Ozark

‘Ozark’, o lago do dinheiro sujo

Se um médico é considerado o pior doente, porque não extrapolar esta incoerência caricata para o mundo financeiro para constatar que um gestor possa gerir o dinheiro de outros sem saber gerir o seu? Já os antigos diziam: “em casa de ferreiro, espeto de pau”. A partir desta ideia, surge Marty Byrde (Jason Bateman), o sócio de uma empresa de consultadoria financeira em clara expansão que simplesmente pretende manter unida uma família a desmoronar-se aos poucos: entre a mulher adúltera, com provas cabais e visionadas do pecado cometido e repetido, e os filhos à beira de uma adolescência inquiridora e reivindicativa. E que melhor forma há de garantir felicidade do que comprá-la com dinheiro vivo, sem questionar a sua origem? Assinando um pacto com o próprio demónio, Marty aceita iniciar negócios obscuros com cartéis de droga mexicanos que apenas incluiriam a lavagem de dinheiro. Mas a ganância está semeada no âmago da maioria dos seres e, uma vez trincada a maçã do pecado, o veneno não mais pode ser cuspido. Na verdade, o dinheiro parece trazer felicidade e, quando surge a oportunidade de lavar este dinheiro sujo na própria máquina de lavar, a felicidade parece vir a dobrar. Mas, tal como ele, ela é de papel e, como “quem brinca com o fogo, queima-se”, num ápice se reduz a cinzas, porque tentar roubar um criminoso nunca resulta em algo agradável para quem o faz nem para os que lhe são mais próximos. Numa clara contradição a quem profere que “ladrão que rouba a ladrão, tem cem anos de perdão”, Marty carrega a sua penitência e entrega o corpo às balas perante aqueles que resolvem os seus problemas ao som de disparos, provando que está disposto a tudo como Tony Soprano em The Sopranos, que elimina quem incomoda a sua família, ou Walter White em Breaking Bad, que inicia uma vida de produção de metanfetaminas para garantir o futuro dos seus. Como situações inesperadas exigem medidas desesperadas, num claro arrebatamento do sentido de sobrevivência que domina qualquer animal, Marty aceita irrefletidamente um novo acordo: abandonar a sua casa e mudar-se para o lago Ozark, uma zona inóspita, vista num panfleto fortuito e previsivelmente ideal para atividades dúbias, onde, qual fiel escudeiro, deverá continuar o seu trabalho de lavagem de dinheiro, sem esquecer os elevados juros que a deslealdade cometida acarretou. Mas quem conseguiria manter o seu perfeito juízo e a saúde das suas escolhas após testemunhar a morte à queima-roupa de amigos e conhecidos, a dissolução de alguém num barril de ácido ou a queda de outro, odiado e morto, quase a seus pés, em claras ilustrações das leis da física e da química? Claro que, inicialmente, a família não compreende nem aceita tão drástica imposição. A mulher terá de abdicar de uma vida aproveitada a bel-prazer enquanto o marido ideal trabalha para lhe garantir o sustento e os filhos terão de abandonar o conforto da terra natal, cheia de filhos de outros que os compreendem. Paulatinamente, porém, entre corpos de inocentes e verdades reveladas sem eufemismos, a família une-se pela preservação do bem mais precioso: as suas próprias vidas. De malas aviadas, iniciam a viagem para o seu novo lar, mal imaginando que esta mudança seria tudo menos pacífica e que os seus novos vizinhos seriam mais um osso duro de roer. Pois, quando o assunto é dinheiro, até os esfaimados coiotes do deserto sentem o seu cheiro a léguas e não temem a aproximação. O aroma adocicado a morte e cifrões também atrai outros homens de negócios duvidosos e uma força policial subvertida que, para desenterrar as provas do crime, está disposta a entrar em recreações perigosas. Neste ambiente inclemente, Marty depressa aprende, por observação, a técnica exigida para centrar uma pistola na cara de alguém e mimetiza-a, sem hesitação, sem arrependimentos.

