O desconhecido sorriso de Hal Ashby

Uma estranha, mas reconfortante, calma percorria um recôndito lago situado em Goldwyn. Avancei pelo alpendre de um pequeno bungalow, analisando-o de cima a baixo com o olhar. Assim que cheguei à entrada, fiquei com o punho suspenso no ar, a centímetros da porta: não foi preciso bater, lá de dentro surgiram os cabelos e barba branca de uma cara alegre. Estiquei a mão, mas ele puxou-me e ofereceu um abraço. Fomos até ao escritório ao seu refúgio e o mundo deixou de existir. Perdemos a noção do tempo. Não sei se fiquei lá três minutos ou três horas.

No ar, o fumo do cigarro dançava como uma serpente. Ele entrou a matar. “Eu nasci em Ogden, Utah, em 1929, e sou o último de quatro filhos. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha cinco ou seis anos e o meu pai matou-se quando eu tinha 12. Viajei para Los Angeles quando tinha 17 anos. Tive uns 50 ou 60 empregos até ao momento em que trabalhei como operador de uma Multilith nos bons velhos estúdios da Republic e casei e divorciei-me duas vezes antes de chegar aos 21. No entanto, esforcei-me sempre para crescer como os outros: totalmente confuso”. Depois sorriu e soltou uma tremenda gargalhada. Esticou-me o cigarro que, por essa altura, percebi eu, não se tratava de nicotina. A estranheza parecia dissipar-se e a calma sobrepunha-se. Bastaram uns minutos para eu já gostar deste espírito existissem mais Ashbys no mundo.

Nos anos 60, um jovem moço de recados era um dos poucos amigos que o futuro realizador americano tinha, enquanto era apenas editor assistente. Dava pelo nome de Jack Nicholson e partilhavam os estúdios da MGM. Pelos corredores da indústria cinematográfica, cruzou-se também com Norman Jewison, realizador canadiano responsável por títulos como ‘In The Heat Of The Night’ (1967), ‘Fiddler on the Roof’ (1971) ou ‘Moonstruck’ (1987), figura que viria a ser seu companheiro de longa data.

Muito antes disso, contudo, ‘The Loved One’ (1965) seria o primeiro crédito que Ashby editava. É a partir deste trabalho que o americano começa a editar os filmes de Norman Jewison que estava radiante por ter um jovem editor que tinha passado anos como assistente de Bob Swank, amigo próximo do renomeado realizador William Wyler.

“Eu e o Norman tivemos uma relação muito boa, foi desde o início um casamento nascido no céu”, afirmou Hal, enquanto tinha o olhar vidrado no horizonte. “Apesar de tudo, éramos diferentes. Eu nunca gostei do conforto pessoal, de coisas desnecessárias. Cheguei a viver um ano no escritório do Norm”. Foi nessa altura que deixou crescer a barba.

Até 1969, editou seis filmes. Entre eles, ‘In The Heat of The Night’ (1967), pelo qual ganhou um Óscar de Melhor Edição — o único em toda a sua carreira — que não faria jus ao seu trabalho.

Em 1970, Norman oferece a realização de ‘The Landlord’ a Ashby, ficando o primeiro responsável pela produção. Foi este o gatilho para o editor largar os ecrãs e teclados e saltar para junto dos atores, vindo a tornar-se “um dos realizadores mais talentosos com quem Jewison alguma vez já trabalhou”. Peter Biskind, autor de ‘Easy Riders, Raging Bulls’, afirma que “teve um dos melhores percursos nos anos 70 de toda a história do cinema”. E isso viria a ser notório.

‘Harold and Maude’ (1971) é o segundo filme e um dos seus clássicos. Mostrava bem o seu estilo, contando-nos a história de Harold, interpretado por Bud Cort, um jovem, rico e obcecado com a morte, que se vê transformado para sempre quando encontra a vigorosa septuagenária Maude, interpretada por Ruth Gordon, num funeral.  Uma comédia melodramática com todos os componentes necessários. Seth Rogen revela que chorou desalmadamente ao vê-lo: acreditava não ser possível conjugar tão bem o humor e o drama. Hal Ashby era um mestre, conseguia produzir o pack completo de emoção.

