The Favourite

‘The Favourite’, uma experiência pitoresca e imprevisível

A rainha e a sua robusta cadeira de rodas preenchem o espaço que serve de entrada para o salão de festas do palácio. Dali ninguém arreda pé sem a sua autorização, exceto os meros criados que transportam pratos e bebidas dum lado para o outro. Todo o espetáculo, todas as aperaltadas pessoas que ali se encontram, servem de recetáculos para a sua atenção, uma deusa na terra, em pleno século XVIII, que, a qualquer momento, pode parar as festividades, caso assim lhe apraze. Todo o baile, levado a cabo pelos elementos da Corte, é para sua diversão, mesmo que esta não se esteja a divertir nem um pouco. E como poderia? Vítima duma série de problemas de saúde que lhe emperram o juízo e o humor. À sua frente, um vasto grupo de aristocratas, com as suas perucas e fatiotas estrambólicas, ensaia uma valsa ao som duma música agradável. A rainha, interpretada por Olivia Colman, é Anne de Inglaterra, a última monarca da casa Stuart, e quem se prepara para libertar alguma tensão ao dançar com um dos lordes é a sua amiga íntima e confidente, Sarah Churchill, a duquesa de Malborough, interpretada por Rachel Weisz. E, de repente, o que parecia mais uma dança enfadonha, já vista em tantos outros filmes concentrados na vida de palácio, transforma-se num frenesim regado de breakdance, quando a duquesa e o seu par começam a “partir a loiça” duma forma completamente inesperada e absurda tendo em conta o cenário envolvente. Pode dizer-se que esta cena é uma representação fidedigna do espírito de The Favourite, um drama de época surreal, por vezes bizarro e cómico, captor duma discreta sátira à realidade política atual.

The Favourite

A narrativa do filme, realizado por Yorgos Lanthimos, repousa sobre um boato centenário: a rainha Anne tinha uma relação indecorosa, de cariz sexual, com a sua amiga, a duquesa de Malborough, a qual tinha acesso às finanças reais, assim como comandava as lides políticas no lugar da monarca demasiado instável e influenciável. E não foram poucos os escritores da altura que se debruçaram sobre o assunto, como, por exemplo, Jonathan Swift, o autor de ‘As Viagens de Gulliver’. Como tal, com homossexualidade à mistura ou não, tal como os pergaminhos da altura indicam, Sarah era a favorita da rainha, logo, uma pessoa com grande interferência em decisões importantes que poderiam afetar o mundo inteiro. Com uma notável velhacaria artística, os guionistas Deborah Davis e Tony McNamara – a primeira vez que Lanthimos pega em material que não escreveu – atiram-nos a ideia, tão na moda que ela está, de que, tanto séculos atrás como hoje, o bom funcionamento da sociedade pode estar dependente dos amuos e caprichos de monarcas ou políticos cuja compreensão da realidade que os rodeia é estrondosamente limitada. Exempli gratia, uma rainha que quase nunca saiu do palácio ou um presidente que foi bilionário durante toda a sua vida, seres propensos ao elogio oportunista ou à sedução manhosa – umas falinhas-mansas e o planeta pode nunca mais vir a ser o mesmo. Claro está que, em mais do que uma ocasião, Anne, uma espécie de marioneta, acaba a debitar ordens e leis escritas por outrem, dependente da veracidade de relatos trazidos por pessoas com interesses económicos e pessoais vincados, os lobbies da monarquia. E é baseada nessa equação que surge Abigail Hill, interpretada por Emma Stone, uma prima afastada da duquesa que pede ajuda à mesma, depois de ver a sua vida arruinada e o estatuto de “senhora” revogado devido às atividades ilícitas do pai. Para azar de Sarah, esta moça aparentemente inofensiva tem como objetivo voltar a escalar a hierarquia social e, para tal, nada melhor do que tentar conquistar os afetos da rainha. Começa, então, um combate calculista e insidioso entre a favorita e a candidata a favorita, com a guerra com França em pano de fundo. Entre quezílias, tem-se um trabalho técnico de requinte.

