‘The Lighthouse’, sem certezas

A negrura dissolve-se em nublado ao ritmo da banda sonora. O tema inicial da orquestra molesta de Mark Korven estende a mão a um séquito de efeitos sonoros. A névoa sufocante lentamente desvanece, ensopada pelas ondas que atracam um navio até onde a visão predomina sobre o desconhecido. Dois corpos na proa da embarcação, petrificados pelas sacudidelas do vento, observam o que o alvoroço atmosférico tiver para oferecer além do frio de enregelar a pele. Eis um farol e a respetiva buzina. Esta tornar-se-á ensurdecedora, a sua repetição ecoará na eternidade que nem os bramidos dos marinheiros britânicos que remaram em direção ao Novo Mundo e povoaram terras e mares com fábulas e cantigas. Perfil este parece ser o da dupla de passageiros, de saco ao ombro e revestidos por sobretudos do final do século XIX. Ressoado o chamamento de um ponto fixo reluzente no horizonte, o rochedo servirá de ganha-pão para ambos nas próximas quatro semanas. A vida na ilha está concentrada em gaivotas, de grasnar vociferante. Reside mistério no seu olhar vazio. Estacionados os botes e recolhidas as cordas e correntes, os faroleiros da vez, de bagagem a preceito e chaves no bolso, miram o navio que os trouxe, agora a afastar-se. Nele aconchegam-se os trabalhadores do mês anterior, de cariz misantropo, em ânsia por avistar matéria além da inóspita vastidão marítima. As suas cabanas ainda se mantêm firmes, imprevisível é a rajada de água capaz de reduzir toda a superfície à submersão.

É este consórcio calculado entre imagem e som que dá início a ‘The Lighthouse’, realizado por Robert Eggers. Tal como no tango, no cinema são precisos dois. Melhor, apenas dois elementos são indispensáveis. Com o começo da sua segunda longa-metragem, o autor de ‘The Witch’ (2015) exemplifica o quão poderosa consegue ser a mais simples maneira de contar histórias. Esta é a de dois vigilantes do alto mar, um novato e um veterano, interpretados por Robert Pattinson e Willem Dafoe, respetivamente, que começou por ser escrita por Max Eggers, irmão do realizador. Este pretendia adaptar o manuscrito inacabado da última obra de Edgar Allan Poe, ‘The Light-House’, cujo protagonista entra em 1796 narrando os seus primeiros dias enquanto guarda de um farol. A série de tentativas em obter orçamento acabou por se converter em desprezo dos estúdios. Anos mais tarde, carimbada em Sundance a sua credibilidade artística, Robert propôs ao irmão escreverem em conjunto.

Como se verificou no filme de terror liderado por Anya Taylor-Joy, Robert Eggers é, nas palavras de Willem Dafoe, um “fanático por pesquisa”, característica que o coloca acima da generalidade dos contadores de histórias de época. Não será surpresa para ninguém que este tenha começado a carreira enquanto designer de produção e guarda-roupa em teatro. Após transportar o público para o século XVII, somando o inglês moderno inicial à crueza da cenografia e das indumentárias, só se esperava que, na próxima travessia, se voltassem a pronunciar diálogos em dialetos ultrapassados, dentro de habitações arcaicas. Tem-se isso e muito mais.

Que sirva de exemplo toda a documentação histórica de marinheiros, relatos, manuais e diários de bordo que o cineasta consumiu e que, ao longo da História, levaram autores como Sarah Orne Jewett e Herman Melville, que estudaram as vivências e traumas de faroleiros e marinheiros, a criar as suas próprias obras. Os eventos de teor possivelmente sobrenatural de Smalls e de Flannan Isles, que ocorreram na costa do País de Gales, em 1831, e da Escócia, em 1900, foram os principais mistérios a servirem de inspiração para o filme.

