Mindhunter

‘Mindhunter’, em direção ao abismo

Entre 1972 e 1973, Edmund Kemper, também conhecido por “Big Ed”, iniciou uma série de homicídios que culminou no assassinato da própria mãe e da sua melhor amiga. Kemper costumava escolher estudantes universitárias que iam passear, levava-as para áreas isoladas e baleava-as, esfaqueava-as, sufocava-as ou estrangulava-as. Depois de mortas, levava os corpos para casa e utilizava-os para necrofilia, dissecação e esquartejamento. Em entrevistas, o homicida relatou que perseguia as suas vítimas femininas, após ser sujeito a várias humilhações por parte da sua mãe. Vários psicólogos apresentaram a hipótese de que os crimes do homem, que media mais de dois metros de altura, eram uma projeção dos atos vis que este pretendia infligir à sua mãe. Esta hipótese é também corroborada pelos acontecimentos da noite em que Kemper a decapitou, usou a sua cabeça para praticar sexo oral e, mais tarde, como alvo para atirar dardos. É este o cenário horripilante que o agente Holden Ford, interpretado por Jonathan Groff, tem perante si, conforme lê o perfil deste monstro da vida real e planeia entrevistá-lo. O que irá ele encontrar? Uma figura desconforme, corroída pela loucura? Um psicopata extremamente inteligente e ciente de si próprio? Ou algo bem mais complexo do que uma simples categorização binária?

Mindhunter

Baseada no livro ‘Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit’,  Mindhunter, série da Netflix criada por Joe Penhall, e que conta com a realização e produção de David Fincher, não demora a apresentar a sua premissa ambiciosa, pelo menos para os fãs do género criminal e procedural: sentar os seus protagonistas, dois agentes duma unidade especial do FBI, cara a cara com alguns dos psicopatas mais sádicos e violentos dos EUA. “Como nos antecipamos a um louco, se não sabemos como a loucura funciona?”, pergunta o parceiro do agente Ford, Bill Tench, interpretado por Holt McCallany, enquanto tenta vender os fundamentos desta missão em formato de entrevistas a um diretor do FBI bastante cético. Em 1977, ano em que se inicia esta narrativa, as forças policiais encaravam os criminosos que matavam de forma sucessiva como doentes irremissíveis, bestas entregues à insanidade à partida, nascidos para matar, “assassinos em sequência” como lhes chama o agente Ford, num momento delicioso de televisão, tão habituados a ouvir a célebre expressão que nunca havíamos pensado na sua origem. Sem qualquer surpresa, esta lá sairá da boca dum dos agentes, episódios mais tarde, num momento trivial, mais jargão debitado na formulação daquele que viria a ser na vida real o manual internacional padrão na abordagem a estes homens cuja mente não funciona da mesma maneira que a do ser humano normal, ou melhor, do ser humano que não mata desenfreadamente. O facto deste momento eureka ser tão deslavado é talvez um dos exemplos mais subtis do engenho desta série que ignora troféus supérfluos como bradar “serial killer” aos céus pela primeira vez e concentra-se antes numa questão bem mais profunda e interessante: como é que alguém se transforma num serial killer? Embora os dois protagonistas, os agentes Ford e Tench, sejam fictícios, a sua história é verídica. Por mais fábula sinistra que pareça, existiram mesmo dois homens, um deles pai de família, que percorreram os EUA de norte a sul a entrevistar alguns dos assassinos em série mais famosos de sempre: Edmund Kemper, o assassino de universitárias, David Berkowitz, mais conhecido como “filho de Sam”, Jerome Brudos, o homicida que adorava sapatos de mulher, Ted Bundy, o advogado que se estima ter morto cerca de 100 mulheres, Posteal Laskey Jr., o “Estrangulador de Cincinnati”, e, claro, Charles Manson, o líder do culto responsável pela morte da atriz Sharon Tate. A fartura é muita, o desconforto é constante. Entra-se, portanto, num formato de novela de narrativa contínua, atípico da maioria dos shows do género, em que cada ponta do enredo tem uma ponta gémea, em que cada circunstância tem a sua devida consequência. Desse modo, a história divide-se em três pontos fulcrais: primeiro, a roadtrip que os agentes Ford e Tench fazem pelos EUA com a missão de ir às esquadras locais ensinar os procedimentos desenvolvidos pelo FBI recentemente, onde eventualmente surgem os “crimes da semana”, aproximação ao formato televisivo padrão; segundo, o aproveitar dessas viagens como desculpa perfeita para impor o seu verdadeiro e primordial objetivo – visitar as prisões de alta segurança de cada região para entrevistar os serial killers; e terceiro, os arcos que se vão criando à volta das histórias desses sujeitos, que começam a servir, inclusive, para resolver os tais crimes mais corriqueiros através do estabelecimento de comportamentos padrão. Da teoria à prática.

