‘Tenet’, uma serpente que morde a própria cauda

Christopher Nolan é tido por muitos como uma espécie de mágico da Sétima Arte, um cineasta audaz e competente, capaz de misturar conceitos complexos com o espetáculo que vende bilhetes. Pode dizer-se que o mito criado à sua volta não é de todo exagerado, pois, quantos cineastas conseguiram até hoje reunir tamanho número de sucessos financeiros sem descorar a qualidade que costuma atrair os cinéfilos mais exigentes? Quantos filmes com o ilusionismo como pano de fundo conseguem competir com ‘The Prestige’ (2006)? Quantos filmes de super-heróis conseguem fazer frente a ‘The Dark Knight’ (2008)? Quantos quebra-cabeças conseguem atingir o poderio de ‘Memento’ (2000) ou ‘Inception’ (2010)? Quantos filmes sobre exploração espacial conseguem voar mais alto que ‘Interstellar’ (2014)? A verdade é que, independentemente das suas limitações, estreia após estreia, este realizador rebusqueiro habituou a audiência a ver o coelho sair da cartola, a presenciar algo memorável, o momento fílmico em que o escapismo atinge o ponto rebuçado. Até chegarmos a ‘Tenet’.

Apesar de não parecer, a base narrativa do filme é bastante vulgar: à moda dos filmes de James Bond, um operativo anónimo da CIA, interpretado por John David Washington, é encarregue de salvar o planeta das garras de um bilionário russo, interpretado por Kenneth Branagh com um sotaque forçado. O oligarca tem em seu poder uma tecnologia que pode provocar o apocalipse e cabe ao agente secreto desvendar a conspiração e, claro, aproximar-se da esposa do mesmo, encarnada por Elizabeth Debicki, uma mulher insatisfeita, presa a um casamento volátil e insustentável, que tem como principal motivação garantir a segurança do filho.

Surge então a cartola: a referida tecnologia consiste na inversão do tempo. Salvaguardando-se o mistério à volta da mecânica e lógica inerentes a este processo, bastará referir que este fator permite que o enredo seja alvo de uma clara complexificação e se torne palco para uma série de cenas de ação arrojadas, estabelecendo-se um palíndromo narrativo, no mínimo, desafiante. Não será exagero adivinhar que muitos espectadores irão perder o fio à meada, muito por culpa de algumas explicações infrutíferas.

É esse um dos grandes problemas de ‘Tenet’. Apesar de cerca de metade do guião consistir em aulas vertiginosas sobre Fisíca Quântica e paradoxos temporais, persiste uma alienação dos conceitos-chave deste novo truque de ilusionismo. Por mais que o cineasta aproveite os momentos de calmaria para despejar exposição, parece existir sempre uma vagueza impenetrável, conforme as cenas passam e a confusão tende a aumentar. É difícil recordar um filme com pretensões semelhantes que apresente tantas explanações ineficazes e, pior ainda, entediantes. Tendo em conta a quantidade de tentativas, pode afirmar-se que este processo de elucidação é incompetente. E, com o agravar desta disfunção, alguns espectadores poderão sentir-se anestesiados, presos às intenções algebristas de um professor indiferente à potencial incompreensão dos alunos. Convém clarificar que uma obra do género não é obrigada a esclarecer a audiência. Aliás, alguns realizadores optam precisamente pelo contrário, confiando na capacidade da mesma de interpretar referências e estímulos maioritariamente visuais. Neste caso, é Nolan quem insiste nas explicações, incapaz de expor as ideias em voga sem recorrer a diálogos extensos e improlíficos.

Para piorar, não existe um fio emocional contundente que possa agarrar o espectador à linha vital das personagens. Pouco se sabe sobre o protagonista, além da sua óbvia destreza física e intelectual. O seu parceiro, interpretado por Robert Pattinson, vai pelo mesmo caminho. Quanto ao vilão, é uma personagem rudimentar, prejudicada pela performance desairosa de Branagh — talvez o casting mais infeliz de sempre num filme de Nolan. A única nota nesta pauta que pode provocar dissonância com a narrativa algorítmica e fria do maestro anglo-americano é a personagem de Debicki, potenciada, não pelo guião, mas pela interpretação da atriz. É nela que reside a escassa pinga de afeição a algum sentimento palpável — a mãe que não quer perder o filho, a esposa que é violentada. Todavia, até ela é apresentada por Nolan como mais um peão ao serviço do seu jogo de xadrez.

