Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

‘Three Billboards Outside Ebbing, Missouri’, a mais risível das tragédias

Alguém, com as suas devidas motivações, faz uma publicação numa rede social onde expressa a sua indignação com um determinado assunto. Está no seu direito, desde que, tal como manda a lei, não difame ou injurie, não que isso o impeça de sofrer essas mesmas transgressões em retorno. Basta o seu desabafo ser polémico, que, provavelmente, pouco tempo o separa dum enxame de comentários ofensivos. Por regra, é essa tempestade reacionária que se segue, neste mundo onde muitos procuram uma pequena janela de oportunidade para descarregar a sua frustração nos outros, mesmo que, na maioria das vezes, as suas tiradas agressivas se baseiem em informações descontextualizadas ou, simplesmente, nos pressupostos impostos por uma sociedade tradicionalista em que quem desafia as normas sociais instauradas deve, quase por decreto, independentemente de ter razão ou não, ser calcado. E é precisamente uma publicação controversa que Mildred Hayes, interpretada por Frances McDormand, resolve fazer. Não num mural virtual, mas em “carne e osso”, em três cartazes à beira duma estrada que, tal como as personagens a descrevem, vai dar a nenhures. Em frases curtas e diretas, escritas a preto num fundo vermelho, esta resolve, para que toda a cidade veja – embora poucos lá passem, todos saberão – interpelar o chefe da polícia de Ebbing, interpretado por Woody Harrelson, a respeito da ineficácia deste em encontrar o responsável pelo horrível homicídio da sua filha. Previsivelmente, Mildred, em vez da resposta que procura, encontra antes a revolta dos cidadãos da pequena localidade no interior dos Estados Unidos, ora não prezassem estes o chefe como elemento querido da comunidade e a figura quase sacrossanta das forças policiais como símbolo da autoridade e do progresso. Mesmo que o seu progresso seja torturar prisioneiros de raça negra, crime de que é suspeito um dos adjuntos do chefe, interpretado por Sam Rockwell. Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, escrito e realizado por Martin McDonagh, autor de In Bruges (2008), entra assim, com uma premissa deveras peculiar, num terreno propício a que quase todas as maleitas do momento sociopolítico norte-americano, e não só, sejam aludidas, quer através de diálogos frontais, quer através dum humor negro do mais ácido que pode haver. Tudo isto por causa de alguém que, com as devidas motivações, expressou a sua indignação publicamente duma forma crítica e, pelo menos no que diz respeito aos seus objetivos, perspicaz. À semelhança de qualquer dia de vento nas modernas redes sociais, a pequena cidade de Ebbing vira um caldeirão prestes a explodir, funcionando este cenário, ainda que a maioria das ações se concentre num curto grupo de personagens, como uma micro-amostra metafórica, e literal, da sociedade raivosa em que vivemos.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Por conseguinte, a raiva transforma-se numa espécie de energia que circula por todo o filme, como uma mãe que educa um filho com todas as lições erradas existentes. E os filhos desta mãe são todas as personagens do filme, pois todas elas, incluindo Mildred, cometem, ao longo da história, variadíssimos erros de julgamento, sujeitas às ideias preconcebidas a que, porventura, foram habituadas desde tenra idade, não estivéssemos perante mais uma realidade provinciana em que a psique da população em geral ainda opera de forma bastante arcaica, basta ligar qualquer canal de notícias americano para o perceber. E, através da utilização astuta dessa mitologia típica do neo-western, a fazer lembrar o décor psicológico dos irmãos Coen, é montado um palco onde as expetativas do espectador são constantemente destroçadas, numa demonstração realista, em total discordância com o comportamento pitoresco das personagens, de que o mundo é muito mais complexo do que a maioria dos filmes o faz. O maior exemplo desse sortido de emoções é Mildred, uma mulher de meia-idade que teve o que chegue da inoperância que a rodeia, incapaz de aceitar que a morte da filha caia no esquecimento, mesmo que o lembrete que espetou teimosamente à beira da estrada possa perturbar ou até fazer sofrer os outros. Esta move-se alimentada pela