‘The Young Pope’, um Papa fora do normal

Se, há um ano atrás, alguém vos disse-se que iria sair uma série em que Jude Law faz de Papa, vocês acreditavam? Pois bem. Não só Jude Law faz de Papa, como conjura aquela que é talvez a melhor interpretação da sua carreira e uma das personagens mais controversas dos últimos tempos. Inteligente, arrogante, sarcástico, manipulador, e poderia-se gastar um parágrafo só em adjetivos que, mesmo assim, não seriam suficientes para descrever esta personagem em toda a sua plenitude. Um Papa que fuma, que desdenha os outros e que se mantém na sombra recusando-se a ser visto. Lenny Belardo, o Papa mais jovem de sempre, não dá ouvidos a nada nem a ninguém, excepto à Irmã Mary (Diane Keaton), a freira que o criou depois de este ser abandonado pelos pais num orfanato. Ao principio, somos levados a acreditar que estamos perante um ser humano com ideias progressistas e abertas, mas acreditem, as ideias deste Papa vão chocar. Não pelo seu radicalismo pois, infelizmente, ainda vivemos num mundo onde estas existem, mas sim pela forma áspera e convicta com que este as “cospe”, fazendo-nos lembrar coisas que lemos em livros sobre o tempo da Inquisição. Mas fiquemos por aqui no que diz respeito às minúcias do Papa. O melhor que têm a fazer é mesmo ver a série e descobrirem por vós próprios.

Não é só o Papa que brilha nesta sátira à Igreja Católica. As personagens secundárias que cirandam à volta de Pius XIII, nome “artístico” escolhido pelo Sumo Pontífice, são igualmente carismáticas. Desde uma belíssima diretora de Marketing (Cécile De France) ou um cardeal amargurado por não ter sido eleito Papa, interpretado pelo veterano James Cromwell, existem egos por todo o lado e para todos os gostos. Cada um com os seus traços característicos e nuances. Cada um com os seus defeitos e hábitos mundanos que os desloca para bem longe da imagem de perfeição que, geralmente, é atribuída aos homens da fé. Porém, é o Cardeal Voiello, trazido à vida pelo ator italiano Silvio Orlando, que leva a taça para casa. Constantemente rebaixado pelo Papa e fervoroso adepto do Nápoles, é o conspirador de serviço, dando à série um toque cómico e o suspense que se pedia, deixando-nos sempre curiosos para ver no que vão dar os seus planos contra o novo Papa. Para além disso, o seu inglês imperfeito com um sotaque latino torna-o viciante.

A série, a mais cara de sempre da televisão italiana tendo sido gastos cerca de 41 milhões de euros na sua produção, raramente sai das grandiosas instalações do Vaticano. Esta repetição, por enquanto, é bem vinda, pois parece que estamos dentro dum sonho. Ora em jardins dos mais serenos que possam existir, ora em basílicas monstruosas, onde não podiam faltar as famosas obras de arte recolhidas pelo Vaticano ao longo dos últimos séculos, tudo é desenhado e apresentado de forma a sentirmos-nos num estado de transe. Não vai durar muito, acreditem. O Papa vai fazer questão de o interromper.

Criada pelo infame Paolo Sorrentino, esta série vai certamente pô-lo ou muito confortável ou muito desconfortável. Depende da sua tolerância à ironia. Homossexualidade, aborto, pedofilia, morte, pecado, Igreja. Tudo é posto em causa, incluindo Deus. Através de uma escrita inteligente e cuidada, Sorrentino faz-nos pensar e repensar. Apesar dos grandiosos cenários, esta série destaca-se pela forma como as palavras perfuram esse “manto” visual que, em vez de nos distrair, exponencializa ainda mais o sarcasmo que contagia tudo o que é feito e dito. Porém, enganem-se os que pensam que vão ver dez horas de açoite na Igreja. Estamos perante algo bem mais complexo e criativo que o simples “meter o dedo na ferida”. The Young Pope merece ser visto sem preconceitos e sem ideias pré-concebidas. O Papa Pius XIII assim o exige.

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