca nas redes sociais, e a admiração confessa de alguns artistas como David Bowie, que inclusive deu autorização para ‘Blackstar’, o seu último álbum, poder ser utilizado pela produção, et voilà, sem nenhuma máquina de marketing gigante por trás, o show  começou a despertar a atenção dos espectadores britânicos e a propagar-se pelo mundo fora. O que começou como uma história simples, focada num família de homens traumatizados pela guerra, transformou-se num drama épico com ramificações sociais e políticas, sendo que alguns dos temas abordados navegam pela emancipação feminina, a corrupção das mais altas instâncias do poder ou até a ascensão dos movimentos anticomunistas típicos da altura. Além da sua sagacidade e capacidade de entreter, o enredo é deveras complexo e o universo em que se situa respira vida e fervura. Conforme a parada foi aumentando, o projeto não só cumpriu tudo aquilo a que se propôs, como excedeu as expectativas duma forma cativante, à medida que é explorado o mito dum homem que encontra no crime uma escada para a ascensão social, mas também um refúgio dos traumas e desgostos que a vida lhe vai proporcionando.

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