‘The Great’, uma luz ao fundo do túnel

Em 2018, ‘The Favourite’, filme realizado por Yorgos Lanthimos e escrito por Tony McNamara, trouxe uma lufada de ar fresco aos dramas históricos, graças a uma revisão satírica do reinado de Anne de Inglaterra. A sua surrealidade, misturada com uma comédia negra e sexual, afastou o género da ideia preconcebida de que a viagem às cortes antigas significa aborrecimento, abrindo-se uma brecha deveras larga onde alguns criativos podem agora inserir os seus manifestos repletos de luxúria e desfaçatez real. Não é por acaso que a nova série da Hulu, ‘The Great’, é criada por McNamara, sendo este um dos profissionais da Sétima Arte melhor colocado para perceber o potencial deste buraco temático. Como tal, pegou na sua peça de teatro de 2008 sobre Catherine II da Rússia e pôs mãos à obra. O resultado é francamente apreciável.

À semelhança de Abigail, interpretada por Emma Stone, na obra de Lanthimos, Catherine, uma princesa alemã interpretada por Elle Fanning, cai de paraquedas na corte russa para casar com o rei Peter III, encarnado por Nicholas Hoult. Contudo, tal como tantos outros sonhos juvenis que se derretem perante a realidade, a nova rainha depara-se com um ser infantil, cruel e, tal como qualquer líder que se revele inapto para o cargo, extremamente perigoso para os milhões de súbditos que morrem à fome e enfrentam as consequências nefastas de uma guerra caprichosa com o país vizinho, a Suécia. Como tal, o acídico motor da série é o conflito entre a literacia cultural e crenças progressivas da jovem, iluminada pelo conhecimento do que se faz pela Europa fora, e o desvairo machista e retrógrado ampliado pelo seu marido e os que o rodeiam, como um arcebispo matreiro, interpretado por Adam Godley.

A viagem da personagem de Fanning ao delírio dos privilegiados, com ou sem intenção, parece mais relevante do que nunca, conforme Peter, a braços com situações graves e potencialmente mortais, se mostra incapaz de tomar uma única decisão coerente e informada. Em tempos de pandemia, o espectador minimamente atento à política externa poderá identificar neste desgoverno oitocentista os mesmo traços que definem a resposta de certos governos à atual crise causada pelo COVID-19. Tal como Peter, alguns líderes mundiais parecem mais preocupados com a sua imagem, com manter uma aparência de controlo, rodeados de homens do partido bajuladores, do que com salvar vidas. O facto de esta linha de pensamento surgir numa série regada de humor negro e absurdismo, como é o caso de ‘The Great’, não augura nada de bom para o mundo atual.

Pois é de paródia que vive a criação de McNamara. Apesar do comboio ameaçar descarrilar com alguma frequência, o guionista conseguiu encontrar um equilíbrio movediço entre comédia e seriedade, entre ingenuidade e sociopatia. E, mais importante, não existe receio de esmiuçar os defeitos da personagem principal, expondo-se amiúde o quão virginal é a sua demanda por poder, numa corte onde não abundam amigos. Não obstante, por vezes, esta característica vira-se contra a série, podendo alguns espectadores perder o interesse devido à leveza e altivez com que os problemas são apresentados, assistindo-se a uma ligeira banalização da perversidade que emana do palácio real. Contudo, sempre à última hora, a carruagem em apuros é salva por algumas cenas em que se pode observar as consequências das más decisões do rei, como, por exemplo, uma visita da nova rainha ao campo de batalha.

Esta engrenagem multifacetada só preconiza um resultado positivo graças às excelentes interpretações do elenco, com Fanning e Hoult à cabeça. Enquanto a primeira tem um induvidoso talento para o sarcasmo, o segundo consegue agarrar a narrativa pelos colarinhos e injetar-lhe um ritmo eletrizante, acompanhado por uma torrente de impropérios e uma mescla instável de puerilidade e desespero. Tal é a sua recorrência, a palavra “huzzah”, uma espécie de grito de guerra e brinde, ganha um destaque esdrúxulo, à medida que o ator consegue desencantar novos contextos emocionais para a proferir, mesmo no mais negro dos dias. O descaramento com que o rei consegue sempre adotar um tom celebrativo no meio da desgraça é escandaloso e, mais uma vez, atual, ora não vagueássemos por tempos em que o presidente da nação mais poderosa do mundo, confrontado com dezenas de milhares de mortos por um vírus altamente contagioso, opta por gabar-se das audiências televisivas das suas conferências de imprensa. Peter funciona como uma cabaça tragicómica onde foi injetada uma fusão de todos os líderes autoritários que já pisaram a Terra. A sua incompetência e falta de noção são universais.

Perante isto, não deixa de ser irónico que o próprio McNamara se tenha dado ao luxo de distorcer alguns factos históricos para tornar a aventura de Catherine mais apelativa. Por exemplo, na realidade, esta chegou à corte russa com 14 anos, seguindo-se 18 anos de sofrimento até subir ao trono, enquanto na série ele chega ao país com 19 anos e o esperado assalto ao trono desenvolve-se num espaço muito mais curto de tempo — a cada episódio, por baixo do título da série, pode ler-se “uma história ocasionalmente verdadeira”.

As comparações com a contemporaneidade também são ajudadas por uma estética a fazer lembrar ‘Marie Antoinette’ (2006), de Sofia Coppola. Todas as vestimentas apresentam toques modernos, enchendo as personagens de frescura e delinquência. Por exemplo, Peter é frequentemente ornamentado com calças negras de cabedal, qual rockstar prestes a entrar num concerto. De resto, alguns planos abertos destacam os cenários grandiloquentes escolhidos para a produção, se bem que, esporadicamente, algumas cenas transpirem algum desperdício, notando-se a ausência de um trabalho de câmara mais ambicioso e geométrico. Exempli gratia, ‘Barry Lyndon’ (1975), realizado por Stanley Kubrick.

Em todo o caso, ‘The Great’ consegue chutar os pontos fracos para a insolvência, sem medo de cair no ridículo. A sua maior arma é a irreverência e a forma despudorada como explora o privilégio dos intervenientes, sem poupar ninguém à crítica negativa, inclusivamente a personagem principal. Quanto à relação metafórica com a atualidade, a sua mensagem banha-se em otimismo. Tal como a destemida Catherine defende, quando a ignorância é exposta e dissecada, é apenas uma questão de tempo até surgir algo melhor, uma luz ao fundo do túnel.

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