The Killing of a Sacred Deer

‘The Killing of a Sacred Deer’, uma espécie de tragédia não-grega

Esta crítica revela o tema de algumas das alegorias presentes no filme, o que pode influenciar o visionamento do mesmo.

Reza a lenda grega que o rei Agamemnon, durante a preparação para a viagem que viria a culminar no cerco a Tróia, matou um cervo num bosque sagrado para Artemis, deusa da caça. Ela castigou-o amaldiçoando a sua frota militar, à qual viria a acontecer uma enormidade de nefastas casualidades. Destroçado, o rei pediu ajuda a um vidente que lhe disse que a única forma de travar essa onda de azar seria sacrificar a sua filha mais velha, Ifigénia. Primeiro, ele recusou, mas, conforme a situação se foi agravando, começou a ponderar essa fatídica solução. Apesar da lenda ter versões diferentes – em algumas, Ifigénia é mesmo sacrificada, noutras, esta é poupada ou trocada por um outro cervo que viria a morrer em seu lugar -, todas elas acabam com a mesma moral: um líder soberano é relegado para um nível tão baixo que considera até sacrificar um filho de maneira a garantir o seu próprio sucesso, a preservação do seu estatuto. Ora, em The Killing of a Sacred Deer, novo filme do grego Yorgos Lanthimos, é feita uma aproximação moderna a esta lenda, tal como é sugerido por uma das personagens a dado momento e pelo título da obra. No entanto, apesar das semelhanças evidentes, o realizador optou por fugir do registo majestoso do rei Agamemnon e transportar o seu dilema para um médico cardiologista interpretado por Colin Farrell. Longe da potência dum rei todo-poderoso que viria a mudar o mundo antigo, se é que os eventos se desenrolaram como as lendas indicam, este cirurgião, tal como tantos outros da vida real, detém, apesar de numa escala menor, o poder de salvar vidas e, caso erros aconteçam, não as salvar. E é desse conceito do Deus na Terra, do alguém que tem uma vida nas mãos, do pequeno Agamemnon de bisturi em punho, que nasce a premissa metafórica deste filme.

The Killing of a Sacred Deer

Steven Murphy é um médico a quem a vida aparenta sorrir. Casado com uma oftalmologista interpretada por Nicole Kidman e pai de dois filhos adoráveis, uma menina e um menino, interpretados por Raffey Cassidy e Sunny Suljic respetivamente, vive no alto dum pedestal alimentado por uma vivência nos subúrbios regada pelas linhas geométricas do cinematógrafo Thimios Bakatakis, parceiro habitual de Lanthimos. O único elemento estranho no seu dia-a-dia é um adolescente, Martin, interpretado por Barry Keoghan, visto recentemente em Dunkirk (2017), que lhe presta uma série de visitas invulgares, nas quais ambos trocam presentes e abraços desconfortáveis. Apesar de, para quem já conhece o registo do realizador grego, a estranheza ser familiar, é impossível ao espectador não se interrogar sobre qual será a natureza da relação entre os dois, visto ser clara a tentativa do cirurgião de soltar rótulos mentirosos à frente de outras pessoas como “este é um amigo da minha filha” ou “este é um jovem que sonha ser cardiologista”. Qual Stanley Kubrick, Lanthimos passa largos minutos a pairar sobre as suas personagens, exercitando as câmaras com tracking shots fascinantes dos corredores do hospital onde o médico trabalha, adensando uma sensação de desconforto quase insuportável, a fazer lembrar The Shining (1980). A seu tempo, apesar da demora ser algo exagerada, é desvendado que Martin é o filho dum paciente que morreu às mãos de Steven na mesa de operações, fatalidade acompanhada de alguns erros por parte do cirurgião. Pior fica a situação quando os seus filhos começam a padecer duma doença misteriosa, indetetável por qualquer análise clínica, da qual Martin reclama autoria, dizendo a Steven que este terá de matar um dos seus entes queridos de maneira a pagar pela morte do seu pai. Se o médico não escolher, os três, esposa e filhos, acabarão por morrer, vítimas dessa maleita misteriosa. Quid pro quo. Mesmo que de início não seja fácil estabelecer essa carga metafórica, o jovem funciona como um personificação da justiça cósmica, “karma” alguns lhe chamam, entrando o filme num retrato negro e satírico sobre a relação do ser humano com esse conceito abstrato.

