Moonlight

‘Moonlight’, um fruto desconhecido

Moonlight tem vindo a tornar-se um caso preocupante. Todo o hype que o envolve tornou-se excessivo, político até, o que pode vir a ter consequências negativas na forma como os espetadores visualizam e interpretam o filme realizado por Barry Jenkins (Medicine for Melancholy). A verdade é que esta adaptação da peça de teatro ‘In Moonlight Black Boys Look Blue’ de Tarell Alvin McCraney não é o melodrama barulhento e miserabilista que muitos antecipam. Não nos enganemos. Ao invés disso, esta prima pela contenção e honestidade com que conta a história de Chiron, um rapaz negro que vive nos subúrbios de Miami e cuja alcunha é “Little”. Como um livro ao qual faltam vários capítulos, perseguimos Chiron por três fases da sua vida: a infância (Alex Hibbert), a adolescência (Ashton Sanders) e a idade adulta (Trevante Rhodes). Que nem um poema trágico que alterna entre momentos de tempestade tenebrosa e a excecional luz da lua, Moonlight, munido de uma paleta azulada e dos belíssimos rasgos musicais compostos por Nicholas Britell, agarra-se a nós que nem uma assombração. Um preparado de páginas soltas árduo de digerir sobre o impacto que a violência e o preconceito podem ter no crescimento dum indivíduo que se auto-flagela e transforma à imagem do que a sociedade espera de si. Mais especificamente, o fosso abismal entre o que um jovem que está a descobrir a sua homossexualidade quer e necessita, e o que o “homem afro-americano” tem de ser. Apresentado o conflito interior, a orientação sexual torna-se a base desta odisseia tímida sobre o sentimento de alienação dentro de uma comunidade já por si ostracizada.

Moonlight

Levado a cabo por James Laxton, deve desde logo salientar-se o excelente trabalho de fotografia. A maneira como a câmara assedia as personagens é singular, diferente do que se pode considerar tradicional. A sua influência, quer asiática, quer europeia, é bem-vinda, aparentemente inspirada em cineastas como Hsiao-Hsien Hou (Cikè Niè Yinniáng aka The Assassin) ou Claire Denis (35 Shots of Rum). A forma como certos elementos visuais transmitem noções adicionais sobre as personagens é sublime. Por exemplo, numa cena em que a mãe de Chiron, uma toxicodependente interpretada por Naomie Harris, grita com o filho, podemos ver uma luz néon cor-de-rosa vinda do seu quarto, o que, juntamente com cenas anteriores, nos permite tirar algumas conclusões em relação aos seus hábitos sem que estes sejam efetivamente mostrados. É de salientar também o trabalho competente do ator Mahershala Ali que consegue destruir uma série de estereótipos relacionados com o tal “homem afro-americano” dos subúrbios que usa o lenço na cabeça e ostenta uma quantidade excessiva de jóias, popularizado pela cultura hip pop e underground. Tudo neste filme é destinado a surpreender, sem que essa tentativa pareça maniqueísta ou sequer uma tentativa. A apontar, apenas algumas cenas exageradas, quase antiestéticas, pois ao ser-lhes retirada a profundidade de campo (fundo desfocado) é imposto um dramatismo que muitas vezes não existe. Como se todos os momentos do filme fossem extremamente graves, quando na verdade não o são.

Moonlight

O filme dirigido por Barry Jenkins surge no panorama sociocultural como um animal em vias de extinção, uma espécie em perigo. Sem ser particularmente emocionante ou chocante, consegue atingir um patamar onde poucos filmes habitam e coexistem. A sua capacidade de erguer questões profundas sobre as quais nunca havíamos refletido é desconcertante e a subtileza com que disponibiliza cargas gigantescas de conteúdo de semblante social sem nunca tecer uma opinião tangível é admirável. As mensagens e ramificações do filme estão encobertas na sua componente visual, o que o torna num grande desafio. Não basta ver, há que meditar e descortinar significados.

Existem filmes que nos ensinam algo de novo. Outros que contam uma história inédita. Por fim, existem filmes que nos transportam para realidades desconhecidas pelas quais vagueamos e tentamos estabelecer opiniões. Mais do que a ausência dum tom exclamativo, Moonlight é isso, um fruto desconhecido. Sumarento e exótico. Um território que ainda não havia sido explorado. Uma espécie de pioneiro que merece distinção reforçada pela visão arrojada que oferece numa indústria que atualmente carece de mensagens frescas e ousadas.

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