Quentin Tarantino

Quando Tarantino manchou o branco de sangue

Este artigo contém spoilers do filme ‘Django Unchained’.

O que a sétima arte tem de mais belo é a variedade de interpretações que um filme pode provocar como objeto de contemplação. Um dos elementos mais preponderantes neste processo é o uso das cores, pois, para além da vertente estética, estas contribuem igualmente para guiar o espectador e criar pontes narrativas. Surge então Quentin Tarantino, um realizador que usa a cor de forma a estetizar a violência. Um cineasta que utiliza a violência não apenas por ser seu adepto, mas como um dos fios condutores da sua narrativa, sendo o expoente máximo da sua presença a cor do sangue, o vermelho, utilizada por este em contraste com outras cores de maneira a transmitir mensagens indiretas e instintivas. Por exemplo, no filme Kill Bill: Vol. 1 (2003), a personagem principal, interpretada por Uma Thurman, está frequentemente coberta de sangue. Como tal, é exaltado o contraste entre o sangue vermelho e o amarelo vivo que enche o guarda roupa da protagonista. Amarelo que, neste caso, para além de ser uma referência ao astro das artes marciais Bruce Lee, significa “Esperança” e ”Hospitalidade” na cultura ocidental e “Sagrado” na cultura oriental. Tendo em conta que o filme se dispersou maioritariamente por estes dois mercados, pode considerar-se que, para além da escolha duma estética tipicamente quente, Tarantino utilizou todos os artifícios visuais à sua disposição de maneira a que a sua personagem central se tornasse apelativa, mesmo que motivada pelos instintos vingativos e sanguinários que se fazem notar.

Quentin Tarantino

Porém, é no seu revenge western Django Unchained (2012) que Tarantino utiliza o sangue  como via efetiva de transmitir uma mensagem subtil através do seu contraste estético com o meio ambiente:

É numa plantação de algodão em pleno Tennesse que Django (Jamie Foxx), auxiliado pelo companheiro de viagem Dr. King Shultz (Christoph Waltz), inicia o seu trajeto vingativo na direção da sua amada Broomhilda (Kerry Washington). A sua primeira vítima é John Brittle (M. C. Gainey), o mais velho de três irmãos esclavagistas que outrora foram proprietários de Django e da sua esposa. “Big John”, que se cobre de páginas da Bíblia coladas à sua vestimenta, recebe um tiro repentino e certeiro. Para além de trespassar o seu coração, esta bala trespassa a página religiosa que se encontra colada ao seu peito. O sangue jorra vermelho no branco, tingindo a página que até ali apenas continha a escritura cristã. Na altura, muitos dos apoiantes da escravatura, especialmente os sulistas, recorriam a versos da Bíblia para justificar as suas ações e a existência do sistema perverso em que se inseriam como capatazes, comerciantes ou donos de plantações. John Brittle é a personificação dessa corrente de pensamento. Com esta cena marcante, para além de nos começar a apresentar o lado teatral e vingativo de Django, Tarantino dá o primeiro ar de sua graça no que diz respeito a uma possível mensagem política ou ideológica.

“I like the way you die, boy.”

Segundos mais tarde, é a vez do bounty hunter alemão usar a sua pontaria para eliminar o terceiro e último irmão Brittle que se prepara para fugir. Este disparo dá origem a um dos frames mais icónicos do filme. O sangue que explode do peito de Ellis Brittle (Doc Duhame) jorra no algodão branco, fazendo o realizador questão de imortalizar este momento com um close-up momentâneo. O algodão que durante anos a fio cresceu e foi colhido à custa do sangue escravo é agora manchado pelo sangue do opressor, do esclavagista, daquele que brande o chicote. Um contraste de cores e matérias portador duma enorme dose de ironia e justiça poética.

Subindo um degrau nesta escadaria rumo ao pontifício do ódio racial que se fazia sentir no Mississipi, ainda sobrou tempo para mais um obstáculo. Desta vez, sob a forma duma versão inicial daquilo que seria um movimento supremacista comandado por Spencer Bennet (Don Johnson), o qual gosta de ser chamado de “Big Daddy” pelas suas escravas. Este grupo, que acabara de ter uma discussão hilariante sobre a utilidade de usar um capuz branco, vê a sua tentativa de surpreender os dois protagonistas frustrada  por uma explosão de dinamite. Desta feita, repousando a espingarda no ombro de Django, mais um tiro certeiro é disparado na direção do antagonista. Mais uma morte. Ao cair do cavalo, o sangue vermelho espalha-se pelo pescoço branco do animal enquanto ouvimos o seu galopar pesado. De seguida, ouvimos a voz calma e serena de Django, “Got it.”, como que apaziguando o animal à distância, como que declarando a sua liberdade.

Chegados ao coração do Mississipi, os dois caçadores de recompensas deparam-se com Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), uma personagem vil e perturbadora. O primeiro sinal da sua crueldade aparece quando este dá  um escravo chamado D’Artagnan de comer aos seus cães.  Por outro lado, o primeiro indício do seu pretensiosismo agudo surge através da sua suposta francofilia.  Apesar de tentar transparecer ser um homem culto e bem falante, a verdade é que Calvin nunca sequer tentou aprender a língua francesa, como refere a certa altura. Assim como desconhece que Alexandre Dumas, o autor francês de ‘Os Três Mosqueteiros’, o livro que lhe serviu de “inspiração” para dar alcunhas aos seus escravos, é negro.  O seu racismo ultrajante dá o derradeiro sinal quando este exibe teorias relacionadas com a frenologia, “ciência” ultrapassada que, entre outras coisas, afirmava que a forma de um crânio pode definir a facilidade com que um ser humano pode ser domado. Calvin Candie é, portanto, a satirização exagerada – ou não – da ignorância, arrogância e perversão dos principais defensores da escravatura antes da Guerra Civil. Após uma série de esquemas ardilosos e revelações, Calvin é morto pelo Dr. Shultz num ato de exaltação. Cansado de ouvir as suas teorias revoltantes e aterrorizado pelas atrocidades que havia visto até ali, o alemão acaba por disparar sobre o peito de Candie, onde se encontra um ornamento branco em forma de flor. Novamente em plano fechado, o sangue vermelho escorre sobre o branco, naquele que é o derradeiro ato de expurgação de Quentin Tarantino. Um tiro no apogeu do racismo.

Todas as figuras imponentes da estrutura megalómana que se montou à volta da escravatura tiveram direito a um momento simbólico em que Tarantino manchou o branco de sangue. Os irmãos Brittle – o capataz. “Big Daddy” – o líder dum grupo supremacista. E por último, Calvin Candie – o magnata capitalista que fazia dos escravos negócio e diversão.

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