Ademais, a súbita ligação afetiva entre as personagens é pouco credível. A rapidez com que se salta do implacável agente secreto para o homem preocupado que arrisca falhar a sua missão para salvar uma mãe em apuros é melindrosa, sensação que é aumentada pela falta de química entre os vários elementos do elenco. Decisões preponderantes são expostas a uma velocidade estonteante, sem incerteza, sem debate interno ou moral, as personagens, mais caricaturas que outra coisa, são setas apontadas ao objetivo grandiloquente do seu criador, marionetas nas mãos de um cientista maluco. Em resumo, se separarmos o filme da sua componente pseudo-científica, precedente aberto pelo próprio Nolan ao executar um exercício semelhante numa edição-limitada DVD de ‘Memento’ lançada em 2002, podemos facilmente verificar que o drama que o habita está repleto de lugares comuns. Correndo o risco de causar discórdia, pode encontrar-se o mesmo processo na obra anterior do realizador, ‘Dunkirk’ (2017), onde o respetivo “jogo do tempo” funciona como um elemento distrativo que disfarça um vasto leque de imperfeições.

A banda sonora de Ludwig Göransson ajuda a dispersar a monotonia com sons distorcidos e manipulados de forma a coincidirem com a lógica temporal. A fotografia de Hoyte van Hoytema, habitual colaborador de Nolan, adota um registo frio e conservador, e é difícil encontrar algum plano que se diga eterno. Por sua vez, a edição, a cargo de Jennifer Lame, consegue acompanhar a velocidade dos acontecimentos.

Perante os problemas mencionados, a única escapatória de ‘Tenet’ seriam as cenas de ação afetadas pela inversão do tempo. Gorados os outros aspetos do filme, era nestas secções mirabolantes que o coelho poderia sair da cartola. Contudo, apesar da sua espetacularidade e, de certo modo, estranheza, estas parecem algo desinspiradas em comparação com alguns dos melhores filmes de ação dos últimos anos — vêm à memória as últimas aventuras de Tom Cruise no franchise ‘Mission: Impossible’. O combate corpo a corpo é prejudicado por planos demasiado fechados e cortes constantes, sem que o espectador tenha possibilidade de apreciar as coreografias de um ponto de vista mais distante. Pondo de lado a premissa física e temporal, as perseguições de carros não acrescentam nada de novo ao enorme catálogo do género. E o último confronto do filme, que tinha o potencial de se transformar num orgasmo audiovisual, é assombrado pela desordem, numa fase em que alguns espectadores já se poderão ter entregado à dormência.

Em todo o caso, há que louvar a ambição desgarrada de Christopher Nolan e o seu amor aos efeitos práticos. Esta nova ideia é inventiva e original, e a crueza de tudo o que acontece é refrescante — numa das cenas mais agitadas, um avião de passageiros verdadeiro vai contra um edifício. O problema é que, para lá da excitação que o conceito possa causar, com algumas considerações metafísicas e filosóficas a ter em conta, encontra-se um vazio considerável. Além do relativo deleite audiovisual, existe pouco mais para apreciar do que as congeminações de um artista que aparenta dar a nossa indulgência e atenção como garantidas. Ao contrário de alguns dos seus filmes anteriores, em que a complexidade é uma mais-valia, um enigma sedutor, em ‘Tenet’, a mesma, por via de um guião inábil, assemelha-se mais a uma malformação incapacitante, uma serpente que morde a própria cauda, um monstro insubjugável que suga toda a diversão que, teoricamente, se poderia extrair de um conceito tão estimulante. Mesmo que consigamos perceber o enredo de uma ponta à outra, o que é difícil à primeira tentativa, a recompensa daí extraída parece magra em comparação com outras abordagens do género. Sobra um filme deveras extenuante e ligeiramente aborrecido.

Razoável
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