A Royal Affair

‘A Royal Affair’, as divagações da atualidade

O médico do Rei dorme com a Rainha. É esta a manchete que circula por Copenhaga através das revistas arcaicas da altura. A liberdade de expressão instaurada pelo médico Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen), assessor do Rei, acaba por lhe roer os calcanhares ao permitir que se espalhe o boato do seu caso amoroso com a Rainha. Não um facto incontestável ou uma história contada por várias testemunhas, mas um simples boato é suficiente para desestabilizar um reino inteiro mostrando a mossa incalculável que poucas palavras de natureza matreira podem fazer no futuro dum povo inteiro. Faz lembrar algo? Todavia, neste caso, o boato, apesar das suas motivações nefastas, é verdadeiro. O médico do Rei dorme mesmo com a Rainha.

A Royal Affair

Chegado à corte dinamarquesa após o Rei Christian VII (Mikkel Boe Følsgaard) o recrutar como seu médico privado, Struensee traz em segredo na sua bagagem os escritos de Voltaire, John Locke e outros autores ligados ao Iluminismo. Traz também consigo o propósito de convencer o Rei a adotar essas ideias, que se caracterizam pela correção das desigualdades sociais e a garantia dos direitos naturais do indivíduo. Porém, a esse objetivo utópico prende-se um grande entrave: o Rei é um homem com claros problemas mentais que lhe atribuem uma infantilidade e imprevisibilidade fora do comum e, ainda por cima, é o fantoche dum grupo de nobres que fazem as leis a seu belo preceito. Adivinhe-se qual é o preceito. Contudo, como ponte entre o doido e o revolucionário firma-se a Rainha Caroline Mathilde (Alicia Vikander), infeliz, presa ao tradicional casamento monárquico combinado, reclusa da sociedade repressiva para onde foi atirada ainda jovem vinda de Inglaterra. Para surpresa de ninguém, esta começa a interessar-se pelas ideias progressistas do médico do marido acompanhadas pelas feições fortes e sedutoras de Mikkelsen, que interpreta uma personagem carismática e altiva na sua sabedoria. Pouco tarda para que os dois se unam na cama e na tentativa de mudar o país pelo topo. Por outras palavras, manipulando o Rei ingénuo, o qual foi igualmente seduzido por Struensee e pela sensação de falso poder que este lhe oferece. Para isso, o médico convence o monarca a debitar guiões escritos por si perante o Conselho da Corte, repleto de nobres agarrados às suas riquezas e direitos superiores aos do cidadão comum. Ideias reformadoras que, até aí, apenas chegavam de surdina, vindas de França e contrabandeadas em livros e ensaios científicos, e que agora mudariam a vida do povo e trariam luz à Dinamarca retrógrada. Como se pode calcular pelos milhentos lugares comuns dos filmes do género, que marcam uma presença comestível neste filme, o desafio aos ricos e poderosos terá as suas consequências.

A Royal Affair

Ironicamente, a arma encontrada pelos nobres sequiosos por voltar ao pelouro e restaurar a opressão social é a liberdade de expressão trazida pelo próprio médico. Virar o feitiço contra o feiticeiro. Os textos e figuras com detalhes sórdidos, que anteriormente eram proibidos, passaram a ser utilizados para entreter o povo com crónicas duma Rainha adúltera e dum Rei dominado por um médico alemão maquiavélico. Acabamos por ser transportados para as divagações da atualidade em que as decisões dos cidadãos são influenciadas por notícias enganosas, muitas destas patrocinadas por círculos poderosos, e para um debate intrigante sobre censura. A Royal Affair (2012), no seu retrato de época competente do século XVIII, se visto com olhos presos à época atual, levanta uma questão bastante pertinente: quão refém está o povo da informação falsa ou mal contextualizada que lhe é fornecida? O médico efetivamente dormia com a Rainha, mas, enquanto isso, ambos lutavam epicamente pelos direitos daqueles que, ao receberem essa informação descontextualizada, acabam por condená-los indiretamente a um empreendimento revolucionário fracassado. “Sou um de vós”, grita o médico em vão numa cena marcante, naqueles que são, porventura, alguns dos minutos mais bem conseguidos  da carreira de Mads Mikkelsen, um ator fascinante, portador duma profundidade emocional abismal, servida em crescendo neste drama histórico. A par com este, Vikander e Følsgaard  fazem um trabalho aprazível, no papel da mulher amargurada e do Rei chalupa e inconsciente do peso dos seus atos.

A Royal Affair

A Royal Affair, baseado no livro ‘Prinsesse af blodet’ de Bodil Steensen-Leth, fecha-se como uma produção de época eficiente na maneira como transporta os factos históricos para o grande ecrã, destacando-se na perseguição exaustiva ao pormenor. Desde o cenário, o guarda-roupa, a banda sonora, a fotografia, até aos pequenos pormenores como o forro das cadeiras ou os vestidos exuberantes, tudo respira uma imagem secular e fiel aos relatos da época. O realizador Nikolaj Arcel, que agora se aventura pelo blockbuster de Hollywood com The Dark Tower, conseguiu engendrar uma fábula inteligente que deixa a sua marca, principalmente se inspecionada com um olho no ecrã e outro na atualidade política internacional.

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