‘Star Wars: The Last Jedi’, nada dura para sempre

Ao contrário da indústria televisiva, o cinema vive um momento delicado. Apesar dos números não serem desanimadores, a verdade é que a maioria do lucro e da atenção duma nova geração de espectadores tem-se concentrado em projetos sobre super-heróis ou franchises de longa data, como é o caso da saga Star Wars. De modo que é aquando dessas estreias que as principais publicações americanas da especialidade, e não só, têm a oportunidade de angariar mais leitores, usufruindo dum elevado número de fãs ansiosos por explorar essas temáticas. Antevisões, spoilers, trailers, “tudo o que precisa de saber antes de”, posters, passatempos, easter eggs, entrevistas, publicidade, tudo ajuda a embelezar essas quatro ou cinco festas de arromba que, todos os anos, enchem os bolsos de empresas como a Disney. E, claro, nós, meros curiosos, simpatizantes ou puros fãs, outrora pequenos traquinas aficionados da banda desenhada e colecionadores de cromos e brinquedos, agora graúdos, acedemos ao frenesim, deixamo-nos envolver por esse tão quente entusiasmo que nos traz lembranças do passado e, por vezes, sensações que desconhecíamos dentro de nós. É natural, é instintivo, chamam-lhe “hype” nos dias que correm. Pode dizer-se, então, que, mesmo antes do filme estrear, está já montada uma enorme festa, como se, à partida, o sucesso fosse garantido, como se, aconteça o que acontecer, gostar do filme seja uma certeza, tal é a propaganda emocional exercida sobre todos. Porém, no meio dessa celebração nostálgica, está um convidado indesejado, uma espécie de penetra que, a qualquer momento, pode interromper a festa e estragar o ambiente: o crítico de cinema. Geralmente, o indivíduo mais discreto e atento da sala, pois a responsabilidade é grande, pelo menos para os que levam a sua função a sério. Esta é, talvez, e devido à prática, uma das pessoas mais indicadas para desconstruir um filme, encontrar as suas lacunas, assim como detetar as suas mensagens e metáforas mais audazes. Ou pelo menos devia de ser. Com este pensamento em mente, levantam-se algumas questões incómodas: terá o crítico coragem de estragar uma festa de grandes dimensões? E como estraga a festa, se é essa mesma que permite à sua entidade empregadora conduzir um negócio próspero? E há ainda a acrescentar os episódios aborrecidos em que os fãs, quando as críticas fogem para o negativo, coisa rara nos dias que correm, sacam da palavra “hater”, muitas vezes inconscientes de que muitos dos críticos são os primeiros a ansiar que estes filmes sejam verdadeiras obras-primas do género, pois também eles foram miúdos, rodeados pelo Wolverine ou pelo Chewbacca, enquanto passeavam pela casa com o cabo duma vassoura a fazer de lightsaber. Por outras palavras, existe uma enorme pressão logística e social para que filmes como Star Wars, Avengers, entre outros, sejam protegidos, nutrindo-se um prisma qualquer que os enalteça. Como resposta a tudo isso, surgiu nos últimos anos, acompanhado pelas imposições da febre digital, um fenómeno palpável em que os filmes deste calibre são, normalmente, apesar das opiniões poderem divergir, sobrevalorizados, perdoados de algumas das suas inconsistências e banalidades, em relação, por exemplo, a projetos independentes. Perde-se, portanto, com a colaboração de alguns fãs que, ainda emaranhados nessa rede de emoções, preferem não apontar defeitos e, em alguns casos extremos, trucidar quem o faça, uma oportunidade de refletir profundamente sobre os filmes que andamos a consumir, ora não tivessem estes uma influência considerável na sociedade em que vivemos. Obtém-se uma win-win situation – a festa não é estragada e o público, condicionado por todos esses estímulos externos, mantém a fé num sistema onde tudo é valorizado menos o cinema como uma forma de arte relevante. A preceito deste esquema de consumo, Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi não fugiu a essa regra, pois, tal como os números iniciais indicam, vai ser uma das maiores festas de arromba de sempre. E os críticos, os das principais publicações mundiais, as tais que se alimentam ferozmente destes eventos, fizeram do filme um espetáculo imperdível, conforme as primeiras reações apontavam para aquele que seria um dos melhores filmes da saga até hoje. O festim estava montado. No entanto, um fenómeno divergente e algo surpreendente está a acontecer. Pelo mundo fora, nos vários fóruns e websites dedicados à especialidade, milhares de fãs têm expressado o seu desagrado com o rumo que a Disney e o realizador Rian Johnson resolveram dar ao filme. De forma algo inédita e insólita, são os próprios adeptos da saga, não todos obviamente, que estão a estragar a festa, numa demonstração de que, afinal, apesar de vivermos em tempos de “mão leve”, ainda existem certos requisitos de qualidade que devem ser respeitados. E, aqui, juntamo-nos a essa voz de protesto: infelizmente, The Last Jedi não é um bom filme.

