‘Us’, entregues à pobreza

Esta crítica revela o tema de algumas das metáforas presentes no filme, o que pode influenciar o visionamento do mesmo.

Na primeira cena de Us, realizado e escrito por Jordan Peele, deparamo-nos com uma publicidade televisiva à Hands Across America, uma campanha de beneficência que, em 1986, teve como objetivo combater a fome. O evento reuniu cerca de 6,5 milhões de norte-americanos, que, além de doarem dez dólares à cabeça pela participação, formaram uma corrente humana, em teoria, suficientemente longa para atravessar o país dum lado ao outro, não fossem as expectáveis quebras e obstáculos geográficos. Segundo vários relatos, dos 36 milhões de dólares angariados, apenas 15 foram doados, já que o resto serviu para cobrir as despesas inerentes à organização. Apesar de, à primeira vista, esta ter sido uma iniciativa megalómana – toda a ajuda é bem-vinda -, muitos descrevem o evento como uma metáfora perfeita para a América dos anos 80, na altura comandada pelo presidente Ronald Reagan. Um país onde a classe média se alimentava dum otimismo absurdo, como se as gravíssimas desigualdades sociais que se começavam a evidenciar pudessem ser resolvidas com uns quantos milhões de dólares e com essa teoria reaganesca de que tudo chegaria a bom porto se déssemos as mãos e cantássemos o ‘Kumbaya’. Pode afirmar-se que, nos bastidores, Reagan, descrito universalmente como um defensor dos bons costumes e valores, cantou uma música bem menos unificadora que a entoada aos ouvidos do povo, já que fez avançar uma série de leis e ginásticas fiscais destinadas a beneficiar os mais ricos e os lobbies intrinsecamente ligados à causa conservadora ou republicana – foi há pouco tempo que o realizador Adam McKay abordou esta questão no seu último filme, Vice (2018). Enquanto isso, a classe baixa levava uma paulada, aumentando agressivamente o número de pessoas em condições de pobreza, ao mesmo tempo que o presidente fazia discursos onde se afirmava como uma parte integrante do povo, o famoso “Nós, o Povo”. A mendicância tornou-se um dos problemas mais graves do país, situação que se acentuou com a crise económica do início do século XXI e culminou no crash da bolsa em 2008.  Tem-se vindo a notar, desde então, um agravamento da desigualdade de rendimentos, registando-se atualmente os maiores níveis desde 1928, de onde sobressaem 41 milhões de pessoas entregues à pobreza. Um dos relatos mais impressionantes desta realidade é o elaborado por Philip Aston, um relator especial das Nações Unidas que fez uma viagem pelos EUA acompanhado pelo The Guardian. Este país, promovido como a “terra dos livres” – e Hollywood partilha dessa culpa -, o propulsor do tal sonho idílico, é, na verdade, o pesadelo de muitas pessoas, privadas de viver uma vida normal, enclausuradas numa prisão, num túnel subterrâneo onde a sua singularidade como indivíduos, a possibilidade de fazer escolhas, é praticamente nula. Por cada rico que esbanja em bens supérfluos, existe um pobre que quase nada tem, por cada jovem que pôde frequentar a universidade, aprender a falar outra língua ou ter lições de ballet, existe outro que não teve acesso a nada disso, por cada idoso que morreu na opulência dum lar quente ou dum hospital privado, existe algum que morreu ao relento. E cabe a cada um dos privilegiados conviver com essa realidade, conscientes ou não de que, para a sua aventura pelo capitalismo moderno funcionar, alguém tem de levar com o pó na cara – um sósia, um clone, alguém que poderia ter o nosso emprego, desfrutar as nossas férias ou conduzir o nosso carro, alguém que poderia ser quem nós somos, mas não é.

