‘Road to Perdition’, entre pais e filhos

Arredores de Chicago, 1931. O assassino, interpretado por Jude Law, entra pelo restaurante adentro e senta-se de frente para o seu alvo, Michael Sullivan, interpretado por Tom Hanks. Apesar da sua casualidade, Sullivan percebe rapidamente que está perante o homem contratado para o matar e chega à fria resolução de interpelá-lo. No entanto, o assassino revela-se uma presença perturbadora devido ao seu discurso macabro. Em plena conversa, enquanto um plano fechado se foca no seu rosto, um tímido fio de suor começa a escorrer pela face de Hanks, transferindo para a cena toda uma tensão que ainda não se fazia notar. Uma gota fruto do talento do ator ou da planificação antecipada do realizador, pouco importa, fica o exemplo da atenção ao pormenor em tudo o que acontece em Road to Perdition (2002), o filme que se seguiu a American Beauty (1999) na carreira do cineasta Sam Mendes. E é do detalhe aperfeiçoado até à exaustão que vive este filme que teima em ser subestimado. Desde a esplêndida cinematografia vencedora dum Óscar do já falecido Conrad Hall até ao design realista algo noir de Dennis Grassner, tudo respira uma espécie de poesia urbana esbelta e discreta, fácil de entender. Arriscar-se-á dizer que a esta obra-prima técnica pertencem algumas das cenas mais bem filmadas de sempre. A simetria de todos os planos é orquestrada com um intento emocional notável. Não que em algum momento se esteja perante o melodrama do gangster vingativo, ainda por contextualizar neste texto, que abusa de certos artifícios visuais para conquistar o afeto do público. Pelo contrário, Road to Perdition é um filme simples, tímido, que favorece o diálogo, as expressões dos atores e a fotografia em detrimento da necessidade de criar comoção.

Road to Perdition

Michael Sullivan é o braço-direito de John Rooney (Paul Newman), o chefe da máfia irlandesa de Rock Island que o trata como um filho. No entanto, depois de uma série de incidentes que levam ao homícidio da sua esposa e filho mais novo, Sullivan vê-se obrigado a fugir com o seu filho mais velho, após perceber que o autor do crime é o filho do seu chefe. É neste enredo que Road to Perdition prospera como um drama muito mais tocante do que à primeira vista possa aparentar. As suas ruminações em volta de temas como a lealdade, o amor paternal e a vingança como código de conduta são recatadamente complexas. John Rooney ama Sullivan, mas Sullivan quer matar o filho deste. Por seu lado, Sullivan deve toda a sua vida a Rooney, mas é-lhe impossível não incluí-lo no seu saco de vingança, visto que este protege o assassino da sua família. Uma dinâmica que se refugia nos deveres patriarcais e questões morais associadas à consanguinidade. Neste panorama surge também a relação entre a personagem de Hanks e o seu filho que o acompanha nesta engenhosa operação de retribuição, relação essa que se torna tema principal do filme e remete as peripécias do crime organizado para segundo plano. Nisto, conquista terreno o conto do ser humano preocupado com a sua cria e a sua educação. Auto-proclama-se como uma dissertação repleta de apreciações mal escondidas sobre os laços afetivos, ou a falta deles, entre pais e filhos.

Road to Perdition

Saliente-se ainda as excelentes interpretações de todos os atores que, cada um a seu preceito, transformam até os momentos mais melancólicos num galope rápido cuja celeridade passa quase despercebida. Tom Hanks dá vida a uma personagem principal coesa que se expressa muitas vezes através de olhares e microexpressões, mantendo-se fiel à fortaleza que pretende impingir ao seu filho, interpretado por Tyler Hoechlin. Além da caricatura do gangster impiedoso que não está habituado a desenhar, Hanks vê-se ainda a braços com a árdua tarefa de desligar o espetador da sua carreira marcada por personagens afáveis e fáceis de empatizar. Jude Law faz uma interpretação competente e esquizofrénica dum assassino contratado com uma  mórbida paixão pela fotografia e o gigante Paul Newman, naquele que é o último grande papel da sua carreira, ofega um cinismo quase intragável. Apesar de contextos diferentes e do menor tempo de antena, o teor da sua representação relembra Marlon Brando e a sua mítica interpretação do chefe da família Corleone em The Godfather (1972). E quando tal comparação é feita, não se querendo engrandecer as expetativas, pouco mais haverá a dizer.

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