The Last Jedi

O enredo deste oitavo episódio divide-se em dois palcos principais algo claustrofóbicos, escolha que, inicialmente, parecia interessante: a perseguição da frota estelar da Primeira Ordem às naves sobreviventes da Resistência, comandadas pela general Leia (Carrie Fisher) com o auxilio de Poe Dameron (Oscar Isaac), e a estadia de Rey (Daisy Ridley) na ilha de Ahch-To, onde tenta convencer Luke Skywalker (Mark Hamill) a juntar-se aos rebeldes, havendo ainda espaço para uma missão secundária que serve para dar uso à personagem mais desvalorizada pelas escolhas do realizador, Finn (John Boyega), o ex-stormtrooper que no primeiro filme desertou a Primeira Ordem. Desde o início que se torna claro que Rian Johnson, autor de filmes como Brick (2005) e Looper (2012), quis dar o seu cunho pessoal a tudo o que acontece nesta nova aventura, sendo notório um uso estético ambicioso, governado por várias justaposições estimulantes entre as duas personagens principais, Rey e Kylo Ren (Adam Driver), e os esverdeados e acinzentados típicos da ilha onde se encontra Skywalker e um cenário mais diabólico onde governam o preto e o vermelho e o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), que finalmente ganhou corpo e cara, mesmo que viva da técnica digital e não humana. Apesar dum primeiro ato explosivo, faz-se logo notar a sensação de que, ao contrário de The Force Awakens (2015) e Rogue One (2016), existe uma pressa indomável de chegar a algum lado, perdendo-se minutos preciosos com as cenas erradas e apressando-se as cenas que efetivamente são importantes para o enredo principal. Enquanto se gastam incontáveis minutos com conversas de cockpit, a aprendizagem da suposta heroína da história é posta em cheque, remetida para demasiadas voltas e contravoltas, sobe e desce encosta, naquela que pode ser considerada uma estadia pouco sumarenta. Porém, é quando o filme entra em erupção e se tenta desprender dessas amarras impostas por localizações limitadas– uma ilha envolta por mar e naves rodeadas pelo vácuo – que, ao invés de sairmos disparados para o refogado de proporções negras e épicas que se esperava, somos lançados para uma inesperada confusão narrativa. Duma prisão espacial para uma prisão de ideias.

