‘The Infiltrator’, trapézio sem rede

Recriar o ambiente e a logística por trás dos cartéis de droga colombianos tornou-se uma tarefa colossal após o surgimento da série de grande sucesso Narcos. Porém, o realizador Brad Furman (The Lincoln Lawyer) não se deixou intimidar pela elevação de padrões causada pela série protagonizada por Wagner Moura (Tropa de Elite) e apresenta um trabalho perspicaz apesar de múltiplas inconsistências. Com um argumento, escrito pela sua mãe, baseado no livro The Infiltrator: My Secret Life Inside the Dirty Banks Behind Pablo Escobar’s Medellín Cartel, somos apresentados ao agente da DEA Robert Mazur, interpretado por Bryan Cranston, cuja missão é infiltrar-se no cartel de drogas liderado por Pablo Escobar. Para conseguir tal proeza, Mazur “converte-se” em Bob Muzella, um homem de negócios que está disposto a “lavar” os milhões de dólares gerados pelas atividades ilegais do cartel colombiano.

Tudo o que envolve espionagem tenta pautar por cenas eletrizantes onde o espetador está em constante sobressalto. No entanto, em The Infiltrator a tensão é quase inexistente. Salvo raras excepções onde Cranston usa todos os seus artifícios para tentar preencher este vazio, na maioria das ocasiões sentimos que existe um enorme desaproveitar do potencial criativo que cada cena oferece. Se o ator fosse um trapezista, estaria claramente abandonado lá no alto à sua sorte e vertigem pois cá em baixo não haveria rede para amparar a queda. Num filme que exigia constante duplicidade, o protagonista de Breaking Bad e Trumbo faz um trabalho exemplar. Ora pai e marido, ora empresário desonesto a cimentar parcerias duvidosas com as pessoas mais perigosas do planeta, mantém sempre o filme à tona daquilo que seria um desastre garantido. Se estivéssemos no Titanic, Cranston seria a tábua que manteve Kate a salvo. Sendo Kate o filme.

As personagens secundárias estão bem estruturadas e os atores, especialmente Diane Kruger, fazem um bom trabalho. Porém, tudo o que foi construído à sua volta tresanda a facilitismo e lugares comuns. A leviandade com que certos mecanismos de progressão narrativa são introduzidos é deveras frustrante tornando a dúvida e o remorso que as personagens deviam transparecer numa maquilhagem artificial que transpira falsidade. Todos os elementos são convenientemente inseridos de forma a que o desfecho do filme seja um momento de tensão gratificante que acaba por nunca acontecer pois essa mesma conveniência já foi detetada e reprovada ainda o filme vai a meio, ficando o espetador suspenso na sua desilusão até que chega o fim de um filme que tinha muito por onde se destacar e diferenciar dos homólogos do género. Fica a critica às redes bancárias que, na altura, permitiram a ocorrência de várias transações ilegais e a excelente performance de Bryan Cranston que demonstrou, mais uma vez, ser uma estrela cintilante, mesmo quando o espaço que lhe é dado para brilhar é reduzido.

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