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Somos então apresentados à típica família de classe média – um casal heterossexual e dois filhos – que parte para umas férias nos arredores da praia de Santa Cruz, Califórnia. O pai, interpretado por Winston Duke, veste uma camisola da Universidade de Howard, a mãe, interpretada por Lupita Nyong’o, é uma ex-dançarina de ballet com um passado traumático, e os filhos, uma rapariga e um rapaz mais novo interpretados por Shahadi Joseph e Evan Alex, aparentam levar uma adolescência e infância normais, rodeados de engenhocas e carinho. Deste retiro familiar bastante convencional, destacam-se os reparos do pai em relação aos bens mais sofisticados dos amigos e vizinhos, um casal composto por Elisabeth Moss e Tim Heidecker, descritos como sendo algo superficiais e materialistas. Tudo isto é normal, todos nós já cobiçámos algo do próximo, e Peele não pretende demonizar tal comportamento: o seu objetivo é muito mais ambicioso. Suficientemente endinheirado para passar férias junto ao lago e até comprar um barco a motor, o pai não se abstém de invejar o maior barco do amigo e o seu carro e casa super tecnológicos. Como tal, de que reclama o sujeito quando um quarteto de clones, doppelgängers, uma família igual à sua, mas sem o seu aspeto saudável, educação e riqueza material, aparece à sua porta disposta a tirar-lhe tudo, inclusivamente matá-lo? Não é isso que ele, duma forma subconsciente e “não-mortal”, quer fazer ao seu amigo e vizinho? E não é isso que as pessoas desesperadas, na vida real, são praticamente obrigadas a fazer quando se deparam com o pólo oposto da riqueza? O realizador pega nestes conceitos e, a partir do momento que esta família-espelho, com uma vestimenta vermelha e armada de tesouras, aparece na vida dos protagonistas, o que se tem é um filme de terror, com a típica componente de invasão do domicílio, cuja carga metafórica permite compensar e quase fazer esquecer uma abordagem técnica relativamente corriqueira. À exceção de algumas sequências, a estranheza do filme é provocada pela premissa singular e não pela forma como as cenas foram filmadas e editadas. Apesar de algumas cenas serem enfeitadas com ângulos e jogos de sombras interessantes, a fazer lembrar algumas das artimanhas de Alfred Hitchcock, George Romero, Robert Aldrich ou Don Siegel, outras parecem saídas do habitual filme de série B, restando alguma fome por planos mais artísticos e lembráveis. Em sentido contrário, o trabalho dos atores é soberbo, com destaque para Nyong’o, que consegue gerar intensidade dramática através duma fantástica interpretação bipolar. No departamento do som, Michael Abels conjurou uma banda sonora tétrica que Peele soube aproveitar ao máximo, misturando-a muitas vezes com efeitos de câmara lenta que cedem grandiloquência a alguns momentos que, de outra forma, perderiam algum impacto. Mas o realizador também tem tendência para o exagero. Por vezes, tal como no seu filme anterior, Get Out (2017), a necessidade intrínseca de expor referência atrás de referência, conceito atrás de conceito, e também de insistir no humor, faz com que o terror emagreça, condenando a vertente literal do filme a alguma banalidade. O problema não está na quantidade de informação, mas sim na forma como essa hiper-exposição de ideias prejudica a sensação de alarme que é suposto vigorar. No dia em que Jordan Peele aprender a controlar alguns dos seus impulsos e fizer corresponder a sua capacidade técnica ao brilhantismo das suas ideias, poderemos estar perante um dos cineastas mais competentes do século XXI.

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Em todo o caso, é deveras impressionante a elasticidade da metáfora para a sociedade norte-americana: “Us” pode ser uma sigla para “United States”. A interpretação da mesma pode cair sobre a forma como as classes média e alta ignoram a miserável situação duma porção muito considerável do país. Simultaneamente, podemos estar perante uma alegoria da sociedade digital em que vivemos atualmente. Os clones, devido ao seu comportamento violento e deseducado podem ser vistos como o ódio e desinformação que assaltam as nossas casas todos os dias através das redes sociais e televisão, por mais que tentemos evitá-los ou combatê-los – no princípio do filme, a filha faz uma breve menção a uma notícia falsa. E esta família bem que tenta combater estes invasores que, caso sejam bem-sucedidos nessa missão de chacinar os seus alter egos, substituirão pessoas perfeitamente normais por si próprios, pessoas com crenças acentuadas e uma atitude absurdamente hostil. Com isto, e com as várias situações inesperadas que se vão desenrolando, o cineasta abre a porta a uma discussão sobre a importância da educação. Em Us, as primeiras personagens a morrer, a serem “substituídas”, são as que revelam um grau de culturalização menor, prontamente trocadas pelo seu alter ego odioso, perfazendo-se assim a ideia de que se está perante um potencial embate entre os valores considerados corretos e a insipiência, a brutalidade e rancor, de certa forma, entre a verdade e as consequências nefastas de acreditar na mentira. Ademais, tal como Stanley Kubrick fez em The Shining (1980), o cineasta molha os pés no genocídio dos nativo-americanos. Recorde-se que uma das partes mais ignoradas da História norte-americana, e moldada a bel-prazer pelo homem branco, foi a usurpação das terras pertencentes aos índios para criar as comunidades onde, hoje em dia, assentam metrópoles gigantes. Numa das cenas iniciais do filme, num flashback que retrata a infância da mãe, esta, enquanto criança, entra numa casa de espelhos, um cenário importante para a narrativa, que tem um índio desenhado na entrada. Mas, quando esta, já adulta, regressa ao mesmo local, por cima do índio, reaproveitando-se a figura original, foi desenhado o mago Merlin. O índio continua lá, simplesmente foi remetido ao esquecimento, substituído por uma figura fabulística. Existe, portanto, uma subtil alusão à forma como o “sonho americano” tem prosperado devido à desconsideração dos horrores vividos pelos marginalizados, sejam eles os nativo-americanos, as minorias vindas de outros países ou pessoas em situação de pobreza, muitas delas sem teto. Audaciosamente, neste seu cosmo surreal e alegórico, Peele obriga as suas personagens a confrontarem-se com essa supressão, com as consequências do capitalismo e do sistema socioeconómico norte-americano: para eu viver bem, existe alguém semelhante a mim que, matematicamente, tem de viver mal, alguém que foi esquecido, apagado da História, num país onde apenas é dado tempo de antena aos vencedores. E, todos nós, as pessoas consideradas normais dentro do imaginário do filme, continuamos a relegar para segundo plano a terrível e degradante situação em que alguns vivem, desviamos o olhar, mudamos de canal, “o que os olhos não veem, o coração não sente”, damos uns trocos aqui e acolá, e, tal como esta família, continuamos a usufruir despreocupadamente dos nossos pequenos luxos. Jordan Peele pergunta: e se, um dia, os derrotados, completamente cansados de serem desprezados, nos baterem à porta? Será a sua raiva justificada? Quem é afinal o vilão? Será que, de tão presos que andamos aos pensamentos sobre aquilo que podemos ter – iphones, computadores, televisões 4K, carros, jóias –, não andamos a ignorar o outro lado da balança?

Kubrickamente

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