‘The Sinner’, um Cluedo da culpa

“No princípio, Deus criou os céus e a terra…”, mas tão vibrante obra de arte merecia ser apreciada por mais alguém além do próprio Criador e eis que surgiu um dos casais mais afamados da História: Adão e Eva. Desde então, segundo a palavra religiosa, o carácter humano tem-se desenvolvido a partir dessa unidade funcional primogénita da qual todos dependemos e à qual fomos sorver o bem e o mal. Claro que, imbuída pela atitude misógina que desde cedo intoxicou o mundo, quem primeiro cometeu um crime capital foi o dito segundo sexo, pelo mordiscar de uma maçã envenenada. Com a consequente purga segundo as leis celestiais, o duo foi expulso de um lugar idílico e teve de enfrentar a dura realidade mundana. Atentemos na maçã, o fruto do mal, pois foi o sumo vertido desse pomo suculento que humedeceu os solos e enraizou o pecado no mundo. Houve então necessidade de engendrar um plano para conter tão funestas ações, pelo que foram fundadas várias crenças e instituídos corpos de intervenção: os pecadores poderiam assim confessar os seus atos contranatura, acertar as contas ainda em terra e esperar pelo perdão divino, que lhes iria garantir um lugar ao Sol após o sofrimento passado e que fizeram passar na estadia terrena. E, quando tal não fosse possível, haveria ainda a possibilidade do pagamento dessa fatura ser forçado não por um homem de fraque, mas por um com colete à prova de bala. Daí que, mesmo advogando um ateísmo irrefletido, a expressão “Oh meu Deus” seja proferida por essas ruelas sempre que algum ato inesperado e vil ocorre, à qual se segue um “Perdoa-me, Pai, porque pequei”, num lamuriar sem fim.

The Sinner

Escrita à transparência por Derek Simonds, The Sinner parte destas premissas para fornecer uma história intrincada e cadenciada sobre o pecado e o pecar. A princípio, somos apresentados a um casal: Cora (Jessica Biel), uma mulher dedicada aos seus, Mason (Christopher Abbott), um marido empenhado no negócio de família, e ainda o seu filho, muito ligado à mãe. Por agruras financeiras, como as que enfrentamos todos os dias, o trio vê-se obrigado a conviver paredes meias com os pais de Mason, numa tentativa de facilitar a vida de todos, mas que acaba por surtir o efeito diametralmente oposto quando os da geração mais velha tentam controlar cada um dos passos do seu filho e consequentemente do resto dos membros. Preocupados com os herdeiros de sangue, mal se apercebem de certas particularidades no comportamento e nas atitudes de Cora que, caso fossem percecionadas, poderiam levantar suspeitas – o seu lado obscuro e sombrio, enterrado num passado desconhecido, permanece, assim, soterrado pelo tempo, invisível para quem não o queira enxergar. Mas esta é uma série sobre um crime, por isso, tudo corre bem “até ao dia”, como sempre acontece nestas situações. E “o dia” tem início da forma mais banal possível – com uma ida à praia a três para descansar da azáfama do quotidiano e aproveitar um dos raros momentos em família. Sufocada pela vida em permanente contenção, Cora necessitava, no entanto, de ficar a sós consigo mesma, pelo que, angustiada, nada para lá dos limites de proteção estabelecidos e, longe de Mason e do seu filho, submerge-se na água do lago, inundando-se num silêncio apaziguador. A tensão aumenta a pouco e pouco e, após a reprimenda de Mason pela atitude irracional, ela retoma o papel de mãe que tão bem desempenha e, entre o descascar de uma pera para debelar o apetite do seu filho em crescimento, surge uma música já ouvida anteriormente num tempo ido, enterrado na mente pelas amarguras que a compuseram. Inesperadamente e sem impasse, a faca utilizada momentos antes para o corte da fruta crava-se na pele de alguém sem motivo aparente. Com testemunhas a não faltar – incluindo os próprios marido e filho, desolados pela situação – e uma confissão fácil de ser extirpada, esta parecia ser uma transgressão de rápida resolução com uma condenação certa, dada a aparente ausência de problemas do foro mental no historial médico de Cora. Porém, a investigação é entregue ao detetive Harry Ambrose (Bill Pullman) que, almejando enlaçar todas as pontas soltas em termos laborais – já que não o consegue no âmbito conjugal -, se entrega de corpo e alma à desafiante tarefa de decifrar a razão pela qual uma mulher, saudável a um primeiro olhar, comete um crime atroz, tendo sempre em mente que, segundo a sua experiência criminal, o género feminino os engendra por razões passionais. Tem então início uma descida ao inferno de cada uma das personagens, impossível de ser impedida por mais ladainhas oradas ao Deus Salvador, mas sempre acompanhada por um conceito de religião deturpado. Nesse sentido, para melhor entender o âmago da alma humana, Cora e o detetive embarcam na tempestade que é a análise psicológica desta, para daí extrair as imagens que a modelaram paulatinamente ao longo dos anos e que culminam no “Homem da máscara”, a peça fundamental deste puzzle de um passado fragmentado e reconstruído com base em suposições alheias.