Mindhunter

Desde logo, a impressão digital de David Fincher, qual criminoso descuidado que se esqueceu das luvas, está por todo o lado. Apesar de apenas ter realizado quatro dos dez episódios desta primeira temporada, o estilo visual estabelecido pelo realizador ao longo dos anos em projetos como Se7en (1995), Zodiac (2007) e The Girl with the Dragon Tatoo (2011) está sempre presente. Tudo começa na paleta de cores que divaga entre o amarelo e o azul. A presença da primeira é imposta fisicamente no cenário pela equipa de cenógrafos, como, por exemplo, em paredes, mobílias e objetos, ao contrário de muitas produções que usam luzes coloridas. O contraste entre estas duas cores, sendo ainda utilizados alguns tons esverdeados, dá-se principalmente em cenários fechados, como uma sala de estar onde um suspeito é interrogado, que têm visão para o exterior, geralmente através de janelas. É então executado um jogo inteligente entre o amarelo do cenário fechado, onde decorre a ação, e o azul que entra pela janela e oferece a luz do dia. Esta dinâmica, utilizada em muitas das cenas, serve para criar uma atmosfera opressiva e isolar as personagens, como se estivessem no Inferno, com o Céu ali tão perto. Nestas cenas, e também nos momentos noturnos, são utilizadas amiúde fontes de iluminação que se encontram visíveis no plano, como candeeiros de secretária, e que permitem criar uma exposição média, ou seja, evitam uma disparidade exagerada entre brilho e escuridão. Mindhunter reside nas sombras, incentiva o espectador a olhar para os pequenos detalhes que se escondem no canto duma sala ou em cima duma mesa aparentemente insignificante. Pois, quando o cérebro é estimulado para prestar atenção a tudo, entra em hiperatividade, cria-se uma sensação de alarme permanente. Para culminar, o uso exímio da câmara robótica digital, típica do trabalho de Fincher, que, em quase todas as cenas de diálogo, se vai aproximando lentamente do rosto dos atores, conforme as conversas vão evoluindo e a sua gravidade aumentando. Numa série que vive do diálogo e daquilo que é “dito” nas entrelinhas, ora não tivesse a equipa de agentes de interpretar subjetivamente muito do que os vilões dizem, era fulcral que estas cenas fossem filmadas de forma a captar essas nuances: filmar o que é dito, sugerir através da linguagem visual e corporal o que não é dito. Poder-se-á dizer então que esta série é talvez o pináculo dos sonhos mórbidos de Fincher e dos seus colaboradores, a derradeira nata da televisão moderna onde têm tempo para orquestrar os diálogos longos e incómodos que muitas vezes são apressados no cinema , qual submarino que se afunda em direção ao abismo. A cada minuto que passa, uma pequena luz parece surgir ao fundo desse vasto e infindável oceano, como se estivéssemos prestes a chegar à Atlântida perdida, só para, mais tarde, se confirmar ser mais uma miragem, pois, consoante mais respostas vão surgindo, mais dúvidas e incertezas aparecem. Uma máquina de conceitos psicológicos fascinante que é disparada em direção ao desconhecido, sempre a aventurar-se mais fundo na mente cavernosa destes assassinos, sem que o fundo seja realmente alcançado.

