True Detective

‘True Detective’, dano colateral

A noite vai longa e tenebrosa. Wayne Hays e Roland West, dois ex-detetives para lá da idade da reforma, espreitam pela janela do escritório do primeiro. Desconfiados, sobressaltados pela sensação de estarem a ser vigiados, decidem armar um ardil para conseguirem apontar a matrícula do carro que, há semanas, se encontra do outro lado da rua, oculto na penumbra. Que nem um louco, Wayne sai de repente para a rua com um bastão de basebol na mão e dirige-se destemidamente para junto do carro. O veículo põe-se em fuga, não sem antes Roland, um homem de porte relativamente pequeno, ter aproveitado a manobra de diversão para decifrar os dígitos pintados na dita chapa de metal. “Conseguiste?”, pergunta Wayne, enquanto olha para o fundo da rua onde se dissipam as luzes traseiras do automóvel de cor escura, o mesmo negrume que está prestes a apoderar-se da sua visão e do seu pensamento. Subitamente, tudo à sua volta é engolido pela escuridão, sendo o candeeiro da rua a sua única bóia de salvação, uma réstia de esperança no meio do breu. O homem, confuso e instável, olha em redor: tudo se desvaneceu, inclusivamente o seu amigo e parceiro de longa data, sobrando a sua singela figura no meio dum oceano negro. Na verdade, Wayne está a ficar demente e este é mais um dos colapsos da sua mente hostil, episódios que o privam duma convivência normal com os que o rodeiam. Não obstante a óbvia metáfora visual para o estado mental da personagem, o frame alcançado poderia funcionar como wallpaper definitivo da série True Detective: um homem a quem apenas resta um resquício de luz, à volta da qual as trevas se adensam e ganham terreno, um monstro omnipresente que empurra o mundo para a ausência de moral. E este sujeito, rodeado por esse veneno maléfico, com o seu intelecto e determinação, tem de combater a própria extinção, o desaparecimento da sua humanidade face a acontecimentos horríveis – tem de criar mais luz. De repente, um pequeno foco acende-se na lateral do plano. Ao longe, surge uma tímida fogueira no meio do escuro, atraindo o velho Wayne às proximidades. Como um prisioneiro em fuga que segue a luz ao fundo do túnel, este alcança-a finalmente e depara-se consigo, 25 anos mais novo, a queimar roupas ensanguentadas nas traseiras da sua própria casa.