The Sinner

A resolução do crime fica assim relegada para segundo plano para, neste ecossistema tóxico, acompanharmos um verdadeiro jogo de tabuleiro, um Cluedo da culpa, em busca do maior infrator. À primeira vista, quem desrespeitou o “Não matarás” da lei de Deus será aquela que mais razões apresenta para ser julgada perante a justiça cega, mesmo que a sua confissão seja baseada num rol de mentiras inventadas ou incutidas numa mente fraturada que não sabe distinguir o vivenciado do induzido pelas conversas de outrem. A fragilidade mental de Cora deve-se a um passado negro, fundado numa fé retorcida, quando, ao ambiente de paz e harmonia que requer o normal desenvolvimento de cada pessoa, se contrapôs um emaranhado de relações frágeis e dúbias entre esta, a irmã doente, a mãe que adora os estigmas cristãos e o pai extenuado. De facto, como na Bíblia, também ao longo da ação cada personagem se redime após compreender que só aquele que nunca pecou poderá lançar a primeira pedra, porque a vida é complexa e cheia de más decisões que necessitam de ser expurgadas, desde o primeiro suspiro até à sufocação final. Tão particular análise privada das próprias ações, com o aflorar consequente do arrependimento, atinge não só os supostos vilões, mas também as forças policiais que, querendo impetuosamente resolver um caso tão peculiar, usam métodos coercivos pouco ortodoxos para conseguir o que pretendem e descomprimir um pouco do stress acumulado. Torna-se assim evidente que, em The Sinner, mais do que não morrer solteira, a culpa parece gostar de organizar orgias. Todos participam no deboche.

The Sinner

Entre casos resfriados e memórias esfumadas, constrói-se uma manta de retalhos com pontos bem costurados à custa das brilhantes interpretações de um elenco surpreendente. O papel que sempre surge associado a Jessica Biel é o da mulher bela e sensual que, com o seu charme sedutor, enfeitiça qualquer homem para atingir os seus objetivos, lembrando uma Bondgirl. Todavia, nesta série, esta interpreta um papel que requer um estudo de personagem profundo e uma entrega de impingir no espetador qualquer sentimento mais intenso. Também Bill Pullman surpreende com a interpretação crível duma personagem bastante negra com um passado sombrio, um presente escuro e um futuro incerto, numa tríade que, pelas cenas reais e vívidas, fará amargurar o espetador que, porventura, mergulhará na sua história até ficar submerso. Contudo, estes dois atores são apenas um exemplo, a cereja no topo do bolo, do fantástico elenco selecionado – quiçá pouco conhecido e reconhecido. Adicionalmente, aproveitando a beleza volátil das personagens, a componente estética é amplamente trabalhada de forma intrincada, através da repetição sucessiva de padrões. Para reiterar a importância desta questão, cada episódio é iniciado com a representação de imagens que, relacionando-se com a narrativa, simulam as dos testes de Rorschach, numa tentativa de entregar ao espetador a possibilidade de assumir o almejado papel de psicólogo de todas as personagens. Somos assim convidados a conceder o nosso sofá e a ouvir um rol de queixas, fruto de uma vivência de culpas próprias e alheias, para de seguida construir algum plano terapêutico, como se isso fosse possível. Porém, o sofá terá de ser grande para assegurar assento a todos os que, ao visionarem os erros dos outros, encarem os seus de frente e terminem o último episódio a pedir perdão por algo cometido, com a fé de que essa prece seja ouvida e acedida.

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