Antes de mais, e voltando à dança dividida pela fotografia e pelo design de som, é de sublinhar o magistral rigor com que ‘The Lighthouse’ carrega os assentos do cinema para dentro da sua atmosfera. As ondas ressaltavam em Cape Forchu — uma vila piscatória na Nova Escócia, com cerca de 400 habitantes —, onde ocorreram as filmagens, até que a produção construiu, desde o zero, uma estalagem, uma casa e um farol, sendo o último inspirado no do Parque Histórico-Natural de Point Cabrillo, no norte da Califórnia, erguido desde 1909. O resultado foi um monumento de 20 metros capaz de iluminar até 25 quilómetros. Uma áspera presença na narrativa.

Pois, aspereza é o que caracteriza a fotografia de Jarin Blaschke, colaborador, espera-se, regular de Eggers após ‘The Witch’. Como se a composição da cor e dos planos da primeira obra do realizador nascido em New Hampshire não conseguisse pintar um espaço mais privado de vida, a ação de ‘The Lighthouse’ é filmada no extremo do desagradável e do tenebroso. Admirador do Expressionismo Alemão (1919-1933) — corrente artística que visava retratar os medos sociais do país pós-Primeira Guerra Mundial —, o cineasta, fã de obras como ‘Nosferatu’ (1922), ‘Metropolis’ (1927) e ‘M’ (1931), procura contagiar o público com a claustrofobia e paranoia sentidas pelas personagens, enquanto revisita o passado. Para tal, o aspect ratio de 1.19:1 foi a escolha acertada, pois será o formato atual disponível que mais se assemelhará ao dos títulos citados e ao dos que marcaram a transição americana do cinema mudo para o cinema sonoro — os talkies —, como ‘Hallelujah’, ‘The Love Parade’ e ‘Blackmail’, todos lançados em 1929.

Além disso, ‘The Lighthouse’ foi filmado em película, técnica caída em desuso nas produções atuais. O material de eleição foi o da Kodak, que permanecia intacto e inutilizado desde 1959. Segundo Blaschke, a intenção era ressuscitar a fotografia dos seus primórdios, salientando a textura ao máximo. Todas as imperfeições cutâneas da face barbuda de Pattinson e Dafoe estão à vista, assim como a erosão das madeiras e rochas e o desgaste de todos os utensílios imagináveis na rotina dos faroleiros. Particularidades da película — Eastman Double-X (5222) —, em baile com a lente de 35 mm da Baltar, usada nos anos 30, são igualmente a pouca sensibilidade à luz e a absoluta escuridão em que se traduzem quaisquer tons de azul, verde ou vermelho, deixando mais espaço, respetivamente, ao exímio trabalho de iluminação e à guerrilha entre cinzentos e negros.

Esta atmosfera exasperante não podia vir mais ao de cima sem o trabalho do diretor de som Damian Volpe, que colaborou na curta-metragem ‘Brothers’ (2015), um dos primeiros créditos de realização de Eggers. Fechar os aspetos técnicos com chave de ouro foi a contratação da editora Louise Ford, também com ‘The Witch’ no currículo, maestra de sequências altamente alucinantes e de tensão na mais calma circunstância.

Nalgum momento, qualquer membro da audiência poderá perguntar-se para quê tanta dedicação. Qual será, afinal, o objetivo do cineasta em acumular tão inusitada coletânea de ferramentas para recriar quase em absoluto um local e uma época do passado? Questiona-se de que maneira os apetrechos técnicos dançarão com a história. Tendo em conta as estratégias de distribuição de obras alegóricas, como ‘A Ghost Story’ e ‘Mother!’, ambas de 2017, como estas são abordadas e quão incontrolável, por vezes, consegue ser a vontade de discutir sobre as mesmas, o cinema autoral contemporâneo continua a ser açoitado. Pode dizer-se que ‘The Lighthouse’ é uma obra que deve ser assistida com o devido conhecimento. Por outro lado, é também o tipo de filme cuja dissertação não deve ser redigida a tempo de o cinéfilo comprar bilhete. Escusado será dizer que, vindo de Robert Eggers, que pede ao espectador que se interrogue, não se trata de um mero conto de terror com os sustos nos fotogramas visados, nem mesmo do ensaio existencialista sobre a condição humana que muitos poderão esperar, mas sim de uma experiência fílmica mergulhada algures no meio. Ao contrário de ‘The Witch’, considerado hoje “demasiado sério” pelo próprio autor, encontrou-se aqui um equilíbrio entre a mais alarmante sequência de pânico e o mais básico humor envolto em, entre outras coisas, flatulência. O que de bom pode acontecer quando dois homens estão encurralados sozinhos ao pé de um falo gigante?

