‘Ran’, a receita para a desgraça

Existem várias teorias dentro do estudo comportamental que indicam que, por mais que um indivíduo cresça a nível profissional e cultural, tornando-se aquilo a que muitos gostam de chamar “sábio”, tal não significa que este obtenha os mesmos resultados face às decisões carregadas de emoção, especialmente perante entes queridos ou amigos de longa data. Por exemplo, a mãe que, na presença de evidências em contrário, acredita irremediavelmente no filho mentiroso, ou o rei que, apesar de ter passado décadas envolvido em guerras sangrentas e jogos de poder, acredita conseguir repartir o seu reino pelos filhos sem que estes se matem uns aos outros. É esse o fado de Hidetora, interpretado por Tatsuya Nakadai, um lorde do Japão medieval que, açoitado pela velhice, decide abdicar do trono e confiar o espólio aos filhos. O título de líder e o castelo principal entregues ao filho mais velho, e outros dois castelos e respetivas terras aos outros dois descendentes. Um reino fragmentado, supostamente unido pelos laços de sangue. A receita para a desgraça, não fosse tão antiga como o vento a história de irmãos que lutam pela herança deixada pelos seus ancestrais.

E, sorrateiramente, enquanto ainda reina a calmaria, o realizador Akira Kurosawa, autor de clássicos como Rashômon (1950) ou Seven Samurai (1954), começa a preparar o dito conflito desde os primeiros minutos do filme, atribuindo aos uniformes de cada filho uma cor característica. A Taro, o primogénito interpretado por Akira Terao, é entregue o amarelo, a Jiro, interpretado por Jinpachi Nezu, o vermelho, e a Saburu, interpretado por Daisuke Riû, o azul. Óbvio que estas escolhas não são inocentes, já que as cores fortes estão ligadas à exaltação e agressividade, características que se virão a revelar nos dois filhos mais velhos, e as cores amenas estão ligadas a sentimentos pacíficos, algo que se pode associar ao último irmão. Por sua vez, Hidetora veste-se de branco, o que pode simbolizar neutralidade ou, pelo contrário, a junção de todos os temperamentos descritos anteriormente, a raiz do mal. Este contraste entre cores possibilita que, mais tarde, quando estala o verniz entre os vários protagonistas, os seus exércitos sejam facilmente distinguíveis no meio da azáfama bélica, permitindo que se desenrolem algumas das batalhas mais vistosas da História do Cinema. Exemplo-mor, o cerco a um castelo que faz lembrar ‘The Suicide of Saul’, o famoso quadro pintado a óleo por Pieter Bruegel. Esta sensação de se estar a olhar para uma pintura deve-se ao uso de teleobjetivas, lentes cuja distância focal, em comparação com o seu comprimento, fazem com que os vários elementos físicos da imagem pareçam mais próximos uns dos outros, obtendo-se uma certa claustrofobia visual. Nesta épica escaramuça, não poderia ser mais evidente a eficácia do estratagema estético de Kurosawa — também ele um pintor —, com centenas de figurantes a encherem a tela com os respetivos uniformes vermelhos e amarelos, rodeados de setas, espadas e fumo, enquanto a banda sonora de Tôru Takemitsu, inspirada nas pautas de Gustav Mahler, traz o desespero consigo. Este nível de realismo e exuberância foi possível graças aos cerca de 1400 uniformes cosidos à mão na região de Kyoto, processo que levou cerca de três anos a completar e fez com que o designer Emi Wada ganhasse o Óscar de Melhor Guarda-Roupa: uma odisseia logística.

Inspirado na peça de William Shakespeare, ‘King Lear’, Ran, à semelhança da obra do dramaturgo inglês, não poderia deixar de fazer uma observação pessimista da condição humana. Porém, esta adaptação japonesa consegue alcançar um tom relativamente mais negro devido à transfiguração do texto original. Enquanto que, na versão de Shakespeare, o rei deixa a sua herança a três filhas, na versão de Kurosawa obtemos três filhos, o que oferece a esta obra de 1985 conceitos como o machismo e a paranoia — nada mais perigoso que um homem incompetente e inseguro. A líder desta distorção narrativa é a senhora Kaede, interpretada por Maeko Harada, a esposa dum dos filhos que, ardilosamente, numa aproximação a Lady Macbeth, personagem igualmente criada por Shakespeare, vai empurrando dois dos irmãos na direção dum beco cuja única saída é a violência e o caos. Como tal, ao ver-se este belíssimo filme, é impossível não refletir sobre a inequívoca tendência do ser humano para a desordem e hostilidade. A sociedade dita civilizada já leva séculos de existência e, mesmo assim, nunca existiu um minuto nessa longa História que fosse vivido em total harmonia. De maneira a estimular este tipo de raciocínio, o cineasta, aprofundando as aprendizagens trazidas do seu filme anterior, Kagemusha (1980), usou várias câmaras estáticas com as quais, ao longe, foi filmando os vários acontecimentos, obtendo uma série de planos abertos desconcertantes. Por norma, esta técnica permite que o espectador se afaste da ação, alugue uma perspetiva mais fria e contemplativa, como um Deus que observa à distância as suas criações malignas. No fim, ficamos com um poema audiovisual áspero e inesquecível. E, se tudo começou no cimo dum monte verde e esbelto, ao som de insetos e pássaros irrequietos, com um pai a tentar deixar o mundo em ordem, tudo acabará em desgraça, loucura e morte, ao som do vento cruel que varre o pó libertado pela natureza colérica do Homem.

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