‘Suspiria’, um pântano repleto de ideias malformadas

Em 1977, estreava Suspiria, da autoria de Dario Argento, uma obra cinematográfica que nasceu duma vaga cultural associada ao psicadélico, à despossessão do corpo físico através do estímulo visual. Em Itália, o género foi denominado “Giallo”, perfazendo uma mistura artística e intencional entre o suspense e o erotismo com o objetivo primário de promover a estética através de sensações alucinogénias. Ao longo dos anos, o filme, com a ajuda de edições DVD e versões restauradas, foi ganhando visibilidade dentro do género de terror, sendo que acabou por adquirir o estatuto de filme de culto, amplamente merecido graças à utilização duma paleta de cores vivas e estonteantes, propulsionadora duma experiência deveras orgásmica e transcendental. Como tal, é intuitivo afirmar que Luca Guadagnino, o realizador do adorado Call Me by Your Name (2017) e confesso “stalker de realizadores”, assumiu uma enorme responsabilidade ao pegar numa obra cujo nome está mais que firmado nos anais do Cinema. Esta sua versão, tal como a original, conta a história duma rapariga americana, interpretada por Dakota Johnson, que chega à Alemanha com o objetivo de ingressar numa famosa escola de dança contemporânea, liderada pela coreógrafa Madame Blanc, interpretada por Tilda Swinton. A ação decorre em 1977, na cidade de Berlim, durante o período conhecido como o “Outono Alemão”, marcado pelo terrorismo urbano, com várias referências ao grupo Baader-Meinhof, e pelo processo deficiente de expurgação do nazismo da sociedade germânica, principalmente no meio político. E é aqui que começam as atribulações do cineasta italiano. Sem que se tente esconder tal facto, a escola de dança é comandada por um grupo de bruxas que, apesar da sua pose afável, utilizam as jovens dançarinas para consumar vários rituais satânicos através de danças coreografadas ao pormenor. Ora, Guadagnino tenta, desde os primeiros minutos, criar uma ligação metafórica entre o comportamento das bruxas e o cenário sociopolítico da altura. Desde o Muro de Berlim, passando por inúmeras referências indiretas ao Holocausto, até ao contraponto duma extrema-esquerda sempre presente nas televisões e emissões de rádio, é feito um esforço enorme para que o espectador ligue a narrativa à temática do fascismo e do combate ao mesmo, com algumas ramificações inconclusivas para o feminismo. O problema reside na pobre forma como essas alegorias são alicerçadas, assentes maioritariamente em desvios secundários que, em vez de enriquecerem o enredo, apenas o tornam mais disperso e vago, um pântano repleto de ideias malformadas. Por exemplo, uma das ideias prementes do filme reside na possibilidade das bruxas poderem estar a seguir um falso ídolo, neste caso a sua mestra, uma tal de “Mãe Markos” que permanece oculta e que exige destas uma vida de violência no sentido de alimentar a sua fome de poder. Será esta uma alusão ao nazismo e à forma cega como milhares de pessoas, mais ou menos informadas, seguiram um líder carregado de ideias genocidas? Ademais, todos os símbolos políticos, como o Muro, são utilizados de forma leviana, como se um aceno bastasse, não havendo a posteriori uma correlação entre esses adereços físicos e a psicologia e misticismo inerentes à história que está a ser contada. Em auxílio ainda vem o percurso secundário pela vida dum psicanalista octogenário – Swinton por baixo duma enorme camada de próteses e maquilhagem – que começa a desconfiar das atividades das mulheres que conduzem a escola, após uma das suas doentes, uma das dançarinas interpretada por Chloë Grace Moretz, ter desaparecido. Duma forma algo forçada e conveniente, este é estabelecido como uma figura patriarcal que, independentemente das suas boas intenções, ignora as mulheres em geral, o que até pode ter contribuído para o desaparecimento da sua esposa durante a Segunda Guerra Mundial. Todavia, o coeficiente deste enredo secundário funciona como mais uma acha atirada para uma fogueira que arde mas não queima. Nunca é criado um ambiente que permita uma total imersão na cidade em tumulto ou na escola de dança demoníaca, gerando-se uma desarrumação temática regada de Carl Jung, Lenine e mitologias satânicas, facilmente confundível com algo profundo ou verdadeiramente perspicaz.

Suspiria

O coração do filme, negro como ele é, exacerbado por cores esbatidas e frias nos dois primeiros atos, reside na escola de dança, um reduto repleto de segredos, divisões dentro de divisões. Contudo, o edifício em si é explorado pela câmara de Sayombhu Mukdeeprom duma forma algo limitada, registando-se uma dose de terror algo anémica. Apesar de se sentir o fedor a algo obscuro, os corredores desta casa dos horrores nunca são devidamente esmiuçados, tornando-se o suspense quase nulo, um sintoma flagrante de que a praia de Guadagnino pode não ser efetivamente este género que teimosamente tentou explorar. Recorde-se que o cineasta insistiu em pegar neste projeto depois deste ter sido cancelado por falta de orçamento nos tempos em que o candidato a realizador era David Gordon Green, entretanto responsável pelo reboot recente de Halloween (1978). Em contracorrente, há que realçar o fantástico trabalho de edição levado a cabo por Walter Fasano. As cenas de dança, justapostas com momentos de horror corporal e grotesco, são pautadas ao milímetro e milésimo de segundo, oferecendo ao filme momentos deveras hipnóticos, somente interrompidos por gritos de dor e desespero. Chega-se, portanto, quase ao conceito de musical, formando-se, em alguns momentos, um equilíbrio atraente entre os suspiros agrestes provenientes de movimentos vigorosos, a banda sonora delicada de Thom Yorke e átimos da mais pura e brutal distorção física do corpo humano. No entanto, a dança, apesar de ter peso concreto no desenrolar da trama, acaba também ela por cair no vazio devido à falta de coesão narrativa. Esta ausência de lógica emocional e situacional nota-se em demasia quando o filme salta para um clímax repentino sem que o comportamento da personagem principal seja devidamente contextualizado. Suspiria transforma-se igualmente num padrasto injusto para Dakota Johnson e Tilda Swinton que, perante o guião irresoluto que tiveram pela frente, acabam por salvar o filme duma invernia ainda maior e já por si difícil de combater, não fosse o filtro acastanhado utilizado um indutor de torpor. A segunda, como sempre, faz um trabalho exímio, carregando a sua personagem de tiques e poses a fazer lembrar a coreógrafa Pina Bausch ou a dançarina Martha Graham com as bainhas de vestidos longos e esvoaçantes a roçarem o chão. Não obstante, o filme de Guadagnino abre feridas que não fecha. Sem que isso seja propriamente mau, o problema reside na maneira desregrada como esses cortes são infligidos, nas mãos dum cirurgião indubitavelmente talentoso, mas que, desta vez, tremeu demasiado na hora de manusear o bisturi, fazendo um estrago sangrento e caótico. Mortal. No fim, feita a autópsia a esse corpo pútrido, sobram os indícios dum trabalho apaixonado, mas despovoado de impacto emocional, um claro sinal de que nem todas as boas ideias e intenções chegam a bom porto.

Razoável

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