mother!

‘mother!’, um vírus audiovisual indecente e incendiário

Este artigo revela o tema de algumas das alegorias presentes no filme, o que pode influenciar o visionamento do mesmo.

Ao longo dos anos, a sétima arte tem presenteado os seus amantes com vários trabalhos de fisionomia invulgar, obras que vivem da alegoria e sobrevivem ao tempo através das suas referências metafóricas a conceitos filosóficos, sociais e existenciais. Desde Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Luis Buñuel, Andrei Tarkovsky, Stanley Kubrick, Roman Polanski, David Lynch, até caras mais modernas como os irmãos Coen, Christopher Nolan, Paul Thomas Anderson ou Yorgos Lanthimos, que perdoem os não referidos, muitos realizadores têm feito da sua vida artística a missão destemida de oferecer ao espectador a transcendência como moeda de troca, a vida e os seus mistérios como objeto de estudo, sátira e alegorização. Porém, muitos dos trabalhos destes criadores e de outros foram inicialmente alvo de inúmeras críticas negativas. Uns porque, ao serem completamente revolucionários, geraram intransigência — relembre-se que 2001: A Space Odyssey (1968) e Blade Runner (1982) foram desvalorizados aquando da sua estreia. Outros porque criticaram fenómenos sociais que na altura ainda não eram propriamente óbvios — muitos viraram as costas ao Fight Club (1999), filme que apenas se popularizou bastante depois do seu lançamento. Ou outros por tentarem contextualizar ideias superlativas recorrendo ao absurdo e ao desafio das lógicas sociais — quantos ignoraram, faz pouco tempo, a sátira desconcertante que The Lobster (2015) faz ao mundo moderno dos relacionamentos amorosos? Todos estes projetos, como tantos outros, têm um traço em comum: requerem desconstrução, discussão, contextualização e absorção dos seus conceitos alegóricos de maneira a serem satisfatoriamente compreendidos. Posto isto, a bifurcação de opiniões mais recente deve-se a mother!, novo filme de Darren Aronofsky cuja narrativa, uma que seja minimamente coerente, está muito dependente da compreensão duma alegoria ao Livro de Génesis onde Deus criou a terra e os céus e de seguida o primeiro homem, Adão, e da costela deste a primeira mulher, Eva. Apesar dos avisos de Deus, Eva comeu o fruto proibido e deu-o a provar a Adão. Como castigo, foram expulsos do Jardim do Éden. Ora, o filme conta a história duma jovem restauradora, interpretada por Jennifer Lawrence, que vive com o seu marido negligente, um poeta interpretado por Javier Bardem, numa casa isolada da civilização. Lá fora, árvores e vegetação até onde um dos poucos planos abertos do filme consegue mostrar. Enquanto esta restaura as divisões da casa, o seu “paraíso” como lhe chama, ele vive absorto na sua escrita, na sua criação. A harmonia frágil do casal é quebrada quando começam a receber visitas de desconhecidos que não têm problema nenhum em impor a sua presença e tornar-se uma fonte de extrema inquietação para a jovem, e de deleite para o poeta. A charada que envolve estes intrusos poderia ter sido prontamente desmontada se, em vez de “Homem” e “Mulher”, interpretados por Ed Harris e Michel Pfeiffer, Aronofsky lhes tivesse chamado Adão e Eva, tornando tudo o que se segue muito mais lógico. Mas não. O realizador manteve, e muito bem, o mistério, criando no processo, pelo menos a curto prazo, o pior inimigo do seu filme. Para as mentes mais atentas às várias referências que vão surgindo, como, por exemplo, a ausência de nomes próprios, e informadas dos conceitos básicos do Livro de Génesis, a alegoria bíblica é, à partida, percetível. No entanto, no meio da ideia pré-concebida de thriller sobre invasão de privacidade, quer por ausência dos conceitos bíblicos ou simples desatenção, é muito fácil ficar-se condenado às limitações literais da narrativa que se compõe essencialmente de acontecimentos completamente irrealistas e grotescos. Por outras palavras, despojado do seu conteúdo metafórico, que é contextualizado subtilmente numa fase inicial do enredo, e apenas dependente da experiência literal, mother! é um péssimo filme. E daí surge a curiosa questão: o filme está a ser destruído por alguns porque lhe é atribuída a pura ausência de qualidade ou porque está a ser pobremente compreendido?

