Stanley Kubrick não está em casa

Bateram à porta. Ele levantou-se, deixando-me como companhia o ruído do projetor. Rodou a maçaneta. Entre hesitações, perguntaram se Stanley estava. Figura incógnita, apenas se conhecia o nome e não a face. O próprio foi abrir a porta e mentir com todos os dentes que tinha, “he´s not here”. Fechou a porta e voltou para o seu cinema privado. Sentou-se ao meu lado, “stupid journalists”. Na tela, aparecia o seu nome: Stanley Kubrick. Olhei para ele, ele sorriu. Começava o filme da sua vida.

Como iniciar uma obra sobre um génio? Com uns acordes fulgurantes de Strauss, um plano maquiavélico do seu olhar? Talvez falando sobre a mise-en-scène em que este cresceu: Nova Iorque. Esta é a cidade que se torna pano de fundo para o nascimento daquele que viria a ser considerado um dos melhores cineastas de sempre. Estamos em 1928. Se a escola e o ensino não o seduziam, a fotografia despertava-lhe um imenso fascínio. Já vinha de família, do seu pai e do “laboratório” que tinha em casa. Iniciava-se aqui a ligação com a película. Paradoxalmente, a morte de Roosevelt faria nascer o fotógrafo que havia no miúdo. O retrato de um jornaleiro com a cabeça suspensa na mão e um olhar desolado, enquanto ao seu lado uma manchete em letras gordas anunciava a morte do presidente americano, impressionou e emocionou quem visualizou a fotografia.

Stanley Kubrick

Este foi o pedaço de papel que mudou a vida do futuro génio. Foi o gatilho para o seu nome começar a fazer páginas de jornais. No entanto, por essa altura, ainda em letras minúsculas: com apenas 16 anos, vendeu a fotografia à revista Look, para a qual, após terminar a escola, viria a trabalhar.

De foto em foto, o humilde Stanley viria a ganhar estima e um à-vontade com a máquina fotográfica. Aproveitava também para captar tanto histórias que gostava como eventos de que era fã. O boxe era uma das suas paixões e, depois de muito fotografar o “seu” desporto, saltou para o cinema e realizou o seu primeiro filme, ‘Day Of The Fight’, em 1950. Este levaria o cineasta estreante a despedir-se da revista Look e a dedicar-se totalmente à sétima arte. Mudando-se para Greenwich Village, sustentava-se fazendo pequenos documentários, enquanto jogava xadrez em torneios a dinheiro.

Desde pequeno que o tabuleiro o fascinava. Desde sempre que Stanley conduziu a sua vida tal como os seus filmes: com pulso firme, arriscando, mas avaliando cautelosamente esses mesmos riscos, com o mesmo olhar e pensamento de quem disputa uma partida de xadrez. O tabuleiro passou a ser a vida real e, se teve momentos de liberdade enquanto peão, também chegou em certas ocasiões a uma posição de zugzwang – em que sabia que era necessário avançar. Futuramente, orquestraria os seus atores – ao milímetro! – como quem move as peças de madeira. Mas já lá iremos, não tenhamos pressa de saltar jogadas.

Em 1953, o seu pai resgata o seguro de saúde e financia o filho para este fazer ‘Fear and Desire’, um filme sobre uma guerra fictícia, com atores mal pagos. Contudo, seria ‘Killer´s Kiss’, em 1955, que chamaria a atenção de um produtor da época com dinheiro para investir. James B. Harris seria essa peça-chave e, juntamente com o realizador, viriam a formar Harris-Kubrick Pictures. A história de ‘The Killing´, o seu próximo filme, seria encontrada em livro por Harris e tornar-se-ia o primeiro projeto onde podemos encontrar resquícios deste grande realizador que viria a captar a atenção do mundo.

Lucien Ballard, vencedor de um Óscar, foi escolhido para cameraman. Homem clássico e com bagagem hollywoodesca, menosprezou o jovem cineasta durante a rodagem. Quando Ballard resolve filmar por si e não exatamente como o novato ordenou, este, suave e calmamente, disse: “Ponha a câmara onde eu mandei, com a lente que eu pedi ou saia deste estúdio e não volte mais”. Depois disto, não houve mais discussões no backstage do filme. Kubrick começava assim a brotar de Stanley.

Estamos nos finais dos anos 50, período de Guerra Fria, onde era necessário fazer filmes mais sinceros e ousados. E eis que chega ‘Paths of Glory’, um drama histórico de guerra onde o realizador constrói humanamente o que de mais desumano há em combate: o abuso de poder, a alma fria dos comandantes, o olhar quente dos soldados.

Seguidamente, nasce ‘Spartacus’, o filme da mudança. O cineasta sentia-se infeliz por não ter controlo sobre a produção, realização e edição. Seria a partir daqui que, vincou, apenas faria filmes onde pudesse ter o final cut. Todavia, sabia ser este o filme que o punha junto de um lote de grandes atores. Seria realizador de um projeto importante e de sucesso. Seria a ponte: a prisão de Spartacus daria a liberdade do futuro.