‘The Lighthouse’ é uma hilariante provocação salpicada por temas como identidade, vício, sexualidade, choque de masculinidades e gerações, mitologia, folclore, religião, o eterno embate do Homem na Natureza e a psique do indivíduo isolado — não são acidentais as referências visuais a ‘The Shining’ (1980), de Stanley Kubrick —, uma lição sobre “rir perante a miséria”.

E o mais miserável que se pode testemunhar é a decadência psicológica da personagem de Pattinson, atolada em trabalho, de pavor estampado no rosto transpirado pela fricção da engrenagem ferrugenta, numa busca incessante pelos segredos do farol, mistério ocultado pela personagem de Willem Dafoe. No processo, para deleite de qualquer cinéfilo, dirigidos por Eggers e lecionados por Howard Samuelsohn, professor de dialeto de produções de época como ‘The Revenant’ (2015), ambos os atores fazem um trabalho fenomenal.

O primeiro, livre definitivamente dos rótulos da saga ‘Twilight’, apresenta o melhor desempenho da sua carreira, o que não quer dizer pouca coisa, depois de projetos como ‘Good Time’ (2017) e ‘High Life’ (2018). O segundo, que envelhece como o vinho, desaparece nos diálogos e monopoliza todas as cenas em que, escarrando e casmurrando, de cachimbo e caneca em riste, relembra em voz alta os episódios passados em alto mar. Os egocentrismos tóxicos de cada um colidem e fervem naquela que é uma das melhores rivalidades cinematográficas dos últimos tempos.

Ao olhar por um microscópio para os fundamentos infantis das brigas destas caricaturas, ‘The Lighthouse’ poderá, como tantos outros filmes, evidenciar o quão diminuto é o distanciamento das ideias nocivas do passado às da atualidade. Desde uma distopia decorrente nos anos 80, como ‘Watchmen’ (2009), até um retrato da corte do século XVIII, como ‘The Favourite’ (2018), diversos autores atuais sugerem que as mentalidades não mudaram tanto quanto se quer convencer. Mudam caras, máquinas e roupas. Permanecem preconceitos, medos, superstições e egoísmos.

O mais aconselhável é que cada um se consciencialize da sua vulnerabilidade e de que nada sabe, antes que seja tarde de mais para perdurar a modéstia sobre a arrogância, antes que a buzina do farol dilacere os tímpanos ao ser humano e este se torne incapaz de reconhecer a sua reles dimensão. Pois, no final de cada turno nas águas da Nova Inglaterra, pressagia-se a desgraça, a fauna e a flora recusam corresponder às exigências e devaneios do Homem. Os maiores poluidores da existência coletiva são aqueles que se gladiam por poder, por mais finito que este seja. Abstraem-se da sua hora e minimidade perante um globo de biliões de anos em que tanta vida já pisou o solo e navegou tantas marés. Tanta vida que já se afogou e se esqueceu. Aceitar que nem tudo tem de ser decifrado ou conquistado será, no mínimo, sensato. Continuar-se-á sem certezas, mas, quando as ondas forem substituídas pela escuridão silenciosa, dormir-se-á em paz com a própria pequenez.

Essencial

Texto: Francisco Quintas

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