Entre 1971 e 1980, realiza seis filmes. Depois de ‘Harold and Maude’, surge ‘The Last Detail’ (1973), onde se volta a encontrar com Jack Nicholson, que interpreta a personagem de Billy Buddusky, ‘Shampoo’ (1975), ‘Bound for Glory’ (1976) e ‘Becoming Home’ (1978), antes de chegar a uma das suas maiores obras, se não a sua obra-prima, ‘Being There’. Curiosamente, todas elas têm um denominador comum. O americano foca-se sempre num tema tabu: ‘Harold and Maude’ explora a velhice e a morte, ‘Coming Home’ tem por base o sexo entre paraplégicos e ‘The Last Detail’ a desmistificação dos militares.

‘Being There’, por sua vez, conclui a década de 70. Chance, interpretado pelo icónico Peter Sellers, é um jardineiro que passou toda a sua vida fechado em casa do patrão: o único mundo que ele conhece é-lhe mostrado pela televisão. Quando o patrão morre, Chance é posto na rua, onde a sua inocência é confundida com sabedoria. “I like to watch” é uma das frases que marcam o filme. E Hal, em certa medida, era como Chance: gostava de observar. Numa cena em que a personagem está diante da montra de uma loja de televisões — na qual uma delas o está a gravar — dá por si, pela primeira vez, a ver-se. Como música de fundo, ‘Also Sprach Zarathustra’ faz-se ouvir em tons de funk, numa clara referência a ‘2001: A Space Odissey’ (1968). A televisão é o monólito que surge no filme de Kubrick, um ecrã onde nos vemos, responsável pelo nosso renascimento intelectual.

Ashby era como um espelho do espírito hippie e trouxe uma nova abordagem à maneira de realizar filmes. Tinha um sentido de verdade e de momento real, o que poderia levá-lo a erros: continuaria com uma cena até ao extremo, desde que ela permanecesse verdadeira. Jon Voight afirma que, na altura, ele era o realizador com quem todos queriam fazer um filme: “era um génio e a maneira dele ser conquistava qualquer um”.

“Eu não sou descontraído: há uma tremenda energia em mim o tempo todo. Contudo, o que vais conseguir por levantares a voz? Mesmo se estiveres a trabalhar em algo tenso no teu filme, ficar tenso com a equipa não vai ajudar. Eu passei por um período da minha vida em que discuti sobre tudo e descobri que não estava a conseguir muita coisa”.

Em ‘Becoming Home’, numa cena onde a câmara se aproxima em close-up da cara de Voight, o ator estava sempre a esquecer-se das falas e a atrasar a cena. Atabalhoado e irritado, pediu dezenas de desculpas ao realizador, ao que ele respondeu: “Qual é a diferença? Estamos a divertir-nos não estamos? Estamos em boa companhia. Ainda bem que estamos todos juntos e a fazer um filme”. Ashby montava a atmosfera do estúdio fazendo com que o ator sentisse que era dele. Nunca julgava um ator. Os produtores seriam certamente os únicos com quem ficava de pé atrás.

“Há sempre aquela sensação, aquela guerra, de os realizadores estarem sozinhos. De haver o dinheiro, bancos e produtores de um lado e nós do outro” atirou Ashby. Eu atirei-lhe o cigarro de volta e disse que isso fazia parte do jogo. Ele ripostou que não deveria haver interferência e confessou: “eu levei isso ao extremo, ao ponto de trancar o estúdio. O Norman dizia-me que não podia trancar, pois eram eles que me davam o dinheiro, «tens de encontrar um equilíbrio», dizia-me centenas de vezes. A verdade é que me tornei obsessivo”.

E essa obsessão atingiria o seu clímax. O espírito do realizador apoderou-se do mesmo: se, na década de 70, estava no céu, na de 80, desceria ao inferno.

