A realidade começa a envergonhar a ficção

Aviso: este artigo contém spoilers.

Estará a realidade política a tornar-se tão imprevisível que nem a ficção consegue acompanhar tal incerteza?

A série televisiva House of Cards, protagonizada por Kevin Spacey, é provavelmente a obra audiovisual que melhor levanta esta questão. Não de uma forma direta nem como premissa máxima, mas através da reflexão sobre aquilo que a personagem Frank Underwood (Spacey) representa. Após vários mandatos presidenciais marcados por escândalos de larga escala (Watergate, Monica Lewinsky, armas de destruição maciça no Iraque), os americanos e grande parte do mundo, diga-se de passagem, começaram a ficar saturados de políticos desonestos com tendências demagogas e discursos ludibriosos. Surge, através da ficção (recorde-se que House of Cards é um enorme sucesso nos EUA), o Presidente que era morbidamente desejado. Francis Joseph Underwood. Ou simplesmente Frank para os milhões de espetadores com quem este comunica e a quem expõe os seus esquemas ardilosos. Um Presidente desonesto. Um criminoso. Porém, apesar de ser um mentiroso compulsivo e um manipulador, Frank é sincero e verdadeiro na relação que mantém com os de cá, os que vivem na realidade. E é na construção dessa relação e na observação da diferença abismal entre o nosso Frank e o Presidente Underwood que surge a interrogação: será que conhecemos em quem votamos?

Frank Underwood

House of Cards torna-se num material de contemplação obrigatório a partir do momento em que as pessoas começam a pretender dos seus políticos a seca realidade que nos é oferecida por Frank. Alguém que lhes diga as coisas tal e qual como são ou como elas desejariam que fossem, mesmo que se tratem de retóricas completamente erradas de origem racista, xenófoba ou economicamente duvidosas. Inserida neste panorama, emerge uma figura aparentemente sinistra chamada Donald Trump, que marca a diferença por se dirigir ao seu público tal e qual como Frank se dirige a nós: com uma “sinceridade” chocante. No seu caso (Trump) baseada em “factos alternativos”, como apelida a sua diretora de campanha. “Ele é honesto!”, “Ele diz o que pensa!”, “Ele tem convicção naquilo que diz!” podia ouvir-se da boca dos seus apoiantes nas convenções do Partido Republicano. E tal como Underwood conquistou as audiências televisivas pelo mundo fora, Trump conquistou a Presidência dos EUA. Com uma visão fria, egoísta e cruel daquilo que é o mundo e do que podemos fazer com ele. O grande problema (nem para toda a gente) é que um deles é real.

Assim como muitos americanos (fictícios) pretendem votar em Frank Underwood para Presidente, que para eles é um homem sorridente, cheio de boas intenções e com um sotaque texano carregado, não será plausível que sejamos nós diariamente ludibriados pelos políticos que nos governam ou se candidatam a tal? Será que conhecemos em quem votamos? Será que tal como Frank tantos outros existem? Seres de duas caras ávidos de poder que farão de tudo para chegar onde querem. Muitos poderão dizer que tal tese é demasiado rebuscada pois nunca um líder político escaparia impune de duplo homicídio, fraude e uma série de comportamentos eticamente reprováveis, tal como Underwood escapou até ao fim da quarta temporada. Tendo em conta os últimos acontecimentos, a pergunta impõe-se: ainda vivemos numa realidade onde nada disto é possível? Candidatos que promovem ideologias extremistas, países invadidos sob falsos pretextos, escândalos financeiros, possíveis fraudes eleitorais, notícias falsas partilhadas por milhões, pessoas com historial de racismo, xenofobia e ignorância nomeados para cargos de máxima importância, milhões de pessoas pertencentes às minorias ignoradas e ostracizadas. E tudo o resto que não nos é mostrado ou nunca chega ao lume da verdade. Dito isto, e atendendo aos acontecimentos recentes, Frank Underwood continua a ser assim tão surreal?

Ora vejamos:

  • No terceiro episódio da quarta temporada, Underwood vê-se obrigado a negar afincadamente qualquer ligação ao Ku Klux Klan, após ter sido divulgada uma foto do seu pai a conviver com membros desta organização, por receio do dano que tal informação pudesse trazer à sua campanha. Por seu lado, Trump usou várias contas de Twitter ligadas ao movimento supremacista para divulgar as suas ideias e as tão faladas fake news. Além disso, a forma como este se desmarca do KKK não é convincente, tendo sido até endossado publicamente por alguns dos seus líderes.
  • Ambos apresentam uma visão semelhante em relação ao terrorismo. Guerra aberta ou pelo menos assim o dizem.
  • Em resposta ao terrorismo (doméstico no caso da ficção) Underwood nunca tenta virar os americanos contra os muçulmanos. Por sua vez, Trump já suspendeu a entrada de muçulmanos no país, propôs a criação duma lista de muçulmanos que habitam nos EUA e a vigilância de mesquitas. Na sua primeira entrevista televisiva como Presidente à ABC News referiu que considera a tortura de prisioneiros uma estratégia eficaz.
  • Enquanto Underwood, apesar dos seus jogos de bastidores, manteve sempre uma postura presidencial nos debates, Trump adotou uma postura agressiva com muitas contradições e ataques a vários segmentos da sociedade desde jornalistas, minorias, críticos das suas ações, comediantes, atores, líderes de outros países, instituições governamentais, a organizações internacionais, e mantém esse tipo comportamento como Presidente eleito.
  • Underwood nomeou a sua esposa como Vice-presidente na corrida à Casa Branca. Trump nomeou o seu genro como conselheiro principal da Casa Branca.

Feita a comparação o que parece mais surreal? A ficção ou a realidade? Underwood ou Trump?

Donald Trump

Na verdade, a série do Netflix começa a parecer uma brincadeira de crianças em relação à realidade em alguns aspetos. Enquanto Underwood tenta a todo o custo consertar a sua situação política através de discursos polidos, Trump pavoneia atrocidades. Enquanto Underwood, apesar dos seus esquemas matreiros, faz um esforço para ser cordial e convincente perante o público, Trump recorre descaradamente a “factos alternativos”. E é nesse ponto do panorama político-social atual que a realidade ultrapassa a ficção de uma forma alarmante. Nos EUA de House of Cards a verdade e o conhecimento ainda contam, as pessoas ainda se escandalizam e as mentiras de um político acarretam danos catastróficos para a sua imagem. Nos EUA da realidade já nada disso importa para milhões de pessoas. A forma como a série criada por Beau Willimon (Ides of March) se distancia do mundo real chama a atenção para um aspeto fundamental: a sabedoria e a competência deixaram de ser qualidades essenciais para singrar nesta sociedade saturada do politicamente correto.

House of Cards sobressaiu a dada altura pela apresentação de um protagonista ultrajante no qual depositávamos o nosso mórbido amor, porém nunca o assumindo como uma figura que habitasse e prosperasse no mundo político real e atual. A série constituía-se como um matrix distorcido em que Frank era a anomalia. Uma espécie de distopia política. Com a eleição de Donald Trump, não só o mundo começa a exibir tais características assustadoras, como a anomalia de cabelo alaranjado parece bastante preocupante. Trump “ganhou” a Underwood não pelo facto de ser mais diabólico, mas pela forma como a sociedade, apesar dos protestos, permite a sua existência política.

A realidade começa a envergonhar a ficção.

 

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