São Jorge

‘São Jorge’, uma locomotiva chamada Nuno Lopes

Em 2011, um acordo entre o Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia formou a Troika, tríade que passou a negociar com os países membros dos programas de crédito da zona euro permitindo o aparecimento de filiais menores que cobram, de forma mais “intensa”, os empréstimos cedidos a pequenas e médias empresas ou cidadãos comuns. É neste panorama que surge Jorge, interpretado por Nuno Lopes. Um homem encurralado pela realidade dantesca que se instalou em Portugal aquando do auge da crise económica. Sem emprego, sem independência, sem condições de vida, a visão da sua nuca é quase constante enquanto viaja pela Bela Vista barulhenta e desfocada. Marco Martins não quer que vejamos nitidamente, quer que sintamos, que doa, que a cada passo do Jorge pressintamos a chegada do abismo. Nós, que o perseguimos, qual psicopata em perseguição da sua vítima, ajudados por uma filmagem inconveniente cerrada no protagonista, que nos faz lembrar o Saul que “passeava” por Auschwitz, que nos faz roçar o voyeurismo, enquanto ouvimos as conversas de atores e não atores, os sons metropolitanos distantes vindos donde certamente pessoas endinheiradas viverão, e o desconsolo onde o pobre vive e anseia por dias melhores.

São Jorge

Incapaz de viver duma carreira no boxe, a qual já viu dias melhores, e pouco letrado, Jorge é a personificação do sofrimento que a Troika provocou nos estratos sociais mais carenciados em Portugal, da decadência moral a que muitos foram sujeitos ao terem que se virar para alternativas indesejadas como ser um obscuro cobrador de dívidas, como é o caso. Assim, o cenário das cobranças difíceis, do desamparado dos devedores e da violência daí resultante torna-se o palco para os momentos mais desconcertantes deste protagonista. A interpretação de Nuno Lopes, que sofreu uma transformação física considerável, é visceral e absurdamente magnética. A sua convicção na mensagem política transmitida é notória, o que somado ao seu talento torna este ato ainda mais autêntico. A divisão que se faz notar nos seus olhos quando a sua personagem bate à porta dos endividados é desconcertante, não fosse Jorge também um endividado. Tal como este, os restantes atores fazem a sua parte, especialmente a atriz brasileira Mariana Nunes e o já conhecido do público português José Raposo.

São Jorge

Repleto de momentos memoráveis em que a fotografia de Carlos Lopes arromba a tela, São Jorge é um filme que “representa” sem “mostrar”. Para isso, Marco Martins fechou o campo de visão no protagonista e transformou-o num grande plano sistemático  e em constante movimento, deixando a violência social quase invisível, mas palpável. E se é palpável. Tal técnica revela-se um procedimento arriscado, porém, o cineasta teve o cuidado de não cair na armadilha da repetição, abrindo ocasionalmente o plano para a paisagem urbana da Margem Sul e para a pobreza subjacente, neste caso os bairros sociais onde crianças jogam à bola em descampados e onde os pequenos estabelecimentos fecharam e apodrecem por dentro. Acabamos por ficar com uma experiência brutal que traduz a realidade quase como um mau pressentimento, como se desde o primeiro minuto tivéssemos entrado num túnel escuro conduzidos por uma locomotiva chamada Nuno Lopes que nos leva, passo a passo, numa visita ao pesadelo lusitano. Fora as evidentes dificuldades por que passa, o cinema português está forte e repleto de talento, e não deixa de ser irónico que os seus melhores momentos se façam notar quando critica o que de pior há em Portugal.

Kubrickamente

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