Apesar de jovem, e de ainda não ter criado nenhuma das obras que fariam de si um dos grandes cineastas de toda a História, o realizador norte-americano já era conhecido e respeitado em Hollywood.

Chega então, em 1962, ‘Lolita‘, um filme escandaloso para a época, extraído de um livro incendiário – Nabokov não conseguiu publicá-lo nos EUA e em França foi considerado pornográfico. O tema prejudicou a distribuição do filme: a Igreja Católica condenou-o, afirmando que quem o visse estaria a pecar, e atrasou o lançamento em 6 meses. Na cena em que Humbert, interpretado por James Mason, está na cama com a sua esposa, Charlotte, há um retrato de Lolita na mesinha de cabeceira. A Igreja achava que Humbert estaria a usar a foto da jovem como estímulo sexual. Na altura, Mason negou – confessando, anos mais tarde, rindo-se, que era obviamente essa a intenção. No entanto, concordaram em limitar o número de vezes que o ator olha para a fotografia. Kubrick teve assim de remontar o filme para o conseguir lançar. Voltou a cair na teia de cedências a que um realizador tem de estar sujeito para ver a sua obra no grande ecrã.

Nesta altura, sem se virar para mim, confessou-me, calmamente, aquilo que já havia dito na altura do lançamento do filme à Newsweek: “Se eu soubesse que as limitações seriam tão severas nem teria feito o filme”. Contudo, apesar da polémica, o sucesso de bilheteira ditaria a espetacularidade da obra. O filme seguinte não ficaria nada atrás.

‘Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb’, o filme que possui “falhas no argumento e na atuação, mas a realização é tão corajosa e soberba que o filme arrasa”. Quem o diz, num ânimo característico, é Woody Allen. “Só pelos créditos iniciais e pelo uso da música na abertura”, riposta Scorsese, “sabíamos que tudo podia acontecer”. Uma obra que atinge perfeitamente o problema que assolava a sociedade americana da altura. Em perigo iminente de deflagrar uma Terceira Guerra Mundial – num período de Guerra Fria, onde se ameaçava Cuba com lançamento de misseis – Kubrick critica profundamente os líderes militares e esforços bélicos. “Gentleman, you can´t fight in here! This is the War Room”. Todos os comandantes ali retratados assemelhavam-se a um bando de lunáticos.

Stanley Kubrick

A doentia perfeição iniciava-se aqui. Durante as filmagens, um militar oficial foi a Shepperton visitar os locais das gravações. A quantidade de detalhes aterrorizou-o, “certifique-se que sabe onde comprou tudo ou o F.B.I. vai acabar por investigar”. Nesta altura, este soltou um rasgado sorriso que encheu toda a sala.

Sydney Pollack questiona que mente consegue imaginar algumas das cenas daquele filme. E, se já se comentava a sua genialidade na altura da estreia de ‘Dr. Strangelove’, estaria, por anos, para chegar a obra que, até hoje, continua a assombrar cinéfilos, críticos e realizadores de todo o mundo: ‘2001: A Space Odyssey’.

Brian Aldiss afirma que a maneira de Kubrick fazer filmes era concentrar-se em sete ou oito “unidades não submersíveis”. Ou seja, pegava num pedaço, depois noutro e noutro igualmente bons ou melhores. “Seria fácil interligá-los”. E isso nota-se bastante neste filme. Contudo, estes fragmentos não encaixam assim tão bem e será exatamente por isso que há um mistério eterno em torno da obra – este era o primeiro filme de ficção científica que realmente apresentava um futuro incognoscível. Todavia, o que hoje em dia pode parecer surreal é que, na antestreia destinada a distribuidores, tivessem abandonado a sala 241 pessoas – e apenas após a primeira parte do filme. Um executivo da M.G.M. chegou mesmo a dizer “Isto é o fim de Stanley Kubrick”. No entanto, a experiência que Woody Allen teve com esta obra será a que a maioria de nós tem. Se a primeira vez odiou, a segunda já gostou mais. E, passado uns anos, obrigando-se a rever o filme, adorou-o. Este é um filme sensorial e será das poucas obras em que nos apercebemos que o artista está muito à frente do seu tempo: passaram mais de 50 anos desde a sua estreia e, provavelmente, Kubrick continua a anos-luz.

O mistério em torno de ‘2001’ foi crescendo ao longo do tempo. A icónica barba do cineasta, adquirida durante a rodagem do filme, seguiu o mesmo caminho, resistindo até ao fim da sua vida.

Até que, em 1971, chegou a hora de ‘A Clockwork Orange’, um filme onde Kubrick já não se deixa influenciar por ninguém, se é que alguma vez o fez. A única influência é ele próprio.

