Mr. Robot e a relevância da questão

Aviso: este artigo contém spoilers.

Num dos últimos episódios da segunda temporada da série Mr. Robot, numa conversa com Terry Colby (Bruce Altman), Phillip Prince (Michael Cristofer), o diretor da E Corp,  goza com o facto de Donald Trump se candidatar à presidência dos Estados Unidos da América. Por seu lado, Colby acrescenta, entre risos, que poderia tornar-se o seu running mate (vice presidente) tendo em conta o historial que têm em comum. Recorde-se que Colby está envolvido em várias situações legalmente duvidosas. A segunda temporada desenrola-se no Verão de 2015 e esta era uma das tentativas do criador da série, Sam Esmail, de manter a ficção fiel à realidade, apesar da gravidade dos eventos fictícios descritos. De lembrar, por exemplo, as várias ocasiões em que a série apresenta trechos de discursos de Barack Obama adaptados à realidade alternativa que descreve. Ou a forma tensa como as relações diplomáticas entre os EUA e a China são descritas, sendo recorrentes os jogos de bastidores. Um esforço de Esmail em adaptar a narrativa aos eventos marcantes que assolavam a sociedade naquela altura. Mal ele sabia o quão desfocadas se tornariam as previsões relacionadas com a política norte-americana de 2015 até à atualidade. Contra as prospeções iniciais, o magnata Donald Trump ganhou popularidade e foi eleito Presidente dos EUA.

Hackear a democracia. É esta a premissa de Mr. Robot desde o primeiro episódio. Um hack que possa mudar a nossa sociedade tal como a conhecemos: hiper capitalista. O instrumento desta premissa é Elliot (Rami Malek), um programador altamente talentoso, e o alvo é a E Corp, o conglomerado financeiro mais poderoso do mundo. Apesar de cativante, este axioma pareceu sempre um pouco rebuscado, um material de ficção eficazmente trabalhado de forma a manter a nossa obsessão com a televisão e os conteúdos de entretenimento com componente crítica. Uma história atraente, mas que se confinaria sempre ao pequeno ecrã, pois como tantas outras narrativas, não se aplicava ao mundo real. A possibilidade de mudar o funcionamento da sociedade através de um ataque cibernético era, no máximo, hipotética. Para a maioria dos espetadores, estávamos perante um esboço demasiado futurista. Pois bem, o futuro bateu à porta e Mr. Robot pode ter falhado na piada mas acertou na relevância da questão.

“É bastante óbvio o que ocorreu aqui relativamente ao envolvimento em esforços para hackear informações com um impacto na democracia americana”, disse o futuro secretário de Estado da Defesa James Mattis, em declarações à Reuters, referindo-se aos ataques cibernéticos que se sucederam durante as eleições. Após o futuro diretor da CIA, Mike Pompeo, aceitar o relatório com as conclusões das investigações levadas a cabo pelos serviços de informação norte-americanos, segundo os quais a Rússia interferiu nas eleições presidenciais com o objetivo de beneficiar Donald Trump, a realidade começa, de repente, a ganhar ares de ficção. Mr. Robot ganha, subitamente, relevância suprema, pois o tema que aborda torna-se essencial à nossa sobrevivência como sociedade organizada e democrática. A sociedade pode afinal ser realmente hackeada? Será que existe um Elliot na vida real? Ou vários? Ou um Elliot sob as ordens de governos poderosos e até certo ponto instáveis. Até que ponto estamos seguros? A forma como Mr. Robot interage com a cultura moderna torna-se a partir de agora essencial, padecendo sempre de um tom alarmante. Como o protagonista da série, Rami Malek, referiu em entrevista ao The Hollywood Reporter, “Normalmente quando pensamos no apocalipse é sempre algo sob a forma duma enorme bomba, algo vindo do Espaço ou um evento nuclear (…) Isto é apenas um indivíduo num teclado capaz de criar um apocalipse. Se é aí que estamos, então estamos num lugar muito assustador para a humanidade.”

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