Roma

‘Roma’, uma autêntica aula de Cinema

A primeira cena de Roma, escrito, filmado, realizado e editado por Alfonso Cuáron, caracteriza-se por um plano fechado do pavimento que serve de entrada para o principal cenário da obra, a casa duma família à beira duma torrente de mudanças. Durante cerca de três minutos, este frame imovível vai sendo inundado por água e espuma, e pelas letras que anunciam os produtores e colaboradores do projeto. Refletido na água, materializa-se um retângulo com vista para o céu, um escape da pedra húmida que teima em não dar lugar à história pela qual tanto se anseia. Na figura geométrica, surge enfim um avião, minúsculo, longínquo, absorto na sua viagem pelo céu infinito, donde tudo parece pequeno e inconsequente. E, cá em baixo, alguém lava o chão, alguém insignificante para quem olhe do avião, ao mesmo tempo que, para esse alguém, o avião é também um elemento irrisório – uma pequena história dentro duma história maior, num mundo vasto e imprevisível. Finalmente, a câmara abandona o azulejo e, aberto o plano, podemos ver uma jovem atarefada. Inicia-se a balada de Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio, a empregada doméstica duma família da classe média na colónia de Roma, Cidade do México.

Roma

O ano é 1970 e está-se perante uma reconstrução daquelas que o cineasta mexicano diz serem as suas memórias de infância, concentradas na sua família e, principalmente, naquela que, segundo este, foi uma peça essencial no seu crescimento como indivíduo, a sua ama de origem indígena, Liboria Rodriguez, que, na ficção, se dá pelo nome de Cleo. Para tal, o realizador ousou transformar a primeira metade do filme numa calma observação das lides domésticas desta discreta personagem, armando as cenas passadas em casa duma vista panorâmica de 360º que espia os movimentos sacrossantos desta por esse espaço restrito que lhe apraz limpar e estimar. Será quase possível ao espectador decorar aquelas divisões, a anatomia dos armários, a distância do rés do chão ao primeiro andar, a mesa que se encontra no meio da sala, os trilhos repetitivos que a ama percorre numa rotina diária focada nos filhos que não são seus, nos patrões e nas suas vontades. Contudo, no meio do virtuosismo técnico, infiltra-se uma saudável crítica ao problema de classes na sociedade mexicana: a jovem é bem tratada, acarinhada pelas crianças, recebe o esporádico “obrigado”, mas, chegada a penumbra da noite, tem de voltar aos seus aposentos apertados, exteriores à casa, onde as luzes não permanecem acesas depois da hora estabelecida. O exemplo desta dinâmica reside numa cena em que a família – pai, mãe, quatro filhos e avó – passam o serão em frente da televisão, enquanto a serviçal repousa ajoelhada ao lado do sofá, abraçada por uma das crianças, de sorriso largo no rosto. Porém, chegada a hora do mestre da casa ter vontades, esta tem de abandonar a fotografia familiar para ir buscar um chá, numa demonstração simples do peso da sua classe social. Apesar de requerer alguma paciência por parte da audiência, esta inspeção pormenorizada do seio familiar, funcionando a ama como alicerce duma construção emocional, permite que o salto da narrativa para as ruas do México do século XX, quando acontece, ganhe impacto redobrado, permitindo que Roma se transforme subtilmente num drama de época com ramificações sociais e culturais, uma pequena história dentro duma história maior.

