The Prestige

‘The Prestige’, o ilusionista

Este artigo contém spoilers.

No ilusionismo tudo se prende à arte da encenação e da manipulação do espectador. E no cinema?

“Estão a prestar atenção?”. Uma voz profunda rompe o silêncio do letreiro que tem como cenário de fundo uma floresta abandonada povoada por dezenas de cartolas pretas. Os pelos eletrizam-se, uma irrequieta sensação enche os pulmões, como se pressentíssemos logo à partida que fazemos parte dum truque de ilusionismo, que vamos ser enganados. Os dois segundos emprestados para que a frase paire no ar são tudo menos inocentes, têm um propósito, uma charada que mais tarde será revelada. Segue-se a explicação de Cutter, interpretado por Michael Caine, acerca da existência de três passos essenciais para o desenrolar dum grande truque de magia. Mal sabe o espectador que este está a oferecer de graça a chave para entender a estrutura narrativa do filme. Tal como foi sugerido, resta prestar muita atenção.

The Prestige

Segundo Cutter, o primeiro passo, “The Pledge”, consiste na apresentação de algo ordinário como um baralho de cartas ou um pássaro – um objeto. Talvez o ilusionista deixe o espectador inspecionar esse objeto para verificar se é normal. Provavelmente não é. Em tempos aspirantes a mágicos e bons amigos, Alfred Borden, interpretado por Christian Bale, e Robert Angier, interpretado por Hugh Jackman, entram numa rivalidade sem fim em busca dum grande truque de magia que os imortalize. Essa hostilidade nasceu dum acidente que provocou a morte da esposa de Angier. Com este evento, surgiram as motivações emocionais a que toda a narrativa se prende: vingança, porque Angier culpa Borden pela morte da sua amada, inveja, pois Borden constitui família e vive a aparente felicidade que foi roubada a Angier, e frustração, dado que Angier chega à conclusão, nunca verbalizada, de que Borden é o melhor mágico dos dois. Mesmo que apresentado de forma desconexa, o primeiro passo está feito, lançando a audiência para uma atmosfera tensa e macabra. O ilusionista começa a pôr a sua audiência à prova, dando-lhe o mar, mas negando-lhe o porto onde atracar, oferecendo o precipício, mas escondendo o motivo da queda, testando o limiar psicológico da sua arte, a sétima, como foi apelidada por Ricciotto Canudo no ‘Manifesto das Sete Artes’ em 1912.

The Prestige

O segundo passo, “The Turn”, consiste na transformação do ordinário em extraordinário. Agora, o espectador está à procura do segredo, porém não o encontrará, visto que não está realmente a olhar. No fundo, não quer realmente saber. Quer ser enganado. Após uma sequência viciosa de sabotagens, eis que surge o grande mistério. O truque de magia que serve de catalisador para o desespero e obsessão de Angier, e para o despertar duma curiosidade extremamente aguçada no público: O truque d’O Homem Transportado. Borden atira uma bola saltitona ao chão numa das extremidades do palco, desaparece por uma porta e aparece por uma outra na extremidade oposta do palco, apanhando a bola. Entre as duas portas não existe qualquer ligação física aparente e, mesmo que existisse, nunca Borden seria suficientemente rápido para chegar a tempo à segunda porta. Naquele instante, o espectador entrelaça-se com a frustração de Angier, fundem-se por momentos na diligência de tentar perceber como foi possível tal artimanha. A personagem interpretada pelo acutilante Caine tenta novamente chamar à razão, sugerindo a razoável hipótese de Borden ter um duplo. Mas, rapidamente, o ilusionista, armado com a fotografia de Wally Pfister e os flashforwards e flashbacks perfeitamente montados pelo editor Lee Smith, atira areia para os olhos do espectador. “Foi o melhor truque de magia que alguma vez vi”, diz Angier, refutando a hipótese mais simples e lógica. Ele próprio, mesmo consciente da superioridade indecifrável da versão de Borden, acaba por imitar o truque ao usar um duplo e ornamentar toda a sua apresentação. Eventualmente, este vê gorada a tentativa de imitação, o que o leva a matar a sua sede por iluminação recorrendo ao célebre cientista Nikola Tesla, interpretado por David Bowie. Na ânsia de desvendar o segredo de Borden, Angier aceita a criação obscura de Tesla: uma máquina de teleportação. Noite após noite, a personagem de Jackman, já perante um público londrino atento, entra na máquina e aparece do outro lado do teatro escassos segundos depois, para espanto de todos os presentes, incluindo do seu rival. O ilusionista opta por revelar este mistério, talvez por saber que para chegar com sucesso ao terceiro passo tem de obsequiar o espectador com o cume da natureza pérfida dum dos seus protagonistas. Ao entrar na máquina, Angier cai por um alçapão secreto, para dentro dum tanque inundado onde morre afogado ao mesmo tempo que um clone seu, criado no mesmo instante, é teletransportado para o lado oposto do teatro. Ao tentar desvendar este truque inexplicável, Borden acaba por assistir a um desses afogamentos e ser preso pelo homicídio do seu inimigo que, naquele dia, sabendo que o adversário havia sucumbido à curiosidade, não apareceu triunfante no outro lado do teatro. A personagem de Bale é condenada à forca, elevando a vingança de Angier a uma crueldade impensável. Com este segundo passo, o ilusionista transporta o filme para o campo do fantástico, porém, com um objetivo metafórico que, porventura, poderá ter escapado à perceção do espectador mais ocupado com o enigma que se adensava perante os seus olhos.