The Last Jedi

Muito incentivada pelo enorme contributo que deu à série Game of Thrones, iniciou-se uma corrente moderna que encoraja ao choque, à subversão repentina das expetativas da audiência. De há uns anos para cá, apesar de alguns projetos terem revelado mestria nessa vertente, parece que interessa mais a um número considerável de espectadores e produtores a proliferação de factos extemporâneos – “aconteceu isto e morreu este” – do que a expansão de narrativas ricas em lógica e emoção. E, depois da bem-sucedida reciclagem nostálgica levada a cabo por J.J. Abrams, parece ter sido essa a fórmula escolhida por Rian Johnson para dar faísca à continuação desta nova trilogia produzida pela Disney. “Deixa o passado morrer, mata-o se tiver de ser”, vocifera a certo ponto Adam Driver, mascarado da personagem que interpretou no filme anterior. Mas que passado é esse que tanto se quer exterminar neste filme? O passado criado por George Lucas há quarenta anos atrás? O passado repleto de enigmas criado por Abrams há dois anos atrás? Ou será esta fulcral fala uma justificação barata para a falta de imaginação do guião escrito por Johnson? Será este The Last Jedi uma espécie de “Red Wedding” da saga? Ou, pelo contrário, uma pobre tentativa de pegar nessa moda de que basta surpreender e bradar “inversão das expetativas” aos céus, que todos nós nos ajoelhamos em reverência daquilo que, na realidade, é o arremessar fortuito duma série de enredos intrigantes para o lixo? A ideia que fica, uma de que muitos podem discordar, e talvez com razão, é que estamos perante um filme gélido onde imperam convulsões repentinas e mal contextualizadas, em prol duma qualquer necessidade premente de destruir expectativas, em vez dum exercício emocional e coerente. E, mesmo que, apesar da ausência de respostas, se aceite que Johnson tenha obliterado algumas das questões que andaram a moer o juízo aos fãs durante dois anos, o que não se justifica são as imensuráveis inconsistências que se fazem sentir. Qualquer um que se debruce durante alguns minutos de forma imparcial sobre o assunto poderá cair em buracos narrativos gigantescos, em que variadas ações acontecem sem qualquer razão aparente, num vazio de lógica incompreensível. Desde personagens que tomam decisões desprovidas de coerência, passando por martirizações completamente forçadas, ora não pudessem um modo piloto automático ou robôs multifunções fazer esse sacrifício, até incursões secundárias que levam a lado nenhum senão a coincidências convenientes e observações políticas rudimentares, The Last Jedi, atirada também a “mão leve” para o lixo, é um assalto discreto à inteligência dos espectadores, principalmente os que têm explorado esta galáxia com afinco, comandado por uma máquina de fazer dinheiro. Esta observação não se prende às escolhas estéticas, pois o filme tem momentos da mais esbelta e refinada fotografia e realização, mas a vários acontecimentos que desafiam as lógicas do universo apresentado nas obras anteriores, assim como vários diálogos e adições de personagens que visam, pura e simplesmente, o politicamente correto. Na missão de lançar a tal galáxia distante para outros horizontes, remeteu-se-la para um espaço fechado onde tudo é dito e pouco é demonstrado, como se o filme fosse tão complexo que os espectadores precisassem das constantes pistas explicativas que as personagens vão mandando para o ar, quando, na realidade, o que se tem é uma história simples de fuga e perseguição repleta de efeitos especiais e motivações pobremente construídas. Além disso, apesar deste fator estar dependente dos gostos de cada um, foram inseridos demasiados momentos cómicos que, para além de serem ineficazes, quebram o ritmo da ação, assim como suavizam os antagonistas que, já por si, não emanam o perfume maléfico de vilões do passado como Darth Vader, general Tarkin ou Darth Sidious. De repente, parece que todas as personagens ganharam, dum filme para o outro, um sentido de humor inoportuno retirado do estúdio do lado. E essa “marvelização” vira-se contra o próprio filme a partir do momento em que essas tiradas jocosas relegam o pêndulo entre o Bem e o Mal, principal tema do filme, para um plano caricatural em que passamos a ter rapazes irritados e impulsivos a lutar uns contra os outros, servindo as personagens antigas, Luke e Leia, de cola para um bibelô frágil e danificado, vendido a preço de ouro pela Disney.

The Last Jedi

Estranhamente, está-se perante uma obra com toques de autor em abundância, enriquecida pela, mais uma vez, excelente banda sonora de John Williams. Os atores fazem um trabalho aceitável, apesar da protagonista Daisy Ridley continuar incerta do tom que há-de oferecer à sua personagem, e o fan service, à semelhança de Rogue One, é servido na dose certa, fora algumas escolhas ligeiramente bizarras. O grande problema parece ser mesmo o guião anafado de escolhas antilógicas, mais virado para fazer fazer rir e surpreender do que para prender o espectador numa experiência enriquecedora e envolvente a nível dramático. Apesar de novos meandros da Força serem explorados, o que sobra é um cárcere de chavões didáticos onde nenhuma personagem é devidamente estudada. Rompeu-se com a fórmula, mas não se dilaceraram as frases melosas do costume, na esperança de que o espectador confunda os sentimentos nostálgicos que lhe invadem o corpo com a satisfação de estar a ver um filme realmente competente e visionário. E, mesmo quando surge a ameaça de se estar perante um momento memorável, a câmara é logo atirada para uma outra localização qualquer, onde outro evento menos relevante se desenrola, só para depois voltar e recolher os estilhaços do ímpeto quebrado. No fim, fica-se com um sabor amargo na boca, como se uma ínfima parte de nós tivesse sido roubada, destruída em prol dum chamariz comercial. A suposta inversão das expetativas transforma-se, ironicamente, numa derradeira e deprimente lição: nada dura para sempre. Nem mesmo o Star Wars.

Razoável

 

 

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