Roma

Na missão de capturar o frenesim popular por trás da singela figura de Cleo, Cuáron acaba por dar uma autêntica aula de Cinema. Filmadas a preto e branco, afirmando-se o objetivo de realçar o conceito de memória, como um livro antigo que é relido, as cenas destacam-se pela diferenciação entre o ritmo das personagens e o ritmo da câmara. Como tal, são várias as sequências em que a objetiva chega primeiro ao destino que as personagens, ou vice-versa. Por exemplo, numa das tais panorâmicas de 360º, Cleo caminha pelas várias divisões da casa enquanto carrega nos interruptores, ao passo que a câmara se vai adiantando ou atrasando em relação ao seu movimento, fazendo com que esta, por vezes, quase desapareça do plano. Esta dinâmica adere à premissa do realismo, estabelecendo uma sensação de improviso face a um mecanismo artístico que, na verdade, foi planeado ao pormenor: a prodigalidade do filme está nos pequenos detalhes, na forma como do que é tão ensaiado parece nascer o caos. Porém, em contraste com essa extemporaneidade, a câmara tem frequentemente uma relação paralela com as personagens, mantendo-se assim uma disciplina geométrica em relação ao cenário em redor, permitindo que o espectador possa observar os milhentos pormenores que vão assaltando a paisagem. Aproveitando toda a glória do plano aberto, Cuáron conseguiu conjurar uma quantidade abismal de elementos visualmente ativos por enquadramento. Por exemplo, uma ida ao cinema, com Cleo encarregue de comandar o passeio dos miúdos pelas ruas da cidade, transforma-se repentinamente num orgasmo audiovisual devido às dezenas, talvez centenas, de figurantes que vão visitando o plano-sequência, cada um com a sua ocupação díspar, com os seus movimentos característicos e sonidos singulares, enquanto a câmara, qual fantasma que não encontra obstáculo em nada nem ninguém, viaja suave e veloz pelo meio de tal balburdia, num soberbo exercício de cinematografia e organização logística. Todavia, e aí reside o génio, de alguma forma, o realizador perfaz um equilíbrio praticamente perfeito entre o objeto de estudo principal, Cleo, e o objeto de contemplação, o cenário. Ao mesmo tempo que nos poderemos distrair com pormenores tão aleatórios como dois patos a acasalar no canto do plano ou vendedores ambulantes a tentarem impingir os seus produtos aos transeuntes, nunca conseguimos deixar de seguir os olhos melancólicos desta personagem interpretada por uma atriz amadora, descoberta numa aldeia remota do México. Roma é um dos filmes mais ricos em pormenores dos últimos anos, uma lapidada combinação de realismo e insólito, íntimo e épico, de crítica e compreensão, mítico e mundano. Uma obra de arte que será recordada por uma nova vaga de autores que, por esta altura, já poderão ter percebido que o Cinema de autor não está a morrer, apenas arrepiou por novos caminhos rumo ao mesmo destino de sempre: uma imortal audiência que, antes como agora, anseia por conteúdos de qualidade. De realçar igualmente a maneira como Cuáron mantém a sua relação simbólica com o mar. Em quase todas as suas obras, o desenlace emocional das personagens dá-se ao sabor das ondas. Quem não se recordará da despedida de Luisa junto a uma praia paradisíaca em Y Tu Mamán También (2001) ou do último plano de Children of Men (2006), com Clive Owen a desaparecer por entre o nevoeiro numa canoa improvisada. Em Roma, o cineasta regressa ao mar para arquitetar aquela que será, porventura, uma das cenas mais memoráveis de sempre, um plano-sequência inesquecível que, certamente, irá ser perscrutado anos a fio pelos estudantes de Cinema.

Roma

O filme ganha então o aroma dum poema, duma vinheta episódica e política, não por se esfregar em metáforas furtivas, mas pela demonstração da vida tal e qual como ela é, um ensopado de contradições e ironias. E, apesar de percorrer um ano na vida de Cleo, a obra dá tempo ao público para poder refletir sobre os ateísmos que vão sendo apresentados através de momentos duros e tristes, com ênfase na linguagem visual. Exempli gratia, um plano da família inteira a comer um gelado, num momento de desânimo face ao divórcio iminente do pai e da mãe, sentados à beira duma estátua dum caranguejo, enquanto, em pano de fundo, uma dupla de recém-casados festeja a união matrimonial, com a pata do crustáceo a apontar para os noivos num tom ameaçador. Como tal, a maioria das ideias preciosas da narrativa são transmitidas através de imagens, geralmente em plano aberto, relegando-se os diálogos expositivos e caracterizações para segundo plano. Fica-se, por fim, com um exercício de empatia, de reclamação dum espaço social e emocional que a todos assiste, desde a patroa, uma mulher abandonada em prol duma versão mais jovem, passando pela criança que vê o pai abandonar o lar, até à ama de origens indígenas que muito faz em troca de pouco. Todos temos uma história importante, a nossa própria aventura epopeica pelos reveses da vida.

Essencial

Partilhar