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Ultrapassado o desafio inicial, ou seja, assimilada a alegoria bíblica e a ideia da casa como metáfora para o planeta Terra, o filme transforma-se numa das experiências cinematográficas mais excêntricas dos últimos anos, perfumada com uma noção de existência global raramente atingida na sétima arte. Uma fita sobre o Mundo e a sua História, sendo o Mundo representado pela casa vitoriana onde o poeta, Deus, e a sua esposa, a Mãe Natureza, vivem e a História personificada pelos invasores que a vão preenchendo, como Adão e Eva, os primeiros da sua espécie. Todos os eventos bizarros que preenchem o filme são depreendidos segundo o ponto de vista da Mãe Natureza, neste caso, da personagem interpretada por Lawrence. Mas, se dum retrato do Génesis apenas se tratasse, de onde vêm os aplausos, as lágrimas, o riso, a loucura artística, o incêndio, de onde nasceu a apoteótica receção de alguns? Nasce talvez do uso do contexto bíblico para explorar temas atuais e controversos, da comunhão dos vários conceitos que se vão multiplicando, da fita onde coexistem vários filmes ao mesmo tempo, caminhos imensos por onde o espectador pode passear a sua imaginação. As interpretações que se podem fazer destas duas horas de aparente insanidade não se desfazem umas das outras, qual aspirador que suga lixo para dentro dum saco onde as impurezas se juntam e ecoam um hino à sujidade. Tem-se o filme de terror psicológico, muito à moda das antiguidades de Roman Polanski, em que a esposa ignorada pelo marido vê a sua casa ser invadida por estranhos que se recusam a ir embora, evento que se aproxima do desenho surreal de El ángel exterminador (1962) de Luis Buñuel onde os convidados duma festa de elite se veem incapazes de abandonar a sala. Tem-se uma parábola para a invasão da casa como instituição social sacrossanta, como abrigo do matrimónio entre o casal modelo. A administração de terror através do usurpar do território e da intimidade. Tem-se também a aparente referência a ‘The Yellow Wallpaper’, um conto de 6 mil palavras publicado em 1892 que relata a história duma mulher da era vitoriana que, confinada ao seu quarto e a uma depressão nervosa diagnosticada pelo marido, começa a imaginar mulheres que vivem no papel de parede amarelo e chega a acreditar que é uma delas. O grande triunfo, não imediato, deste conto de Charlotte Perkins Gilman foi a chamada de atenção para o machismo e crueldade inerentes à sociedade na era vitoriana onde as mulheres tinham um papel submisso e, caso ambicionassem algo mais que o papel de doméstica, eram muitas vezes desacreditadas e até isoladas e diagnosticadas com doenças de foro psicológico. A referência discreta a este conto, que advém da relação da jovem restauradora com as paredes da sua casa vitoriana, que inclusive pincela de amarelo, e das várias alusões à cor, pode ser interpretada como uma crítica aos mecanismos sociais semelhantes que ainda imperam em muitas regiões do globo e que eram comuns à sociedade ocidental não faz muito tempo. Irónico que alguns dos comportamentos em relação ao meio ambiente se pautem atualmente por essa mesma filosofia, a de subestimar, de ignorar os avisos que começam a surgir a uma velocidade alarmante. Estará o realizador a tentar afirmar que a visão atual em relação aos problemas ambientais é, tal como o machismo da era vitoriana, arcaica e ineficaz? A personagem de Lawrence bem que avisa os intrusos para pararem de danificar o seu lar, este não lhes pertence, não é deles para o destruírem. Ela grita por socorro ao marido, mas ele, o todo-poderoso dono da casa, está mais preocupado com outros assuntos. A opinião dela não conta para nada. E, dessa dinâmica, dessa noção distorcida da mulher como alimento do ego do marido, como a sua musa, meretriz e alvo de ostracização caso queira mais do que essa singela e pérfida existência, germina o filme sobre o criador bloqueado, centro de todas as atenções e torturado pela falta de inspiração. Tudo o que acontece naquela casa pode ser nada mais do que o seu processo criativo, a explosão da sua mente em constante metamorfose, numa convulsão lírica e cíclica, o ato poético como ato de destruição. O princípio e o fim. E a renovação. No entanto, a grande temática do filme, e que venha daí o pretensiosismo de Aronofsky, prende-se com a saúde do planeta Terra, com o grito de ajuda da Mãe Natureza na pele da jovem que é constantemente agredida, ofendida, roubada e desprezada: a utilização do absurdo — ninguém no seu perfeito juízo trataria outro ser humano e o seu lar de forma tão abusiva — para materializar as atrocidades que o meio ambiente sofre diariamente. Nisto, o cineasta torna-se político, associa o problema do aquecimento global à humanidade como um todo, ataca o comodismo do século XXI, assim como faz da entidade divina uma presença narcisista e egocêntrica, e, tendo razão ou não, estes são fatores que podem não agradar a todos. Contudo, nada fica por dizer, nada fica por mostrar. mother! é absolutamente intempestivo, uma terapia de choque nunca gratuita, pois toda a sua barbárie tem um sentido alegórico, sempre fiel a um fio condutor de tom crítico, polémico e universal.

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Sobra a guerra entre o conteúdo e a forma, uma que também já é ancestral e dor de cabeça habitual dos cineastas. E, neste caso, pode-se afirmar que a forma de Aronofsky é competente, inteligente na construção do cenário físico e humano e na operação de câmara. A fotografia de 16mm do cinematógrafo Matthew Libateque é mal-educada, possessiva, gruda-se à figura feminina de Lawrence com unhas e dentes. Cada uma das suas reações, das suas proclamações de desespero, é acompanhada através de planos fechados que, todavia, não se desorientam em relação ao espaço físico. O cenário parece vivo, cria sobressalto e adota os rangidos do chão e os barulhos das portas como banda sonora, como exclamação da sua presença orgânica e simbólica. Os atores fazem um trabalho exemplar, com destaque para Jennifer Lawrence que, qual borboleta, sai do casulo da cara bonita de Hollywood e entrega-se à ingratidão do mundo. “Parem!”, grita ela, enquanto a religião, o pecado, a adoração de falsos ídolos, a Igreja, a escravidão, a violência, a política, a irresponsabilidade ecológica, a problemática dos refugiados, o terrorismo, as redes sociais e a morte lhe entram casa adentro. Nesse transe catártico, mother! vira febre, um vírus audiovisual indecente e incendiário que se espalha a passo de tigre, a mais negra das negras comédias, puxa o grito de comoção e o riso sádico que nem pensávamos ter dentro de nós. Pena que no meio desse ensaio único e transcendente se encontre igualmente um péssimo filme.

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