Oldboy

‘Oldboy’, que bom rever-te velho amigo

A cena do corredor. Quando se fala do Oldboy (2003) de Park Chan-wook, cujo título original é Oldeuboi, o corredor virá sempre à memória. Inevitavelmente, lembrar-nos-emos de Oh Dae-su, interpretado por Choi Min-sik, a gladiar uma horda de adversários de martelo em riste num corredor paralelepipédico onde só as portas e os cabos de eletricidade destoam do cinzento pálido das paredes. Três minutos frenéticos que não se revestem, porém, da espetacularidade asiática propensa a movimentos fantasiosos e extraordinários à la Bruce Lee. Não. Oh Dae-su é esmurrado, pontapeado, esfaqueado, riposta com golpes baixos, finge-se de morto e dobra-se sobre si mesmo na esperança de recuperar o fôlego. No final da sessão de pancadaria, depois de derrotar quase vinte adversários, sorri, transmitindo toda a dose de surrealismo de que Chan-wook nunca se quis soltar. Filmada ao longo de três dias e dezassete takes, a cena do corredor é o exemplo perfeito da ousadia cósmica desta obra inspirada no manga homólogo. Um plano sequência coreografado ao pormenor, acompanhado por um enquadramento lateral e geométrico que faz lembrar os jogos de consola beat-em-up ancestrais. Feita a homage necessária a uma das cenas mais bem orquestradas do cinema moderno, servirá como introdução referir que Oldboy é um dos gritos primordiais e mais sonantes da new wave do cinema sul-coreano e um dos filmes que mais inspirou uma série de cineastas internacionais que agora tiram proveito de estudar o trabalho proeminente do realizador Park Chan-wook.

Oldboy

Com efeito, falar de Oldboy é falar de Park Chan-wook. Um contador de histórias que põe o seu olho para a estética e geometria ao serviço das personagens e nunca o contrário. O seu cinema é anti-formulaico, polémico, sentimental, sem deixar de abrir uma janela às lufadas de ação maintstream. Neste caso, a sua cobaia é Oh Dae-su, um empresário que é raptado e mantido no mesmo quarto durante quinze anos sem saber porquê. Este aprisionamento abre, desde logo, espaço para o talento do realizador se fazer notar, com um conjunto de metáforas visuais que ilustram o sentimento de desespero e clausura do protagonista. E, de repente, Oh Dae-su é libertado de volta ao mundo, iniciando-se assim uma série de mecanismos que dão vida a um guião audaz que visa explorar a temática do desejo de vingança duma forma, no mínimo, sagaz. É aqui que a complexidade emocional de Oldboy se agiganta em relação às demais revenge stories, suplantando o seu tema principal e viajando para os recantos mais obscuros e bizarros do ser humano. A pura vingança é substituída por um ensaio filosófico profundo e artístico sobre a existência manipulada, a descoberta interior, o poder da memória e da expiação através da auto-flagelação. O triunfo do seu humor negro sobre o tabu secretamente explorado é marcante. O uso de cores fortes e duma saturação exagerada serve para fortalecer o sadismo do filme sem nunca o extremar ao ponto do espectador o abandonar. A utilização duma simples câmara de mão é notória e importantíssima na relação da audiência com o descalabro emocional de Oh Dae-su, pois permite ângulos íntimos e intrusivos que dão a sensação de inclusão no desastre que aos poucos se avoluma. E, para culminar, a banda sonora eclética encaixa na perfeição no design cenográfico e na fotografia de Chung Chung-hoon.

Oldboy

O perfume exclusivo das obras-primas é abundante em Oldboy. Mesmo que recusado pelo olfato de alguns, é irrefutável o seu aroma hipnótico. Para além da cena do corredor, a sua imortalidade é firmada nos anais do cinema com um conjunto de marasmos translúcidos. As cenas em que a personagem principal come um polvo vivo, arranca os dentes dum adversário ao som da pujança de Vivaldi e em que se dá a catarse meticulosamente ensaiada hão-de perdurar como mementos do cinema sul-coreano. A performance do ator Choi Min-sik é o exemplo mor daquilo que é representar um papel., um recital que deveria servir de estudo para todos os aspirantes à profissão. Do cómico ao depressivo, do vigilante ao desesperado, a distância entre registos de Choi é abismal e materializa o efeito avassalador que o filme pode ter no espectador. O guião, o acting e a realização transformam aquele que poderia ser apenas mais um thriller complexo numa tragédia grega repleta de cenas perpétuas. Uma viagem pelo âmago escuro do ser humano, pela psicose dum homem que, ao descobrir-se a si próprio, enfrenta as implicâncias destrutivas desse conhecimento.

Que bom rever-te, velho amigo. Estranho, bizarro, insolitamente belo. A fazer sombra a todos os que se atreveram a seguir as tuas pisadas.

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