O mar que nos separa de Cuarón

A praia estava deserta. A espuma que envolvia o mar fluía naturalmente – o que preenche o ar quente é apenas memória, os grãos de areia viram minhas incertezas. Lembro-me que acordei com o chiar de pneus de uma bicicleta. Ao longe, uma silhueta encostava-a ao muro que separava os grãos do alcatrão. Dirigiu-se a mim. “Não te assustes, não sou nenhum ladrão, ainda que adore os filmes do De Sica”. As palavras atravessaram-me sem aviso. Ele falava com uma calma assertiva, sem nunca transparecer a frase seguinte. O olhar contribuía para este mistério. Sentou-se sem pedir licença, enquanto me disse como se chamava. Apontou para o horizonte ao mesmo tempo que proferiu uma frase que eu não ouvi: estava ainda a murmurar o seu nome… Alfonso Cuarón.

Rua Tepejí, bairro Roma Sul, cidade do México. Anos 70. Em correria, Alfonso percorre a rua enquanto encosta a sua Minolta Super 8 à cara. Os latidos do seu cão, no lado de lá do portão do número 21, são a banda sonora deste filme. A cara de Libo, a sua empregada doméstica, preenche a lente, enquanto um sorriso tímido lhe ocupa o rosto. Agarra com a mão esquerda um foguetão de brincar que o miúdo deixou perdido em casa – também o sonho de ser astronauta ficou encostado a um canto assim que teve uma câmara nas mãos. A pequena criança tira o objeto da face e acena com a cabeça após esta o chamar para almoçar. Na máquina não há rolo. Nem é preciso: estas imagens ficar-lhe-ão bem gravadas na memória.

A mesma casa, a mesma rua, o mesmo tempo, viriam a ser retratados, décadas mais tarde, naquele que seria o filme de vida do pequeno miúdo. Desde a infância até à idade adulta, muita coisa mudou, mas a máquina fotográfica continuou nas suas mãos. Hoje recordará com um sorriso a tentativa de lhe retirarem o objeto, como foi expulso do Centro Universitário de Estudos Cinematográficos, tudo por causa de uma curta-metragem feita em inglês com Luis Estrada, Carlos Marcovich e Emmanuel Lubezki. Como foi um escândalo no Festival de Cinema de Havana, “estão colonizados ao máximo os mexicanos!”, gritavam os cubanos. A passagem pela escola de Cinema para Cuarón foi uma piada sem graça. As memórias, com o tempo, passaram a escrita: seriam precisos doze anos para a escrita passar para o ecrã.

“Escrever um guião é como mergulhar. Assim que te lanças e entras dentro de água, tudo flui, começas a nadar e a aproveitar o mar”. As ondas, ao fundo, eram o único som a interrompê-lo. De mim, nada mais que silêncio. “Com a escrita é igual”, continuou, “assim que mergulhas na primeira cena, tudo flui. A grande dificuldade é o salto, é a primeira frase, é que esta faça sentido”. Levantou-se e começou a caminhar rumo à fina linha que as ondas demarcavam na areia. A água do mar começou a invadir os seus sapatos. Ele pareceu nem sentir.

‘Roma’ iniciou-se em ‘Y Tu Mamá También’, em 2001: um filme sobre a amizade e a verdade (inatingível).  Sobre a vida – que é como a espuma do mar – onde cenas prolongadas carimbam a realidade sempre como pano de fundo. Acima de tudo, é a base de ‘Roma’: uma obra com muito do que viria a ser Cuarón.