The Favourite

Filmada em pequenos palácios, casas senhoriais inglesas e na universidade de Oxford, a obra apresenta um visual extravagante, com os cenários a respirarem vivacidade. Para tal, o diretor de fotografia Robbie Ryan filmou a maioria da longa-metragem com lentes grande-angulares de 35mm e 10mm, o que causa a sensação de se estar quase dentro dum sonho, de algo que não é real mas que está a acontecer, o que rima com algum do absurdismo apresentado. À ideia poderão vir referências como Cries & Whispers (1972) de Ingmar Bergman, Barry Lyndon (1975) de Stanley Kubrick ou Possession (1981) de Andrzej Zulawski. Ademais, permite captar a magnificência dos enormes cenários onde decorre a ação, como salas gigantes e espaçosas ou extensos corredores por onde tanto os monarcas como os seus servos percorriam largas distâncias diariamente. À memória pode saltar uma cena em que a rainha, desorientada e irritada, pergunta “onde estou eu?”. A escolha de lentes permite exacerbar o contraste entre a monstruosidade do cenário e as relações supostamente íntimas que decorrem nas suas divisões – pessoas que, apesar de concentradas nos seus joguinhos políticos e sexuais, têm uma influência macroeconómica abismal. O problema de recorrer a tais técnicas é que os atores têm de posicionar-se em relação à câmara de forma pouco habitual sob pena de aparecerem demasiado pequenos no plano, aplicando-se a mesma teoria a movimentos bruscos, o que acontece bastante neste filme, com várias personagens a abandonarem as salas de rompante. Mais difícil é dominar esta dinâmica quando se manejam lentes de 6mm, que o cinematógrafo usou para executar o tradicional, mas tão difícil de dominar, efeito “olho de peixe”. Tendo em conta que este tipo de abordagem torna o processo de iluminação artificial bastante complicado, quase impossível devido ao processo de filtração, nota-se a utilização de luz somente natural, o que acaba por ser uma decisão lógica atendendo à presença de enormes janelas na maioria das salas. Nas cenas noturnas, a luz obteve-se através de velas ou tochas, como uma cena em que um aristocrata interpretado por Nicholas Hoult conversa com a personagem de Stone no meio da escuridão, apenas iluminados por archotes que destacam um caminho de terra. Para cimentar ainda mais a estranheza dos planos exibidos, muitas das sequências foram capturadas ora dum ângulo inferior, ora dum ângulo superior, recorrendo-se geralmente a planos abertos que permitem captar tudo o que se passa dentro duma dada divisão. O filme sai extremamente beneficiado por esta decisão devido à extraordinária riqueza concetual que paira sobre todo o projeto. Desde as vestimentas sumptuosas e perucas ridículas, passando pelas tapeçarias que decoram as paredes, até às dezenas, talvez centenas, de adornos característicos do século XVIII, todos os pequenos pormenores fazem com que este seja provavelmente um dos dramas de época mais bem executados de sempre ao nível dos requisitos técnicos secundários, mais especificamente a decoração do cenário e o vestuário, entregues a Fiona Crombie e Sandy Powell. Em adição, a banda sonora bastante eclética, repleta de sucessos da música clássica, e o trabalho do editor Yorgos Mavropsaridis permitem que o filme tenha um ritmo acelerado, sendo o sossego de algumas cenas compensado com uma melodia instigadora e cortes atempados. The Favourite é uma prisão audiovisual, uma armadilha onde tudo foi planeado com o intuito de nos fechar na estampa de outra época, num palácio onde reside a loucura, mas também alguma verdade. Pelo menos, os relatos históricos assim o indicam.

The Favourite

Inspirado nessa História que muitos contam sobre a rainha Anne, uma mulher que perdeu nada mais que 17 filhos – desde abortos ou nados-mortos até à morte do seu filho William com apenas 11 anos -, Lanthimos aproveitou para injetar nesta triste lenda todas as drogas que usou nas suas obras anteriores – Dogtooth (2009), Alps (2011), The Lobster (2015) e The Killing of a Sacred Deer (2017) -, mas, desta vez, optando por uma dosagem moderada, o que oferece às personagens um novo ingrediente: emoções fortes e vincadas. Gerado esse cocktail mais apetecível, menos excêntrico, abre-se espaço, mesmo assim, para a comédia negra e sátira política, um pouco à imagem de Armando Iannucci e do seu nada mais que burlesco The Death of Stalin (2017). O cineasta grego e companhia criaram uma realidade onde as mulheres dominam os jogos de poder e, ao contrário da maioria das narrativas, os homens são meros adereços que estas usam a bel-prazer, como meio para atingir um fim. Quereria o realizador demonstrar, através desta inversão das expectativas, o quão desaproveitadas são algumas personagens femininas na arte em geral? Numa altura em que os media se enchem de peças sobre assédio sexual e abuso de poder, por regra com uma conotação negativa associada ao sexo masculino, Lanthimos apresenta uma rainha que, apesar da sua volatilidade psicológica – alguns poderão argumentar que ela não sabe o que faz – se aproveita da sua hierarquia superior para obter prazer físico – o filme dá várias dicas de que assim é, sendo que a assimilação profunda destas emoções depende de pequenos pormenores, como a relação das três protagonistas com um grupo de coelhos, 17 ao todo, que vivem nos aposentos da rainha. Enfim, ficamos com um enredo de contornos políticos que nos mostra o quão maquiavélicas e frias também podem ser as mulheres, dissipando-se um pouco a questão do género e, por outro lado, agigantando-se a teoria universal de que todos nós, inseridos no contexto correto, temos tendência a guerrear por poder e riqueza, sendo essa ideia trespassada para esta obra duma forma original e refrescante. Óbvio que muitos poderão afirmar, e talvez com razão, que se está perante um conto acima de tudo feminista – talvez uma coisa não invalide a outra. Não obstante, toda esta pândega só resulta devido ao trabalho impecável das três protagonistas. A rainha de Colman é inesquecível, icónica, com o seu aspeto doente e depressivo deambula pelos corredores aos gritos, consoante alterna entre momentos da mais pura irracionalidade, como uma criança que faz birra, e relâmpagos de clareza e perspicácia, como uma vítima de Alzheimer que, depois de tudo esquecer, tudo relembrou. A social climber de Stone é dissimulada, esguia, ora doce e atenciosa, ora malévola e oportunista. E a duquesa de Weisz, talvez das três a que tem mais arestas, divide-se entre a genuína transparência, já que, apesar de ganhar com isso, parece mesmo ter algum carinho pela rainha, e a tentativa elegante de controlar tudo e todos. Juntas, tal como o Triângulo das Bermudas se apoderou de inúmeros barcos e aviões, exercem sobre os que as rodeiam uma enorme força gravitacional que faz deste um filme imperdível que, ainda que perca algum ritmo no último terço, agarra numa série de conceitos que reboliam na língua da sociedade atual e mastiga-os, misturando-lhe sucos inesperados e mucosas de ironia, gerando, no processo, uma experiência pitoresca e imprevisível.

Kubrickamente

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