The Prestige

O terceiro passo, “The Prestige”, consiste no reaparecimento. Não basta fazer desaparecer, há que trazer de volta. Cutter, de certa forma, tinha razão. Alfred Borden tinha um irmão gémeo que aparecia na outra porta e que, várias vezes, nos foi mostrado como sendo Mr. Fallon, um dos seus ajudantes. No entanto, essa verdade é bem mais complexa do que parece à primeira vista, visto que os dois homens partilhavam a mesma vida, trocando de identidade conforme as circunstâncias. E assim conduziam todos os aspetos da sua vida, até mesmo as suas relações amorosas, sacrificando meia-vida em prol do seu ofício. Exemplo disso é a cena em que, depois dum dos irmãos perder dois dedos, o outro amputa os seus com o objetivo de se manterem idênticos. “Sacrifício, Robert. É esse o preço dum grande truque”, segreda a personagem interpretada por Bale, enquanto o seu inimigo dá os últimos suspiros. The Prestige (2006) é, fundamentalmente, uma amostra engenhosa e fantasiosa do que dois homens estão dispostos a sacrificar para satisfazerem os seus desejos e obsessões. O grande ilusionista é Christopher Nolan que, desde o primeiro segundo, nos avisou e brindou com várias pistas, mas que instantaneamente as enlameou com artifícios narrativos. Fez de nós cobaias do seu exercício artístico. Todos partilhámos da fixação de Angier e recusámos, de certa forma, acreditar na explicação mais simples. Sucumbimos ao truque. Este filme é uma translação daquilo que o cinema é recorrentemente: uma arte de ilusão. Se se refletir durante uns minutos, a maioria dos grandes clássicos vivem duma narrativa semelhante à destes dois mágicos, do disfarce da realidade ou da ocultação duma parte desta com o propósito de espantar e afetar emocionalmente. Tal como neste caso, muitos filmes adicionam elementos fantásticos ao seu enredo como forma de transportar o público para um mundo alternativo de infinitas possibilidades. No entanto, o truque de ilusionismo transferido para o grande ecrã pelo talentoso Nolan tem um objetivo metafórico. The Prestige é, em grande parte, uma alegoria à forma como o ser humano comum aborda a questão da existência duma entidade superior. A máquina de Tesla, cuja presença na narrativa parece algo exagerada, é aquilo que os mágicos realmente almejam: pura magia, apesar de ter sido criada através da exploração dos limites científicos. Então, porquê transformá-la num truque de ilusionismo, ornamentá-la e sobrecarregá-la com um elemento sobrenatural, se já por si a máquina é o melhor “truque” alguma vez elaborado? A resposta está talvez na descrição de Cutter do segundo passo: porque o público, no fundo, não quer realmente saber, quer ser enganado. “O público sabe a verdade: o mundo é simples. É miserável, sólido até não poder mais. Mas se os puderes ludibriar, nem que seja por um segundo, aí poderás fazê-los interrogarem-se. Aí tens algo especial.”, diz a personagem de Jackman na sua derradeira fala. Quando confrontado com um acontecimento extremamente improvável ou até inexplicável, o ser humano tem tendência para fazer associações, muitas vezes despoletadas pela cultura religiosa, ao misticismo e à espiritualidade, ao chamado milagre, à ação duma entidade superior. O comportamento de Robert Angier, e provavelmente o de muitos espectadores, é marcado pela recusa em aceitar a simplicidade e lógica d’O Homem Transportado de Borden. Por momentos, declinámos a razão, ansiámos por uma explicação transcendente, por um verdadeiro truque de magia.

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