Em 1981, realiza ‘Second Hand Hearts’. E há uma substancial diferença de qualidade em relação ao último filme: Ashby começa a ficar cada vez mais recluso do seu refúgio, tornando-se instável e havendo um incremento de drogas nos seus dias. E isso atinge o apogeu em ‘Let’s Spend the Night Together’ (1982), um documentário sobre os The Rolling Stones. O realizador colapsa em pleno set e, apesar de aparentemente recuperado, nunca mais seria o mesmo. O filme chega mesmo a ser distribuído, mas nota-se uma falta de brilho na sua edição. A paixão desvanece. ‘Looking to Get Out’ (1982) e ‘The Slugger´s Wife’(1985) viriam a ser prova disso: há a escassez de controlo do realizador, o que leva a um constante arraso da crítica. Paradoxalmente, Ashby passa muito mais tempo a editar os seus filmes, chegando ao ponto em que projetos lhe são retirados para serem editados por outros. Algo que viria a acontecer com o seu seguinte e último filme de Hollywood, ‘8 Million Ways to Die’, em 1986.

“Quando eu mostrei o projeto ao Jeff Bridges, ele veio perguntar-me porque é que eu estava a fazer aquilo. E essa era uma questão que realmente me interessava, acho que era por isso que o queria fazer: queria perceber o porquê de o querer fazer”.

Nessa altura, a sua atitude era não se reger pelo guião e concentrar-se mais na substância, o que fazia com que os produtores perdessem confiança nele — era pavoroso, pois um dia podiam chegar ao estúdio e nada estava como planeado no guião. O total improviso reinava, chegando ao cúmulo de o produtor de ‘8 Million Ways to Die’ colocar um espião no estúdio. Hal, porém, conquistou o homem de forma genuína: tornou-se amigo dele e fez com que pertencesse à equipa. E, ironicamente, viria a descobrir-se que esse homem era alcoólico, mas isso não o impediu de ser o técnico assistente de Jeff Bridges, aconselhando-o em várias cenas.

Nesse filme, o realizador americano viria a dar o projeto ao editor e ir de férias. O produtor, contudo, apoderou-se dele, modificando-o completamente: editou-o e destruiu toda a ideia original. Após esta facada, Hal realiza um episódio piloto para televisão com os Monty Python. Na mesma altura, é-lhe diagnosticado um tumor no fígado que começa a apoderar-se dele — somente do corpo, não da mente.

“Sabes, nunca funcionei pelos filmes que vi, mas sim pela vida, pelas sensações e relacionamentos”. Ele levantou-se e foi buscar um whisky. A serpente de fumo continuava viva no ar, parecia não querer desvanecer. Também o seu espírito continua vivo, apesar de serem poucos os que trespassam o fumo com o olhar e focam na sua dança, na sua existência, inalando a sua filosofia.

Até aos seus últimos dias, enfrentou a morte com um sorriso no rosto. Foi assim toda a sua vida, marcando imensa gente apesar de muitos não o saberem. Viria a morrer numa terça-feira. Passado um dia, num anfiteatro da Directors Guild Of America, iniciava-se uma homenagem com mais de 75 pessoas. Entre inúmeras histórias e memórias da sua boa disposição, Sean Penn dirigiu-se ao palco, sem ninguém prever, e contou que o falecido realizador tinha sido mentor do seu melhor amigo, dando-lhe uma oportunidade de trabalhar como assistente nos filmes dele e lançando-o na indústria. Além deste, existiram mais três ou quatro casos que apenas Sean e Andy Garcia sabiam a quem ele tinha dado a mão.

O realizador afirmava que não gostava de mentir. Nunca foi de excentricidades, nem de se mostrar. Os seus pequenos gestos no dia-a-dia falavam por si, os seus filmes ganhavam vida própria. Hal foi um espelho das estrelas de Hollywood, mas com uma diferença: sempre teve uma veia “real”, não tendo medo de mostrar que era de carne e osso, caindo em erros e tentações. Ashby foi um pequeno génio, deixando-nos a sua herança sob a forma de personagens como Chance, Harold ou Billy Buddusky. O seu maior feito, contudo, foi conseguir que o seu riso não ficasse enclausurado no seu refúgio, mas quebrasse a quarta parede e chegasse até nós.

Texto por: Nuno Mina

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