dor e por uma certa sede de justiça e vingança, não que isso a impeça de demonstrar compaixão, geralmente quando menos se espera. Como tal, partindo do adágio da personagem principal, ninguém nesta história vive certo do que quer ou do que precisa, muito menos da atitude correta para cada situação. Tal como na vida real, são pessoas com defeitos e depressões, apesar de, em dados momentos, parecerem ter sido extraídas duma graphic novel daquelas em que tudo se resolve ao murro e pontapé. Ao contrário do esquema hollywoodesco tradicional, neste filme de McDonagh, a cólera é utilizada como catalisadora da progressão narrativa e psicológica das personagens, e não como uma deformação que deve ser erradicada. Ora, quem disse que não são os sentimentos negativos que, muitas vezes, nos fazem evoluir? Quem disse que um herói, na qualquer que seja a sua demanda, não possa estar simplesmente revoltado? Nem todos os atos corajosos advêm duma vontade puritana de corrigir o mal, e já fazia muitos anos que um filme não expressava esta ideia duma forma tão airosa, independentemente duma sensação de tristeza irrevogável. E, para isso, muito contribui a abismal interpretação de Frances McDormand, coberta de tudo, menos de exagero. A maneira atípica como esta consegue exteriorizar a dor da sua personagem é extraordinária. O tom da sua voz, o olhar, um simples morder do lábio ou o fito com que se movimenta, toda a linguagem interna de Mildred Hayes foi delineada pela atriz de forma a obter-se o retrato convincente duma mulher revoltada com o que a vida lhe reservou e com a tacanhez que a rodeia, mas que, todavia, esconde dentro de si todo um lado doce e afetivo, quase destruído pelo luto. A performance de Rockwell não lhe fica muito atrás, na pele dum polícia racista e misógino que vive com a mãe, uma das tais que escolheu todas as lições erradas. Apesar do seu comportamento acéfalo, este consegue fazer, como se dum milagre cinematográfico se tratasse, com que o espectador torça pelo seu sucesso em dados momentos, façanha que é, porventura, o pico mais engenhoso do filme. Tal como esta dupla, Harrelson faz um trabalho eficiente, assim como o elenco secundário composto por nomes como Lucas Hedges, que interpreta o filho mais novo de Mildred, e que mais uma vez acertou em cheio no filme a participar depois de Manchester by the Sea (2016), Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Abbie Cornish, John Hawkes ou Zeljko Ivanek. Destaque terá também de ser dado à fotografia de Ben Davis e à banda sonora de Carter Burwell, parceiro habitual dos irmãos Coen, que funcionam como um complemento competente do filme, sempre à caça do momento mais humano possível, para furarem por entre a mágoa de Mildred e companhia, e fazerem-se notar.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Por fim, reina a mais risível das tragédias, conduzida por um argumento que claramente tenta chocalhar a devassidão do espectador, trazê-la ao de cima, só para, no momento mais deprimente possível, transformá-la numa risada genuína, conforme se carrega no negrume dum humor certeiro e indecente. O que talvez separa esta obra da grandiosidade é a aparente ineficácia de McDonagh em transformar as suas personagens em parcelas duma soma macrossocial, ou seja, apesar da sua exímia construção e dos constantes choques entre estas, parece nunca se ganhar uma noção alargada do mundo que as rodeia – “a América que votou Trump”, como está na moda dizer. A alegoria a essa porção do tecido social americano fica incompleta, pois a violência, racismo, misoginia e ignorância revelados pelas personagens, principalmente pela personagem de Rockwell, não funcionam como retrato global duma forma de estar na vida que, com as peripécias dos últimos tempos, é cada vez mais posta em causa. A desmontagem do white trash, assim como de fenómenos como a violência policial, fica a meio, como se algo mais houvesse a dizer, mas a carta que trazia essas palavras extraviou-se pelo caminho. Não obstante, é difícil não nos embeiçarmos por este drama azedo cujo maior feito é fazer-nos rir, quando tudo indicava que íamos chorar. Poucos filmes têm esse poder. Poucos filmes são tão bons quanto Three Billboards Outside Ebbing, Missouri.

Kubrickamente

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