‘The Vast of Night’, o negrume do céu

Em 1947, o aviador Kenneth Arnold estava a sobrevoar os arredores de Washington quando decidiu fazer um desvio em busca de uma aeronave dos Fuzileiros que se havia despenhado — as Forças Armadas norte-americanas ofereciam uma recompensa de 5 mil dólares a quem encontrasse a aeronave perdida. Nesta aventura descomprometida, Arnold viria a encontrar algo inquietante e inesperado: nove objetos não-identificados em voo sincronizado.

Experiente nestas andanças, Arnold cronometrou-as e prontamente percebeu que as estranhas aeronaves voavam a uma velocidade superior à capacidade máxima dos jatos da altura. Já em solo, em declarações a um jornalista do East Oregian, o aviador referiu que os objetos voadores se movimentavam como discos (“saucers”) que saltitavam na água, numa provável referência ao passatempo veraniço de lançar seixos para o mar. Todavia, no seu artigo sobre o assunto, o jornalista associou o termo “saucers” à fisionomia dos tais objetos não-identificados. Um dia mais tarde, o prestigiado jornal Chicago Sun pegou na história. No título, podia ler-se “Supersonic Flying Saucers Sighted by Idaho Pilot”. Nascia, então, a obsessão dos norte-americanos com os “discos voadores” que, supostamente, andavam pelos céus a assustar os cidadãos.

A partir desta reportagem que se tornou foco de atenção, multiplicaram-se os relatos sobre OVNIs no país, principalmente nas regiões do interior e, como resposta à demanda popular, o governo até criou vários departamentos destinados a investigar os avistamentos. Não esquecer que o país havia saído há pouco tempo da Segunda Guerra Mundial e a ameaça soviética começava a ganhar peso na psique de uma população com queda para a especulação e o medo irracional. Serão seres de outra dimensão? Espiões estrangeiros? Experiências governamentais ultrassecretas? Balões meteorológicos? Ilusões de ótica? É para este ambiente paranoico que ‘The Vast of Night’, realizado pelo estreante Andrew Patterson, nos atira.

Numa pequena cidade fictícia na região de New Mexico, na década de 50, durante uma noite extremamente pacata, já que a maioria dos cidadãos se encontra no ginásio local para assistir a um jogo de basquetebol entre escolas, Fay, uma operadora de telefones interpretada por Sierra McCormick, descobre um conjunto de sons estranhos que estão a interferir com as chamadas locais. Curiosa, e sobressaltada por vários residentes que, subitamente, pretendem contactar as autoridades para relatar incidentes bizarros, esta pede ajuda ao seu amigo e voz da rádio local, Everett, interpretado por Jake Horowitz, para tentar perceber o que está a acontecer. Apetrechados de dispositivos analógicos saídos de filmes como ‘The Conversation’ (1974) ou ‘Blow Out’ (1981), os dois jovens iniciam uma missão de investigação deveras familiar, mas polvilhada com frescura e bravura técnica.

No mesmo território da série ‘The Twilight Zone’, o filme destaca-se pela atmosfera de tensão que consegue criar com o auxílio de vários planos abertos destinados a gerar dúvida e curiosidade no cérebro do espectador, assim como uma banda sonora estimulante e uma edição rápida que deixaria Edgar Wright orgulhoso. Tal como o título da obra indica, as cenas decorridas na rua, banhadas pela escuridão noturna, são usadas para desconsertar a audiência, como se a qualquer momento algo de muito insólito pudesse invadir o negrume do céu. Neste campo, o destaque tem de ir para um plano-sequência fantasmagórico que atravessa a pequena cidade de uma ponta à outra, passando por vários focos de interesse, como o jogo de basquetebol que distrai a maioria dos habitantes. A fazer lembrar a cinematografia de ‘The Shining’ (1980), o diretor de fotografia Miguel Menz consegue alcançar uma sensação de voyeurismo, como se a câmara adotasse o ponto de vista de uma presença espectral ou sobrenatural que persegue as personagens, efeito que é extremamente bem-vindo numa narrativa do género.

Em sentido oposto, as cenas passadas em cenários fechados, como a central de telefones onde Fay trabalha, são filmadas recorrendo a planos fechados claustrofóbicos. Por exemplo, uma cena mostra a protagonista a atender e encaminhar chamadas, trocar cabos, entre outros, durante cerca de dez minutos, à medida que o conto ganha corpo no meio dessas conversas. Escrito por Patterson e Craig W. Sanger, o filme revela uma enorme aptidão para fazer com que o espectador se concentre na história oral que está a ser contada nos telefonemas e nas sessões de rádio conduzidas por Everett. Temas universais como o avanço tecnológico, medo do desconhecido e racismo são introduzidos nas conversas com facilidade e aprumo, oferecendo alguma humanidade e naturalidade.

Podendo afastar alguns devido à peculiaridade da sua abordagem, ‘The Vast of Night’ é uma espécie de ‘Close Encounters of the Third Kind’ (1977) com uma veia artística, antiquada e minimalista, concentrado na proeza técnica e em conversas simples que fazem a história avançar. É quase heresia que a sua estreia internacional, com a ajuda da Amazon Prime Video, tenha ficado cingida ao pequeno ecrã. É um daqueles filmes cuja experiência seria elevada pelo maior ecrã possível e pelo escuro que permite apreciar a vastidão da noite. Alguns poderão não lhe dar grande valor, outros poderão ter encontrado um novo filme de culto, uma relíquia a fazer lembrar o tipo de filmes de ficção científica que se realizavam nos anos 70 e 80 e que tanta saudade deixam.

Kubrickamente

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