True Detective

A terceira temporada da série apresenta uma narrativa tridimensional que tem início em 1980, quando duas crianças desaparecem numa pequena comunidade do Arkansas. Cabe a uma dupla de detetives na flor da idade, Wayne e Roland, investigar o caso. Sendo que as outras duas linhas temporais decorrem em 1990 e 2015, é possível depreender desde cedo que a investigação irá conduzir os dois polícias a um renque de caminhos sem saída, enfrentando cada um à sua maneira as pressões psicológicas inerentes a um evento de contornos tão perversos. Porém, ao contrário das duas temporadas anteriores, esta nova criação de Nic Pizzolatto concentra-se na sua grande maioria numa personagem sol, o detetive Wayne Hays, sendo que as demais caricaturas funcionam como planetas que giram ao seu redor. E, para o interpretar, melhor ator não poderia ter sido escolhido que Mahershala Ali. O seu mergulho na pele dum detetive negro, ex-combatente do Vietname, imerso numa comunidade sulista, é deveras impressionante, principalmente devido à forma como o ator se consegue adaptar aos saltos temporais, alternando entre maneirismos e tons de voz. A decisão por parte de Pizzolatto de incorporar o Wayne senil como motor da narrativa – o septuagenário é entrevistado por uma jornalista criminal que lhe pede para recontar a investigação – dá oportunidade à história de se desenrolar duma forma tripartida e, por vezes, incomum, com o guionista a aproveitar as falhas de memória do ancião para adensar o mistério inerente ao caso. Podendo ser acusado de despertar alguma monotonia, o enredo move-se como as roldanas dum relógio, umas mais pequenas outras maiores, mas todas a circular com o mesmo propósito. À semelhança das outras temporadas, cresce uma sensação de subjugação a uma força maior, um filme de horror que se esconde nas entrelinhas, com as várias referências a redes de pedofilia alimentadas por pessoas poderosas ou entidades megalómanas a atingirem o nervo do espectador. No entanto, desta vez, Pizzolatto, com o auxílio do criador de DeadwoodDavid Milch, e dos realizadores Jeremy Saulnier e Daniel Sackheim, conseguiu literalizar esse pressentimento daninho ao propagandear a desvirtuação das entidades policiais e políticas encarregues de resolver o caso das duas crianças desaparecidas. Para tal, o autor apresenta-nos políticos demasiado preocupados com encerrar dossiers, desertos que apareça um bode expiatório que dê o corpo ao manifesto. Discretamente, aponta-se para uma América rural onde a verdade perdeu valor, onde qualquer “tanga” mal amanhada satisfaz a necessidade generalizada de sangue, de encontrar culpados. Exemplo disso é a maneira conveniente como o caso é encerrado em 1980, para frustração do detetive Hays. É feita, portanto, uma descrição quase lovecraftiana das instituições americanas, torres aparentemente imponentes e maciças, mas que deixam qualquer um abusar dos mais fracos e dependentes – um país a cair aos bocados, onde os ricos e poderosos raramente são chamados à pedra. Recorde-se que H. P. Lovecraft revolucionou o género de terror, ao adicionar-lhe elementos típicos da ficção científica e fantasia, ficando conhecido por contar histórias cínicas e pessimistas, onde se destaca a hostilidade do universo face ao ser humano padrão. No epicentro deste báratro sem rosto, os dois detetives, as roldanas minúsculas do relógio, são obrigados a fazer uma escolha moral: ou viram a cara para o lado e ignoram a decadência do sistema que os rodeia, ou tentam combatê-la com todas as forças, mesmo que isso lhes custe uma vida tranquila. O grande triunfo desta terceira temporada de True Detective é a pessoalização dessa decisão entre ignorar ou lutar, consoante a personagem de Ali varia entre desafiar as autoridades que lesam a busca da verdade e dar o braço a torcer de forma a proteger a sanidade das suas relações afetivas – um homem que, para onde quer que olhe, apenas vê escuridão. No entanto, nem tudo é um mar de rosas neste pernicioso reino de Pizzolatto. Alguns dos seus problemas do passado voltaram para assombrar esta nova narrativa, como, por exemplo, personagens femininas escritas de forma redutora. Apesar de fazer um esforço com a companheira de Hays, uma professora interpretada por Carmen Ejogo que resolve escrever um livro sobre o caso, a personagem acaba por ser atirada para um conjunto de situações em que o sexo é a única solução. Pior fica a mãe das crianças desaparecidas, interpretada por Mamie Gummer, retratada como uma mulher chorosa, conflituosa, que justifica o seu comportamento errante com frases toscas e pouco imaginativas como “tenho a alma duma puta”. Outro potencial problema reside na abordagem algo leviana à questão racial. O detetive Hays encontra-se numa incomum posição de autoridade tendo em conta a sua cor de pele, dentro duma esfera laboral conhecida por ser tendencialmente racista. Se bem que existam várias insinuações do tema, a sua exploração atinge sempre terreno de ninguém, recambiada para um limbo confortável onde não existe recinto suficiente para as opiniões se vincarem. Alguns espectadores poderão apreciar o espectro alargado dessa abordagem, outros poderão sentir-se frustrados tendo em conta o enorme potencial – não concretizado – da personagem para ser explorada dum ponto de vista social e estrutural, principalmente na linha temporal dos anos 80, altura em que a discriminação racial ainda era – será que deixou de ser? – um comportamento habitual na região onde a história decorre.

True Detective

À divagação moral das personagens juntam-se trabalhos de realização, fotografia e produção bastante atraentes. Cada linha temporal apresenta um visual diferente, assim como as várias personagens, cuidadosamente enfeitadas com próteses, vários tipos de maquilhagem e até perucas. Enquanto 1980 é filmado com um filtro sujo e amarelado, em contraste, 2015 é captado duma forma muito mais limpa e realista, o que diverge com a mente instável do protagonista dessa linha temporal. De acordo com a premissa de que tudo o que é demonstrado faz parte das memórias do septuagenário, o objetivo da equipa criativa passa por dar um aspeto ancestral às memórias mais longínquas, quase como algo que poderá não ter acontecido tal como é contado. Por norma, sistemas estéticos deste tipo, misturados com um guião que sugira tal esquema, ajudam a adensar as dúvidas e suspeitas dos espectadores, especialmente quando surgem momentos em que se abre espaço para desconfiar da legitimidade do narrador – claro que o velhote Roland West, interpretado por Stephen Dorff, acabará por aludir a um terrível ato do passado que ambos terão cometido, mas que Hays, abrindo o tal espaço para a dúvida, insiste em não conseguir recordar. No fundo, esta nova entrada em True Detective tem o coração dum genuíno noir, duma história onde a resolução de mistérios apenas conduz a mais dúvidas, tornando-se a satisfação da descoberta uma utópica miragem, uma morada impossível de encontrar, enquanto os paladinos da verdade, os que optam por lutar contra a escuridão, acabam por ser mastigados por um sistema injusto e ineficaz. São dano colateral.

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