Ozark

A série, tal como a História em si, prega das suas partidas. Esta última, ao invés de continuar o seu percurso contínuo em direção ao final esperado, volta não volta retrocede uns quantos frames e faz reviver os seus momentos mais funestos para avaliar se o tempo conferiu ao ser humano mais discernimento para enfrentar novos desafios, na senda de uma melhor solução. Condenados a sucessivos déjà vus, revivemos pois sucessivas lutas de poder entre líderes políticos que levam a disputas bélicas, pela distinção do maior ego, conduzindo a premonitórios défices orçamentais – porque a guerra não é isenta de custos, custos que alguém tem de suportar. Um dos exemplos mais elucidativos desta sucessão de acontecimentos é a Primeira Guerra Mundial, que trouxe aos Estados Unidos da América uma fatura bastante onerosa: uma Grande Depressão, perpetuada pelos anos trinta, que esvaziou os bolsos, os estômagos, as esperanças e os sonhos de uma nação. Dadas as necessidades brotadas de um chão árido repleto de sangue dos inocentes, inicia-se um projeto de construção de um lago artificial não para colmatar a sede de muitos mas para produzir energia para alguns: isso mesmo, o lago Ozark, um lugar idílico ladeado por grandes casas de veraneio cuja contemplação esbanja a riqueza e o poder de uma classe decadente, agora como dantes. Numa recriação atual desses tempos de apertar o cinto, apresenta-se o sonho americano transformado a cada tique-taque num pesadelo asfixiante pelos tentáculos do polvo do défice financeiro que, infelizmente, com as suas ventosas, se alastrou aos restantes países. Encaremos – pedindo perdão pela avareza ou mergulhando nela qual Tio Patinhas – que esse punhado de papel cunhado é, de facto, a medida das nossas escolhas e quem o detém, à custa de uma lavagem especulativa de pura brancura, gere o mundo, apesar de no, momento seguinte, poder estar na base da pirâmide monetária. À sombra dessa frágil construção, descansa esse lago do dinheiro sujo, com corpos a boiar e ondulações de segredos, provocadas pelo lançamento das pedras da devassidão que, tornando o ser humano num perfeito robot à procura de satisfazer um vício, se amontoam no fundo, até que alguma torre de vigia iluminada surja entre as brumas de uma memória apagada.

Ozark

Construída a partir de uma função exponencial – como se pretende que os lucros aumentem – Ozark, criada por Bill Dubuque e Mark Williams, é, cena a cena, abrilhantada por escolhas que não só incrementam o interesse do espetador como também o fazem querer imiscuir-se mais no enredo – uma predileção do ser humano de viver sempre no limite, com níveis altos de adrenalina. Focada na degeneração social com um aprofundamento cada vez maior entre ricos e pobres, a seleção do elenco teria de ser necessariamente criteriosa de forma a garantir uma dinâmica entre atores que transmitisse simultaneamente a noção de crise eminente, pelas agruras que lhes vão batendo à porta, e as promessas de sangue inquebrantáveis que unem os mais chegados, mesmo em momentos negros, qual família da máfia italiana. Com isso em mente, a escolha de um ator dado para a comédia como Jason Bateman foi, no mínimo, arriscada, principalmente quando Arrested Development ainda está tão presente na memória. Mas boas safras dão melhores frutos, sendo ainda adubadas pelas interpretações bem conseguidas do núcleo familiar. Laura Linney, que interpreta Wendy, a esposa de Marty, apesar de competente, está algo condicionada por um argumento que remete a sua personagem para uma função de rafeiro fiel que cumpre os planos traçados pelo marido com uma confiança tão cega que quase apaga a sua própria existência. Com a defesa das suas crias em mente e ciente do jogo em que está inserida, a esposa não se incomoda com as piadas sobre possíveis sessões de terapia familiar nem tão pouco com as fantasiosas recriações das taras sexuais já postas em prática num passado recente. Ela aceita a pontuação obtida pelo dado, sempre com a ideia de atingir a casa de chegada do jogo de tabuleiro construído. Como tal, não obstante as suas divergências, o casal disfuncional acaba a defender um bem comum, numa clara alusão ao “um por todos e todos por um” dos mosqueteiros de florete em punho. Este novo lar postiço é ainda partilhado pelos elementos mais jovens, interpretados por Sofia Hublitz e Skylar Gaertner, e pelas contracenas com o vizinho inconveniente e de mente retorcida, encarnado por Harris Yulin, que ora garante um esgar de riso para desanuviar o clima pesado ora incomoda os mais puritanos com os segredos que esconde na sua cave. É assim atingido um equilíbrio perfeito entre drama e comédia, com laivos de humor negro que seguram a trama e o espetador, de forma cadenciada, sem momentos mortos, mas com ritmo próprio. Em termos estéticos, a fotografia e a iluminação, com cores lúgubres e jogos de sombras, embelezam o clima de thriller pretendido, com uma queda peculiar para o ambiente noir. Para além disso, a simbologia contrastante dos logótipos que acompanham cada um dos 10 episódios da série encerra um ótimo resumo sobre as várias facetas pecaminosas apresentadas ao longo da história. Palmas para o papel de realizador assumido por Bateman nos dois primeiros e nos dois últimos episódios desta primeira temporada, que se aventura por águas mais pantanosas, onde não existem heróis nem vilões, apenas seres humanos que fazem escolhas ora boas ora más às quais nem os agentes da lei conseguem escapar. Ao assistir à série, não tire, por favor, as mãos dos bolsos. Só para evitar que algum buraco negro sugador de poupanças as faça desaparecer num passe de mágico até à segunda temporada.

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