‘Servant’, entre o otimismo e o surto psicótico

Por mais que o tentemos evitar, o luto faz parte da vida. Nascemos, crescemos e morremos. E o mesmo acontece aos que nos rodeiam, mesmo que, por vezes, a ordem natural seja estilhaçada. A anomalia mais difícil de engolir é a morte de uma criança, propulsora de um pesar singular e extremamente doloroso para os pais. Tal como os psicólogos apontam, a primeira fase do luto paternal é caracterizada pelo choque profundo, principalmente se a morte for repentina, com possíveis fases de negação e confusão emocional. Parece ser este o caso de Dorothy, interpretada por Lauren Ambrose, uma repórter cujo filho, com meses de vida, faleceu. Para piorar ou melhorar a situação, depende da perspetiva, os seus entes queridos forneceram-lhe uma droga a que se agarrar de forma a tentar ultrapassar o trauma: um boneco terapêutico que na psique transtornada de Dorothy faz a vez do filho perdido, enquanto o marido e um irmão que vai e vem, interpretados por Toby Kebbell e Rupert Grint, cientes do ardil, tentam manter a normalidade.

Como há que reter a mãe dentro da ilusão, na esperança de que, aos poucos, ultrapasse o período de negação, esta estranha tranquilidade é ainda mais encorajada pela chegada de um quarto elemento ao seio familiar: a ama, interpretada por Nell Tiger Free, que já havia sido contratada antes da tragédia. O que propulsiona a inquietação provocada por ‘Servant’ é o facto da recém-chegada, sem aviso aparente, comportar-se como se a criança de plástico fosse real, mesmo quando está a sós com o marido, deveras confuso com a atitude da misteriosa jovem vinda do Wisconsin. Esta e outras ocorrências que não devem ser reveladas alimentam a narrativa da série da Apple TV+, escrita por Tony Basgallop e produzida por M. Night Shyamalan, que realiza dois episódios.

Ultrapassada a peculiar casa de partida, a vivenda da família de classe média-alta torna-se uma prisão, funcionando como cenário praticamente único, à exceção de um punhado de visitas à calçada do quarteirão ou videochamadas realizadas com dispositivos da Apple. Esta configuração permite que o diretor de fotografia Mike Gioulakis, através de uma grande variedade de planos e técnicas de filmagem, transforme a casa numa espécie de personagem imóvel, numa reverência humilde a ‘Rosemary’s Baby’ (1968). Porém, de notar que o objetivo não passa por criar uma sensação de assombração, à imagem de muitos filmes de terror, mas antes uma noção esotérica de que as divisões do cenário exercem um peso subconsciente sobre as personagens, com o auxílio de cores frias, luz invernosa e estiradas de violino que, na altura certa, perturbam a atmosfera. Lá fora, abunda a tempestade, com as janelas a serem regadas amiúde com chuva torrencial e sonidos de trovoada, uma metáfora para o estado depressivo das personagens, a fazer lembrar os dilúvios que se abatem sobre Brad Pitt e Morgan Freeman em ‘Seven’ (1995), realizado por David Fincher. Em suma, a premissa isolacionista da série só resulta graças ao excelente trabalho de realização e fotografia.

Outra técnica que se revela lucrativa na exacerbação das tensões é a materialização de close-ups exagerados, com a câmara a grudar-se ao rosto das personagens durante vários diálogos, destacando a surrealidade da situação que vivem. A interpretação dos atores é fundamental para que esta abordagem resulte, pois a história fica dependente das suas expressões faciais. Nisto, todos fazem um bom trabalho, com destaque para Ambrose, com a sua personagem numa alternância constante e subtil entre o otimismo e o surto psicótico.

A profissão do marido, um popular influencer de culinária que trabalha a partir do domicílio, também é usada como pretexto para criar ainda mais negatividade, com a preparação dos cozinhados a ser filmada de uma forma sensual, mas macabra, exacerbando-se a violência do processo, com vários animais, como enguias, a serem mortos à pancada e à facada em nome de receitas vanguardistas. Ademais, é na degustação dessas refeições que as personagens se encontram e têm algumas das conversas mais importantes da narrativa, associando-se a intimidade familiar ao processo de confeção dos alimentos.

O problema evidente da série é o seu pedido frequente para que o espectador suspenda a credulidade, com as personagens a exibirem comportamentos que permitem que o suspense e certos enigmas se mantenham. Em todo o caso, este sentimento é bastante comum no género de terror ou thriller e não se pode afirmar que o criador Tony Basgallop caia no exagero. Em contrapartida, a lábia com que este consegue oferecer ao enredo uma explicação ora prática, ora sobrenatural, para os mesmos acontecimentos é deveras bem-vinda, notando-se algumas conotações religiosas, graças à presença sinistra da ama cujo passado e motivações levantam bastantes perguntas.

Por fim, ‘Servant’ deriva para uma ligeira comédia negra, já que vários momentos mórbidos podem despertar algum riso nervoso no espectador mais mordaz, em virtude de uma exploração cínica da futilidade e materialismo do casal em stress. Pena que a viagem às psicoses destas personagens raramente tenha um propósito emocional, sacrificando-se o suco catártico que um assunto tão grave como a morte de uma criança podia gerar em prol da decifração de alguns segredos, ficando a potencial resolução de outros para a segunda temporada já anunciada. Esta é, não obstante, a primeira série viciante da nova plataforma de streaming da Apple e um agradável sinal de que a empresa está disponível para apostar em conceitos ambiciosos e com assinatura autoral. Que assim continue.

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