‘The Old Man & the Gun’, e se o que nos faz realmente felizes for ilegal?

E se o que nos faz realmente felizes for ilegal? Será que arriscaríamos a nossa liberdade em troca desse sentimento utópico? Será que calcorrearíamos uma vida de risco, de fuga constante, em nome desse bem-estar que todos desejam mas poucos alcançam? O prazer proibido escolhido por Forrest Tucker, um septuagenário interpretado por Robert Redford, é assaltar bancos, e ele fá-lo como se este fosse o seu ofício de sonho, como se nenhuma outra ocupação o satisfizesse. Mas fá-lo igualmente duma forma cavalheiresca e recatada, repetindo o mesmo modus operandi de sempre: um sorriso afável, um olhar penetrante e uma arma que nunca aparece no plano, e, mesmo que aparecesse, fica a impressão que este nunca a usaria. Esta já não é a primeira vez que o ator interpreta um ladrão de bancos e afins, sendo que a última vez foi em Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969) ao lado de Paul Newman. Porém, desta vez, à medida duma despedida honrosa da Sétima Arte, este entra pelo cenário adentro com mais experiência, com décadas de representação em cima das costas. A sua presença é inebriante, já lendária, e, como tal, não é de estranhar que o realizador David Lowery, que vinha dum trio de filmes bem conseguidos, com destaque para A Ghost Story (2017), o tenha escolhido para encarnar esta personagem alvo das prosas que se contam na hora de beber mais um copo lá para os lados do Texas, principalmente depois de Tucker ter sido o objeto de estudo dum vasto artigo da revista New Yorker, cortesia do jornalista David Grann. Nesta reportagem, publicada em 2003, nascia finalmente uma imagem para associar a um comportamento, a verdade por trás do mito urbano – um senhor idoso, de fato azul, chapéu na cabeça e mala em punho que, calmamente, esvaziava os cofres dos bancos por onde passava. Um cavalheiro com arma, um ladrão com convicções, o que não poderia ser uma melhor analogia à carreira do ator norte-americano.

The Old Man & the Gun

The Old Man & the Gun conta a história por trás dos últimos anos de Tucker como fora da lei, depois de ter fugido da prisão de San Quentin num pequeno barco improvisado. De volta à alforria, este podia ter-se escondido em algum local remoto, arrumado as botas e usufruído da sua ainda que condicionada condição de septuagenário. Porém, em conjunto com outros dois parceiros, interpretados por Danny Glover e Tom Waits, este continuou a assaltar bancos e a ensaiar fugas em cima do joelho – o grupo viria a ficar conhecido nos anos 80 como o “Over the Hill Gang”. E é numa dessas correrias que, para se desviar da atenção das autoridades, pára à beira da estrada para ajudar uma senhora, interpretada por Sissy Spacek, a arranjar o carro, mesmo que não perceba nada de motores. As cenas entre os dois, que são bastantes, enchem-se duma aura fora do comum, como se estivéssemos a descobrir um segredo quase esquecido, a ver magia acontecer. Precisamente, a fotografia, a cargo de Joe Anderson, é executada à moda das fitas dos anos 60 e 70, com um piscar de olho à linguagem visual dos policiais de série B. As imagens enchem-se do granulado arcaico, todos os planos são captados duma forma económica, direta ao assunto, havendo liberdade e espaço para que os rostos dos atores preencham algumas das lacunas que o guião insiste em não revelar. Juntamente com a banda sonora de Daniel Hart, o objetivo é enaltecer um período e uma forma de fazer filmes que já não volta, o que faz deste projeto uma espécie de relíquia, mesmo que não se livre de alguns problemas. Por exemplo, as personagens secundárias são desenvolvidas duma forma algo inacabada, funcionando como meros adereços da figura maior que é a personagem de Redford. Ademais, a origem das emoções dos vários intervenientes nunca é propriamente estabelecida, ficando toda a narrativa à mercê duma quase profundidade que nunca chega a manifestar-se por completo. Pois este não é um filme sobre o golpe em si, ou sobre a consequente caça ao homem, encabeçada por um polícia interpretado por Casey Affleck, mas antes sobre as emoções despoletadas por atividades complexas como ser um ladrão de bancos ou um detetive. Como tal, se bem que a obra consiga ter o seu impacto como estudo de personagem, graças ao excelente trabalho de Redford, apraz também relatar a ausência duma força narrativa maior, aquilo a que poderíamos chamar de catarse. Essa apoteose emocional é antes substituída por nostalgia, uma que só resulta em todo o seu esplendor devido a se estar perante – supostamente – o último papel do protagonista. Contudo, Lowery conseguiu criar uma forte ligação entre a personagem principal e o conceito de “viver ao máximo”. Tucker nunca foi capaz de extinguir o vício pela adrenalina extraída do ato criminoso, o furto como elixir da alma, portanto, é feita uma alusão à necessidade global do ser humano de significado, de algo que o mantenha empolgado, ansioso por uma próxima rodada, mesmo que essa compulsão se vista de demónio. Por fim, resta a devida homenagem a um homem que fez do Cinema a sua vida, e que na vida de todos nós, os cinéfilos de sempre, entrou aos poucos, filme após filme, até se tornar uma referência, o expoente máximo do que é ser carismático. Para a eternidade ficam as interpretações em The Sting (1973), All the President’s Man (1976), The Electric Horseman (1979) The Natural (1984), The Horse Whisperer (1998), ou até Ordinary People (1980), o qual realizou. Poucos conseguiram ir tão longe, poucos conseguiram ter uma carreira tão prolífica e credível. Desde a sua estreia em 1960 numa série de televisão intitulada Maverick, até este The Old Man & the Gun, foi impressionante, uma força bruta e artística que deixa para trás um legado forrado a talento e dedicação. Caso não voltes mesmo, adeus Robert, até sempre.

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