The Killing of a Sacred Deer

Nessa missão alegórica de retratar a maneira como uma família se comporta face ao azar, o problema de The Killing of a Sacred Deer é a sua potencial inofensividade. Ao contrário dos trabalhos anteriores do cineasta grego – Canino (2009), um retrato literal e cru da forma como a educação dos pais pode condicionar um filho, Alps (2011), uma parábola para a industrialização do luto, e The Lobster (2015), uma facada pertinente no mundo moderno das relações amorosas –, vários momentos parecem refugiar-se demasiado na estética e no sadismo, relegando a habitual crítica social para um plano secundário. Enquanto nas obras referidas imperavam, praticamente em todas as cenas, reparos irónicos e relevantes sobre a forma de viver ocidental, indutores da intromissão intelectual do espectador – “o que significa isto?”, “o que quer ele dizer com isto?” -, neste novo filme, podem encontrar-se vários momentos virtualmente irrelevantes, pouco estimulantes, parcelas que pouco contribuem para uma reflexão final, salvas por uma fotografia extraordinária e por uma banda sonora incisiva à base de cordas. De volta está também o comportamento mecanizado das personagens, típico do cinema de Lanthimos, quais robôs movidos por um telecomando omnisciente, como se todas as falas saíssem por obrigação, por mera programação antecipada. Esta técnica permite dar um ênfase metafórico à frieza do ser humano em geral e, ao mesmo tempo, faz com que seja, no caso deste filme, uma experiência interessante ver as personagens romper esse casulo da formatação, tornarem-se emocionais, enfim pessoas com sentimentos. Nesse aspeto, os atores fazem um trabalho notável, ao passearem habilmente por esse fio da navalha construído sobre os alicerces do filme de terror e do absurdismo. O ponto alto é, porém, a mistura entre um tratamento distópico clássico, ou seja, a criação duma sociedade alternativa, à semelhança de The Lobster, onde reina uma figura dissonante, um alien, sob a forma do adolescente que, qual Deus vingativo, roga pragas inexplicáveis pela ciência, e elementos realistas, como a mundana vida urbana onde pessoas exercem profissões, vão à escola, se cruzam e interagem normalmente. Dentro dos elementos surrealistas, o espectador poderá encontrar inquietações vestidas de questões morais e momentos bizarros, como uma criança paralisada das pernas para baixo a implorar ao pai, talvez na esperança sorrateira de instigar o comportamento contrário, que este a sacrifique a si, assim como testar algumas das suas barreiras éticas em relação a temas como família, sacrifício e auto-preservação. Pena que, no final, no lugar da jorrada de perguntas e curiosidades a que Lanthimos nos habituou, sobre, ao invés, uma possível sensação de vazio. Fica-se com uma experiência em que, apesar de alguns elementos roçarem o genial, outros são demasiado secos e ostensivos, impeditivos duma total imersão psicológica. Talvez fosse esse o objetivo do realizador, fazer do espectador uma das suas personagens anestesiadas e insípidas. Quem sabe. Mas se, por outro lado, a missão era encenar uma espécie de cataclismo emocional, ora não fosse o título do filme retirado da tragédia grega “Ifigénia em Áulide” de Eurípedes, pode afirmar-se que faltou o agitar do coração típico dessa abordagem, a catarse, sobrando uma espécie de tragédia não-grega em que a antecipada e tradicional purgação dos sentimentos não se verifica de todo. Contudo, dependerá de cada um, das suas experiências e da conotação mística, ou não, que dá aos azares que já lhe bateram à porta, tirar as suas próprias conclusões.

Bom

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