Para trás, ficaram os seus primeiros três filmes: ‘Great Expectations’ (1998), ‘A Princesinha’ (1995) e o seu filme estreia ‘Sólo Com Tu Pareja’ (1991). Porém, seria preciso ganhar muito calo até os poder dirigir. Nos anos 80, a inquietude levou-o a juntar-se a algumas produtoras estrangeiras que filmavam no México programas culturais para a Secretaria de Educação Pública e séries para a Televisa. Ganhou cabelos brancos a batalhar contra a IMCINE (financiadora de filmes), viveu num carro em plena Califórnia, onde ganhava 100 dólares – com os quais subsistia – dando opiniões e conselhos sobre alguns argumentos que lhe enviavam. Luis Mandoki foi a sua sorte (fruto do trabalho). Seu amigo, com quem já havia colaborado no México, era a única pessoa que conhecia em Los Angeles e o apresentou a Hollywood. Depois de realizar um episódio de ‘Fallen Angels’ – a convite de Sidney Pollack que ficou impressionado com o seu trabalho – chegou às suas mãos o guião de ‘A Princesinha’, filme nomeado para dois Óscares em 1995.

Levantei-me e juntei-me à caminhada. “Os meus filmes são como os cortes de cabelo dos anos 80. Quando os fiz era uma boa ideia, mas agora prefiro nunca mais os ver”. Pela primeira vez, esbocei um sorriso e senti que podia confiar nele. Rematou a ideia, levando-me às gargalhadas. “É como ver os teus pais a fazer sexo”.

Depois de retratar em ‘Y Tu Mamá También’ a aventura sexual de descoberta de dois adolescentes, não se preveria que o seu próximo projeto fosse a realização do terceiro capítulo de ‘Harry Potter’.

Alfonso Cuarón não tem um género de filmes, tem um género característico de filmá-los. As cenas prolongadas, o constante movimento da câmara, tudo está lá. A consistência das filmagens e do sentimento das personagens é o que torna o ‘Prisioneiro de Azkaban’ um dos melhores filmes da saga. Durante a obra, há um constante trespassar de vidros que é como dizer que devemos olhar para nós. E devemos olhar para o que temos em mãos: o contributo para o aumento da nossa literacia cinemática.

Antes de sequer escrever uma linha, há um longo e intenso processo de estudo. Em posição horizontal, deitado na cama ou numa rede, vagueia entre livros e chamadas telefónicas com peritos. Todos os argumentos que escreveu foram feitos em três semanas – o que demora é este processo criativo que antecede a escrita. “Qualquer argumentista, quando escreve, fá-lo para o ecrã”. Quanto mais visual for o argumento, mais fácil será transpô-lo em termos visuais. “É importante pensar em imagens”.

O processo em ‘Children Of Men’ (2006) foi diferente. Nunca leu o livro de PD James. Deu apenas uma vista de olhos na sinopse de apenas uma página. Nunca lê as histórias porque interferem com o seu processo criativo: o ponto de partida para este filme resumia-se à questão “qual a forma que este novo milénio vai tomar?”. Há um evidente contraste entre o primeiro plano e o seu fundo. São vários os momentos em que a história principal e as personagens são ignoradas pela câmara, que se foca no background. Paradoxalmente, se há um olhar bem vincado por parte do realizador, o objetivo dele é multiplicar os olhares sobre o filme – haver espaço para a subjetividade. O autor apresenta-nos a história principal, as paredes de fundo, a guerra em segundo plano e o espectador é deixado ao livre-arbítrio. Por isso mesmo, serão várias as referências que podem passar despercebidas. ‘The Birth Of Venus’, de Botticelli, aparece em alusão à maternidade. Um porco a sobrevoar uma fábrica em referência a ‘Animals’ dos Pink Floyd. Há Michelangelo com ‘David’ e Picasso com ‘Guarnica’. Há George Orwell. É certo que poderemos não prestar atenção a estes detalhes, tal como podemos viver a nossa pequena vida sem observarmos o que nos rodeia. Mas, mais tarde ou mais cedo, o que está em segundo plano virá para nos abalroar.

“Durante alguns anos, com tantos argumentos disponíveis, esqueci-me que era escritor e perdi muitos anos de processo criativo”. Caminhámos pela areia, de regresso ao sítio onde tinha os meus pertences. Perguntei-lhe qual a aprendizagem que o mais tinha marcado. “Há que reconhecer um filme como uma linguagem o mais cedo possível. Cair no conforto da técnica é um erro”.