Nesse momento, tirei o olhar da tela e coloquei-o no realizador. A sua barba distraía-me. Com tantas obras díspares, perguntei-lhe qual o seu estilo. Depois de uma longa pausa, respondeu-me secamente, “nunca sei o que quero, mas sei o que não quero”.

A violência do filme foi ou brutalmente condenada ou veemente adorada. Na época, todo o crime em Inglaterra era associado a ‘A Clockwork Orange’. O filme foi um sucesso durante 61 semanas consecutivas, mas acabou por ser retirado dos cinemas ingleses a pedido de Kubrick. Esta era a “prova assombrosa de poder como realizador”. Nenhum outro conseguiria que a produtora retirasse um filme com êxito e lucros avultados.

Mas nem só de boas decisões se fez a carreira do realizador norte-americano. Numa era em que os filmes de ação ganhavam terreno, estreia, em 1975, ‘Barry Lyndon’, uma obra “monótona” com 3 horas de duração.  Apesar da beleza inegável das suas imagens, foi alvo de duras críticas, tanto por parte da crítica especializada como do público – o que o ajudou a crescer.

Com ‘The Shining’, lançado em 1980, Kubrick concilia então o sucesso de bilheteira que um filme supostamente deve ser com a satisfação artística do realizador.

“Este filme fala de fantasmas”, atira, virando-se pela primeira vez para mim, “e é uma história positiva…”. Aclarei a voz, repliquei que não entendia porquê. “Qualquer história que diga que há algo após a morte é otimista”.

O filme de terror ajudou a revelar ainda mais o paradoxo que era Stanley Kubrick. Havia uma óbvia dicotomia no tratamento que o cineasta dava a Jack Nicholson e Shelley Duvall, os protagonistas da história. Com o primeiro, subsistia um clima de amizade e admiração. Com a segunda, o realizador apertava até à última gota de suor – “eram 30 a 50 ensaios antes de filmar”. Por vezes, seria impossível ser mais humano e cuidadoso, outra vezes, seria impensável ser mais bruto com os seus colaboradores.

Stanley Kubrick

A sua obsessão com a perfeição, a sua lentidão a fazer filmes, viriam a traí-lo e ‘Full Metal Jacket’ não teve o destaque que merecia, pois, desde o início da sua produção até à data de estreia em 1987, passariam sete anos. Muitos filmes estrearam, entretanto, sobre a Guerra do Vietname – caso de ‘Platoon’, em 1986. Mais uma vez, o seu intelecto pregava-lhe partidas, o próprio não o conseguia acompanhar. “Tinha medo de me cegar com o entusiasmo e errar”, por isso andava sempre de olhos bem abertos.

Sarcasticamente, ‘Eyes Wide Shut’ seria o último filme do cineasta. Passariam dez anos desde que este filmou e esteve no centro das atenções. Durante essa década, foi dado como louco, um homem mistério que não abria a porta a ninguém. E, quando abria, fazia-se de desentendido, “Stanley Kubrick não está em casa”. Boatos enchiam páginas de jornais e as gravações deste derradeiro filme eram feitas em grande secretismo. Tom Cruise e Nicole Kidman assinaram contratos de confidencialidade com o realizador: só se libertariam deste quando Kubrick bem entendesse. Kidman muitas vezes perguntava o que retratava o filme. O cineasta baixava sempre a cabeça e seguia com o seu silêncio. Assim fazia muitas vezes, tanto com os seus atores como com o público – o silêncio dava espaço à imaginação, à criação de um homem que, possivelmente, não era.

Poderemos dizer que ninguém o conheceu realmente, contudo, marcou profundamente quem encontrou pelo caminho. Kubrick era único para cada uma das pessoas com quem trocou olhares ou debateu ideias, com quem viveu uma intensa amizade ou uma fugaz troca de palavras. Cada filme seu era um mundo individual e todos eles tinham apenas um traço em comum: o que importava era a experiência do espectador.

A verdade é que haverá sempre uma parte do realizador que é desconhecida para Scorsese. Toda a gente reconhece que ele é “o Homem”, o grande realizador, mas, para Nicholson, isso ainda quer dizer pouco. Billy Wilder dizia que este nunca fez um mau filme. No entanto, a Kubrick pouco lhe importava, “era homem de ficar em silêncio enquanto era aplaudido ou amaldiçoado”.

Olhei. Havia desaparecido. Possivelmente, nunca se riu a plenos pulmões ou amaldiçoou os jornalistas. Provavelmente, nunca esteve ao meu lado. Esteve sempre imiscuído na tela, sempre a caminho da ficção.

O filme acabou. As luzes acenderam-se. O silêncio que entretanto se pôs foi interrompido por três pancadas secas na porta. Olhei para a maçaneta. Congelei e não fui abrir. Stanley Kubrick vai ser sempre um mistério. E será melhor assim: mantenhamos a porta fechada.

Texto por: Nuno Mina
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