‘Tigertail’, nem todos os sonhos valem a pena

A inspiração nos planos de Terrence Malick é manifesta. Um rapaz corre no meio de um campo de arroz, enquanto à sua volta reluz o brilho dourado das altivas folhas que lhe condicionam o caminho. Até chegar a casa, onde a sua avó o esconde dentro de um armário debaixo do lava-loiça. Lá fora, agiganta-se a presença de uma dupla de soldados mal-encarados, em busca de dissidentes, cidadãos não-registados, como é o caso do jovem. No fim, volvido o susto, a avó acalma as lágrimas do neto, perante a confissão de que sente saudades dos pais. “Sê forte. Nunca deixes que te vejam chorar”. Tendo em conta a situação, o conselho parece fiável, mas, estendido para o resto da vida de Pin-Jui, começa a exercer um peso negativo sobre si e os seus entes queridos, formando-se um homem com dificuldades em expressar as suas emoções. O que o fez sobreviver enquanto criança, transforma-se numa prisão de amargura.

‘Tigertail’, realizado e escrito por Alan Yang, o produtor de ‘Parks and Recreation’ e ‘Master of None’, tem como missão exacerbar as diferenças entre Pin-Jui no princípio da sua vida adulta, interpretado por Hong-Chi Lee, e o mesmo numa idade avançada, interpretado por Tzi Ma. O primeiro sonha abandonar a vida difícil em Taiwan e viajar para os Estados Unidos da América, país com o qual tem contacto através da cultura popular. O segundo, décadas mais tarde, já em solo norte-americano, olha para trás, repleto de arrependimento e coberto por uma carapaça de frieza, incapaz de manter uma relação saudável com a filha, interpretada por Christine Ko.

A justaposição entre as duas versões da mesma pessoa, apenas separadas pelo tempo, é levada a cabo recorrendo a um vasto arsenal de referências ao Cinema asiático moderno, com destaque para o trabalho de Wong Kar Wai e Edward Yang. O passado é filmado com uma película de 16mm, com o imaginário granulado a avivar a noção de memória, como um sonho distante que já não volta, um oásis inalcançável onde se viveram momentos únicos. Quanto ao presente, é banhado pela imagem digital, atingindo-se o óbvio contraste e coincidindo com o estado de espírito soturno da personagem principal, a quem os cabelos grisalhos começam a fazer mossa.

O grande tema do filme talvez seja a miragem do “sonho americano”. O desígnio do jovem Pin-Jui é abandonar Taiwan rumo aos EUA, em busca do mundo de oportunidades que lhe é prometido nos filmes de Hollywood e nas músicas da altura. Claro que a tão aguardada chegada à Nova Iorque da década de 70 choca com a realidade decadente do terreno. O tal sonho não passa de uma sebosa estratégia de marketing e, tal como em Taiwan, Pin-Jui terá de dar no duro e fazer uma série de cedências, num país onde é visto como um forasteiro.

O ponto fraco desta narrativa talvez seja o subdesenvolvimento da personagem da filha. Os problemas da sua vida pessoal, que se interligam com os já atravessados pelo pai, parecem injetados à pressão no guião de maneira a improvisar um ponto de ligação entre os dois e um catalisador para a revolução emocional de ambos.

Contudo, ‘Tigertail’ não deixa de ser um drama competente e cativante, apesar de condicionado por um ritmo lento que, por vezes, parece algo desnecessário. Esses momentos de introspeção e melancolia acabam por fazer sentido, graças a um final catártico, mas subtil, que permite espreitar para o que realmente sente o homem angustiado. Nem todos os sonhos valem a pena.

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