E Cuarón não caiu. Em 2013, com ‘Gravity’, andou sempre lá bem no alto a mostrar-nos a pequenez do Homem: dois pontos brancos sobre a imensidão azul que é o planeta Terra. A exibir-nos o quão ridícula é a vida, a sua efemeridade: um escorrega ser o fim da vida de uma criança. Mas também a possibilidade de renascermos perante as adversidades.

A calma de Clooney em todo o filme é a do realizador a filmar. Mas não foi pacífico. A primeira resposta de Sandra Bullock ao convite foi um redondo “não”. À primeira vista, a nível técnico, este era um filme impossível. A equipa teve de criar nova tecnologia e efeitos especiais inovadores, o que fez com que Clooney e Bullock tivessem de representar quase exclusivamente suspensos por cabos, envoltos em estabilizadores, com câmaras com centenas de quilos a andarem rapidamente a centímetros de si. A atriz chegou a passar dez horas dentro de um equipamento mecânico gigante, fazendo com que uma das maiores preocupações do realizador fosse garantir o máximo de comodidade para os atores. O mexicano, na cena aquática final, chegou mesmo a estar debaixo de água, sustendo a respiração com a atriz norte-americana, para garantir que não lhe estava a pedir muito. No entanto, a complexidade da produção não é visível e o que a obra final transmite é de uma simplicidade tremenda. E houve ainda tempo para Cuarón nos dar o ar da sua graça: na cena inicial do filme, quando a personagem de Clooney está muito perto da câmara, é percetível, na sua viseira, o reflexo de astronautas com uma câmara e um microfone – uma private joke do cineasta como que a dizer-nos que a cena foi mesmo filmada no espaço.

A verdade é que se com ‘Gravity’ Cuarón nos levou a voos bem altos, em ‘Roma’ deixou-nos com os pés bem assentes no chão. Todos os caminhos do filme resultam numa ode ao Cinema. Os doze anos de preparação, ainda que inconscientes, levaram a que o realizador conseguisse a sua obra-prima. Fizeram com que conseguisse realizar aquilo a que o Cinema se propõe, mas que a atual falta de literacia audiovisual faz por esquecer: contar histórias através de imagens. Sem pressas. Sem traços supérfluos. Sem caminhos fáceis. Sem presumir a estupidez do espectador. De Sica, certamente, ficaria orgulhoso.

“Há filmes impressionantes que foram feitos sem som, música, cor, atores, até sem história. Mas não há uma única obra-prima que tenha sido feita sem imagens”. Fixei o olhar nele enquanto pensava na sua ideia. Baixei a cabeça e fechei a retina. “Ir ao cinema, hoje em dia, é sentarmo-nos com um balde de pipocas, fecharmos os olhos, o filme acabar e não termos perdido um pedaço do filme”.

Uma buzina fez-me acordar: um avião, lá bem no alto, cortava o azul do céu. Levantei a cabeça. A praia estava cheia de gente. Olhei para trás, tentando encontrar a sua bicicleta, mas centenas já se tinham apoderado do muro. No horizonte, o sol pousava no mar, enquanto um pequeno ponto bem lá ao longe se afastava cada vez mais. Não sei quanto tempo passou. Não sei o que vi, nem ouvi ao certo: tudo isto é memória. Fiz força com a mão esquerda sobre a areia quente e levantei-me. Comecei a caminhar rumo à espuma do mar, enquanto o olhar se perdia na linha do horizonte. A distância entre o ponto negro, já imiscuído na água, e mim era cada vez maior. Reparei que eram poucos os que dividiam a água com ele, eram raros os que também se afundavam naquela realidade. A humanidade é o mar que nos separa de Cuarón: mergulhemos.

Texto por: Nuno Mina

Partilhar