‘The Plot Against America’, até não haver retorno

Numa das cenas mais leves de ‘The Plot Against America’, minissérie de seis episódios da HBO baseada no livro homónimo de Philip Roth, o rabi Lionel Bengelsdorf, interpretado por John Turturro, um homem deveras confiante nas suas ideias, explica a Evelyn Finkel, interpretada por Winona Ryder, uma mulher judia na casa dos quarenta, a diferença entre o Mishnah e o Talmud, os dois textos hebraicos sagrados. Segundo este, o primeiro consiste na lei oral original dos judeus e o segundo foca-se nas discussões de vários rabis e sacerdotes sobre o primeiro. Com um leve sorriso, ela responde “Bem, nós gostamos de discutir”.

Se bem que possa ser considerado um estereótipo, a verdade é que muitos judeus gostam mesmo de discutir, de conversar ardentemente sobre os assuntos que os apoquentam, eles próprios o admitem e se orgulham disso. E com toda a legitimidade. É uma das suas formas prediletas de mostrar afeto. Para eles, amar é ter a coragem de questionar quem amas, de fazer perguntas duras e observações pertinentes, mesmo que isso possa levar a jantares turbulentos e pequenos-almoços silenciosos.

Portanto, não é coincidência que uma grande parte dos diálogos desta nova obra de David Simon e Ed Burns, os criadores de ‘The Wire’, se desenrolem num tom algo exaltado, geralmente entre familiares que discordam das opiniões políticas uns dos outros. O general desta casa de conflitos amistosos é Herman Levin, interpretado por Morgan Spector, um judeu americano, vendedor de seguros, que, apesar das discussões, vive em harmonia com a sua esposa, dois filhos e um sobrinho num bairro de New Jersey, dinâmica essa ilustrada por um primeiro episódio aborrecido, em que a rotina diária da família é esmiuçada, a fazer lembrar alguns dramas familiares ligeiros cuja maioria do enredo tem lugar na sala de estar. Não obstante, o risco de afastar alguns espectadores mais apressados claramente compensa, ora não fosse este capítulo pachorrento peça fundamental na perceção de como os eventos nefastos que se seguem exercem uma força destrutiva sobre este grupo de cidadãos. Serve também para demonstrar como os Levin são pessoas comuns: gostam de basebol, colecionam selos e velharias, ouvem programas de rádio e, à exceção do sobrinho revoltoso, interpretado por Anthony Boyle, não constituem qualquer perturbação do bem-estar coletivo.

É fácil perceber a causa dos debates acesos: Charles Lindbergh, o famoso aviador e principal mensageiro do comité “America First”, candidatou-se às eleições presidenciais de 1940 e a sua retórica antiguerra e isolacionista, com uma subtil adesão a ideias antissemitas, parece estar a ganhar terreno no coração de uma população propensa à nostalgia e ao patriotismo. É essa a paulada revisionista do livro de Philip Roth: Lindbergh ganha as eleições e deita por terra a reeleição de Franklin Roosevelt, a resistência contra a Alemanha nazi e a pacatez de milhares de famílias judaicas como a que é estudada nesta obra. Ora não estivesse o país repleto de pessoas com ideias xenófobas e racistas.

“Estes idiotas. Sempre estiveram aqui.”, vocifera o irmão de Herman, interpretado por David Krumholtz. “Agora, têm permissão para sair de baixo das pedras.”, acrescenta, referindo-se aos apoiantes extremistas de Lindbergh que, após a eleição do mesmo, começam a importunar judeus pelo país fora. Desde 2016, este duo de frases, ou algo parecido, já terá sido conjurado por milhões de cidadãos preocupados, depois de a eleição de Donald Trump ter incentivado o ressurgimento em praça pública de retóricas malignas, enquanto um número considerável dos seus apoiantes desfilam em comícios, e não só, com bandeiras confederadas e amuletos nazistas, munidos de slogans protecionistas e muita desinformação. O primeiro sinal flagrante desta tendência foi um desfile nazista na cidade de Charlottesville, cujos participantes foram apelidados por Trump de “boas pessoas”.

Outrossim, a narrativa que decorre na década de 40 não esconde os paralelismos com o presente, quer na rabulice política dos defensores de Lindbergh, quer nas conversas que os Levin têm com os seus vizinhos e amigos. Em todo o caso, Simon e Burns não exageram, ao contrário de algumas obras recentes em que se nota essa urgência de injetar um relâmpago no cérebro do típico consumidor de cultura, como se este precisasse de um mapa pormenorizado para reconhecer o Mal quando este está escancarado à sua frente. ‘The Plot Against America’ não se perde em simplismos, é subtil, confia na perspicácia e literacia histórica da audiência, cobre-se com dezenas de pequenas pérolas do quotidiano, banais, corriqueiras, para ilustrar a tempestade invisível que se avizinha. Ela há de chegar. Vai sendo invocada nas ruas, nos bares e restaurantes, nos escritórios e igrejas. Primeiro, uma brisa aparentemente inofensiva. Depois, um furacão incontrolável e destrutivo, um fenómeno macrossocial observado do ponto de vista microscópico de uma única família em apuros.