Mindhunter

No entanto, o grande triunfo deste projeto televisivo são os “espécimes”, tal como o assustador Kemper, interpretado pelo ator revelação Cameron Britton, se auto-intitula. O pico da ansiedade do espectador está sempre reservado para os encontros com os serial killers. Cada um com a sua história, com as suas taras, traumas e motivos. Cada um alvo duma encarnação competente e característica. E atento e extasiado, o ingénuo agente Ford os vai ouvindo, um herói que usa uma capa em forma de gravador e cuja arma é um caderno de apontamentos, pois a sua missão não é impor o toque gélido das algemas, mas sim tentar compreender estes seres humanos e o porquê dos seus atos – para evitar que, um dia, atrocidades semelhantes sejam cometidas. Mergulhamos igualmente nas psicoses da dupla de agentes, nas comparações que estes fazem entre si e os seus objetos de estudo, na ideia, com certeza aberrante para muitos, que o que separa uma pessoa normal de um serial killer pode ser um conjunto de escolhas erradas ou o simples e trágico facto de terem crescido numa família abusiva ou terem sofrido um trauma enquanto crianças ou adolescentes. Assim sendo, qual é a linha que separa um zelador da paz de um agente do caos? O que leva alguém, na sua grande maioria homens, a decidir matar dezenas de pessoas? Mais desconcertantes que estes dragões negros da vida real, aqui representados através dum ensaio ficcional, são as respostas subjetivas a que os dois agentes pioneiros vão chegando, apoiados pelas observações académicas da psicóloga Wendy Carr, interpretada por Anna Torv. A série, para além de reinventar o género procedural ao insistir, e bem, num respeitar egrégio destes antagonistas, torna-se relevante na discussão cada vez mais acesa e justificada à volta do abuso indevido de mulheres, visto que a maioria destes criminosos perpetuou os seus atos contra vítimas do sexo feminino indefesas. De forma muito subtil, examinam-se as construções sociais e demográficas que incentivam ou facilitam a violência contra mulheres. Porém, e é neste aspeto que este ensaio televisivo mantém a sua dignidade perante uma discussão tão sensível, todas estas ideias são fraseadas e demonstradas teoricamente, quer através de fotos e visitas às cenas do crime, quer através dum argumento cuidado. Quando a arte da palavra e da sugestão é elevada, a demonstração gratuita de violência torna-se uma necessidade secundária. Onde outros argumentistas optariam por chocar, o que às vezes também é necessário, Joe Penhall optou por incentivar a uma reflexão pertinente. Os horrores são sempre sugeridos, nunca demonstrados explicitamente. “Está à procura de sarilhos”, diz um agente da polícia local ao referir-se a uma mulher que se encontra num bar sozinha e vestida de forma sensual, após uma cena em que semelhante frase é proferida, mas saída da boca daquele que é considerado por esse mesmo agente um monstro degenerado sem escrúpulos. Para além da análise psicológica que é feita aos assassinos em série, em Mindhunter é feita, do mesmo modo, uma análise ao momento social que vivemos atualmente através da apresentação das realidades do passado, neste caso os anos 70 nos EUA – mudaram-se os tempos, nem por isso se mudaram as vontades. Como tal, com uma segunda temporada a caminho, e com a colaboração de David Fincher garantida, este ensaio gélido promete ser uma das séries de televisão mais oportunas desta geração. Uma que nos deixa a suspeitar de tudo e todos e que pode até ser considerada uma espécie de história de origem de algumas obsessões norte-americanas que, hoje em dia, tanto se fazem sentir. O pedaço de televisão que o fascínio cinematográfico e académico pela figura do assassino em série tanto exigia, uma gema imperfeita e por lapidar que pode muito bem vir a tornar-se um clássico da televisão moderna.

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