Dr. Strangelove

Dr. Strangelove, uma sátira política intemporal

Um homem temperamental e mal informado que detém o poder de lançar um ataque nuclear. Faz lembrar algo? Um general norte-americano, interpretado por Sterling Hayden, acredita que os soviéticos, para além de outras atividades, estão a sabotar os reservatórios de água dos Estados Unidos e resolve ordenar um bombardeamento nuclear contra a União Soviética. Para isso, após enviar a ordem para um bombardeiro americano, corta as comunicações com o mundo exterior à base militar comandada por si e avisa os seus soldados de que quem tentar entrar faz parte duma iniciativa hostil contra os EUA. Ele é o único que possui os códigos para cancelar o ataque e evitar o que provavelmente dará início à Terceira Guerra Mundial. Do seu comportamento lunático pode retirar-se, precocemente, uma das ideias fundamentais do filme de Stanley Kubrick: quando a pessoa errada tem o dedo no botão, existe uma grande possibilidade do resultado ser catastrófico. Assim como é criticado o acatamento cego de ordens insensatas por parte de soldados que optam por colocar a clarividência de lado e seguir o que lhes é dito, mesmo que isso signifique iniciar um conflito à escala global. Personificação disso é o Major Kong, interpretado por Slim Pickens, o piloto do avião que, depois de receber a tal ordem, aceita alegremente a missão inesperada de conduzir uma bomba nuclear até território soviético e, como lhe diz o protocolo, cortar as comunicações até que o “serviço” esteja concluído. Pouco mais do enredo é necessário revelar para que se perceba o porquê de Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb , que já leva mais de cinquenta anos de existência, ser recordado tão afincadamente nos tempos que correm.

Dr. Strangelove

Premido o botão e face à iminente chegada do bombardeiro do Major Kong ao seu alvo, cabe a alguns dos homens mais influentes do mundo sentarem-se à mesa e decidirem o que fazer com a situação calamitosa que se avizinha. É nessa reunião de egos inflacionados que a face mordaz do texto de Kubrick conquista proporções intemporais. Uma obra que mostra como a guerra pode engordar os propósitos gananciosos dos poderosos. Naquela mesa, dentro daquela sala, “War Room” como lhe chamam, o destino do mundo é decidido. E tais reuniões serão sempre necessárias, tendo a sociedade democrática eleito personalidades para tal. O problema, corrosivo como Kubrick o põe, reside nas motivações e possíveis devaneios de quem detém o poder de decisão. Para as personagens que se encontram nesta reunião, a perspetiva de aniquilar ou ser aniquilado está ligada a instintos básicos como acasalar e matar, e é expressa em diálogos, que têm tanto de sério como de hilariante, sobre nacionalismo, xenofobia ou a similaridade entre o ato sexual e o ato de combater uma guerra. Nesta mixórdia surreal, mas hiper-relevante, sobre um cómico e hipotético “jogo de guerra”, acabam por surgir temáticas aterrorizadoramente sexuais que reduzem toda a discussão a uma briga entre níveis de testosterona e o proveito animal que se pode retirar duma situação apocalíptica. Exemplo disso é o General ‘Buck’ Turgidson, num overacting propositado de George C. Scott, que começa por ser a voz mais ativa da tentativa de evitar um conflito e que, no fim, se sente já atraído pelo proveito sexual que lhe traria viver num bunker nuclear durante vários anos, havendo a necessidade de perpetuar a espécie humana. No entanto, é Peter Sellers a estrela mais brilhante do firmamento ao interpretar três personagens diferentes, das quais seria impossível não destacar o Doutor Strangelove, a figura singela que dá o título ao filme. Um nazi reprimido, de intenções maquiavélicas e destrutivas, um cientista  de cadeira de rodas aparentemente inofensivo que aconselha os generais a tomarem medidas que, eventualmente, se tornarão perigosas para a humanidade. A demonstração de que o mal pode não vir de quem decide, mas sim de quem aconselha.

Dr. Strangelove

Destinado inicialmente a ser um drama sobre o apocalipse nuclear, porém, reescrito como uma comédia negra após o estudo aprofundado de Kubrick sobre o cenário MAD (Mutual Assured Destruction), o argumento escrito pelo realizador e por Terry Southern, baseado no livro “Red Alert” de Peter George, torna inviável não reparar nas incongruências e futilidades dos conflitos armados e dos protocolos vigentes naquela época que, ainda hoje, são desprovidos de sentido.  Além do guião que roça a perfeição, a arte concetual é magnífica, especialmente na “War Room” onde a luminosidade contrasta com o escuro, transportando toda a atenção para a mesa em que as emoções à flor da pele se elevam à razão. No entanto, o feito mais extraordinário é a ginástica gestual e expressional operada por todo o elenco no sentido de oferecer teor dramático a tudo o que é dito, mesmo estando perante algum do material mais sarcástico da História do Cinema. O humor ali presente é inexplicavelmente camuflado pela graveza das reações calculadas ao pormenor, como um vulto escondido atrás duma cortina transparente que podemos ver com a luz do Sol, mas que prontamente se desvanece quando uma nuvem passa e instaura a sombra. Como resultado, uma das melhores sátiras políticas de todos os tempos, que nos transporta para os medos inerentes à Guerra Fria, agora atuais e com intervenientes extra, e faz um exercício reflexivo aguçado sobre a possibilidade nuclear que, ao fim ao cabo, sempre esteve presente.

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