A personagem mais interessante da obra talvez seja o rabi Bengelsdorf, um orador nato, auxiliado por um caricato sotaque sulista, que aproveita as suas intervenções públicas para defender e apoiar o novo presidente, ao mesmo tempo que assegura a comunidade judaica que este tem boas intenções, apesar de ter expressado algumas ideias antissemitas durante a campanha eleitoral. A cada passo grotesco de Lindbergh por cima da cultura norte-americana é associado um processo de racionalização, de limpeza, surgindo sempre a desculpa perfeita para os seus discursos inflamatórios, como se as palavras não significassem aquilo que evidentemente significam.

Como tal, a personagem do rabi é usada para ilustrar a forma como algumas pessoas, sedentas de poder e atenção, confundem malícia com ignorância e permitem que figuras subversivas e populistas saiam incólumes de ditos e atos teoricamente condenáveis. Em troca do serviço sanitário, recebem um qualquer posto importante, numa cruzada contra a sanidade coletiva. A sociedade torna-se perigosa porque, nos sítios certos, estão as pessoas erradas, demasiado receosas ou iludidas para atacar o ódio de frente, permitindo que este se propague. Numa das linhas do livro, pode ler-se “Como a vergonhosa vaidade dos tolos consegue determinar tão fortemente o fado dos outros”.

Na interação com o desenrolar desta arruada fascista, o elenco faz um excelente trabalho, com destaque para Zoe Kazan, que encarna Bess, a esposa de Herman, e Azhy Robertson, na pele de Philip, o elemento mais jovem da família — no livro, Philip é a personagem principal e uma referência autobiográfica do escritor a si mesmo, sendo que até os nomes dos seus pais, tios e irmão estão de acordo com a realidade. A primeira, uma esposa e mãe que, apesar de ser apresentada com uma postura algo temerosa, acaba por se tornar, aos poucos, a pedra basilar da família. O segundo, um exemplo de como o tumulto social pode ter um efeito devastador e traumático numa criança que ainda não compreende os conceitos que giram à sua volta.

Os realizadores de serviço, Minkie Spiro e Thomas Schlamme, optaram por exacerbar o conceito de nostalgia, com tons sépia e esverdeados, evocativos de uma fotografia antiga. Lindbergh, que se tornou famoso por causa dos seus feitos como piloto, com a morte trágica de um filho a alimentar o lado sentimental, concorreu à presidência com base numa reputação estabelecida no passado e numa mensagem de recuo cultural. Como tal, o filtro utilizado tem a missão irónica de embelezar a tragédia que se agiganta, funcionando um pouco como a mentalidade coletiva que assombra os americanos sempre que um populista se tenta apoderar da Casa Branca: por baixo de uma penugem rústica e saudosista está amiúde um monstro mal-intencionado.

A luz, um elemento fulcral da tradição judaica, também tem um papel preponderante, ao aumentar certos contrastes emocionais e, mais uma vez, sarcásticos. Por exemplo, numa cena lancinante, o filho mais velho, interpretado por Caleb Malis, um jovem com aspirações artísticas, pinta um retrato de Lindbergh às escondidas dos demais, apenas iluminado por uma lanterna, numa das muitas demonstrações do peso que algumas características dos políticos podem ter na psique de um adolescente. Para ele, Lindbergh é um herói incondicional, uma celebridade digna dos selos de correio que coleciona em parceria com o irmão, e não o canalha que o seu pai descreve enquanto discute política com os adultos.

À medida que segue cada um dos elementos da família com o mesmo grau de atenção e detalhe, a minissérie demonstra como, apesar de inseridos no mesmo ambiente sociocultural, estes têm visões políticas diferentes, ou até contrárias, que crescem à medida que são afagados por estímulos divergentes. Esta dinâmica funciona como uma exemplificação prática de como o fascismo manobra o cérebro do cidadão comum, apelando às suas fraquezas, ao desejo de percorrer caminhos fáceis. O mundo torna-se mais perigoso, não só quando alguns preconizam atos racistas, mas também quando os que compreendem a gravidade dessa conduta optam por olhar para o lado e deixar o ódio crescer, até não haver retorno.

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