‘Midsommar’, uma incrível fornada de terror folclórico

Se bem que a sua carreira ainda seja curta, com apenas duas longas-metragens, poder-se-á afirmar que o maior interesse do realizador e guionista Ari Aster é gerar histórias excêntricas sobre seitas e cultos. ‘Hereditary’ (2018) mostrou a destruição de uma família da classe média graças à ação de uma maldição ancestral lançada por adoradores do demónio e, agora, ‘Midsommar’ aborda a desintegração progressiva de uma relação amorosa devido à interação com uma comunidade pagã. Como tal, a fortaleza dramática da narrativa está muito dependente da edificação de um par romântico, neste caso, Dani, interpretada por Florence Pugh, e Christian, interpretado por Jack Reynor.

Um dos poucos problemas do novo projeto deste ambicioso cineasta é a forma banal, dependente de estereótipos e suposições, como este constrói o vínculo entre estes dois protagonistas. Este desarranjo nota-se quando, na fase inicial do filme, ao invés de mostrar a intimidade do casal, este opta por colar uma imagem de indiferença ao namorado que poderia ser encontrada no mais corriqueiro filme de separação. Apesar de esta introdução ser bastante meticulosa e arrepiante, aprende-se muito pouco sobre este par em desagregação, esperando-se que, à custa de uma série de reparos simplistas, a audiência assuma que se está perante o vulgar namorado egoísta e pouco atencioso. Existe, portanto, uma substância fingida, um conjunto de traços reducionistas que servem de pretexto para o imaginário que vai surgindo ao longo da obra. Por outras palavras, o contexto emocional desta relação a dois é deficientemente exposto, funcionando esta como um caixa vazia onde é suposto o espectador colocar as suas próprias assunções, em vez de estas serem criadas organicamente. Em todo o caso, o que se segue é, por vezes, genial.

O tal namorado de má qualidade resolve convidar a companheira, uma estudante de Psicologia, para uma viagem à Suécia que apenas albergaria os seus colegas de curso, naquela que seria uma roadtrip masculina direito às beldades suecas e à comunidade secreta dos Harga, de forma a assistirem às suas comemorações do solstício de verão, celebradas a cada 90 anos. Os rapazes, estudantes de Antropologia, pretendem investigar os traços sociais e culturais desta microssociedade alheia aos tradicionais costumes, auxiliados por Pelle, um colega da universidade que, após fazer o convite, regressa então à terra onde foi criado. Por sua vez, a rapariga pretende desanuviar, fugir da realidade quotidiana, depois de ter sido sujeita a uma experiência traumática e dolorosa com largo impacto na sua vida pessoal.

Depois de uma viagem de automóvel a fazer lembrar o início de ‘The Shining’ (1980), o que encontram é efetivamente estranho, apesar de aceitável: um grupo de pessoas, de várias idades, que, escondidas da civilização considerada normal, vivem segundo as próprias regras, refugiando as suas crenças e hábitos numa combinação de elementos folclóricos e mitológicos de origem escandinava e germânica. De realçar, desde logo, o enorme trabalho do diretor artístico Henrik Svensson e do pintor Ragnar Persson. Desde as primeiras cenas que o filme está recheado de referências decorativas ao que está por acontecer. Por exemplo, as paredes de uma espécie de quarto comunitário onde os forasteiros dormem albergam desenhos medievais que sugerem elementos futuros da narrativa, como profecias que, de uma forma ou de outra, se abaterão sobre as personagens, criando uma fantasmagórica sensação de inevitabilidade — o mesmo acontece em ‘Hereditary’ através de uma casa miniatura.

O mesmo elogio pode ser feito ao trabalho de Andrea Flesch que criou as vestimentas nórdicas de cor branca que assentam que nem uma luva no peculiar grupo de aldeões que se dispersam pelos campos verdejantes, cumprindo as suas rotinas insólitas, conforme a banda sonora de The Haxan Cloak cria um fustigante clima de suspeição, mesmo que os anfitriões aparentem ser bastante afáveis.

Ao contrário do que se podia esperar, o terror desta aventura veraniça não nasce das sombras, nem da penumbra da noite, mas sim da clareza com que tudo acontece, iluminado pelo sol tórrido e incessante, visto estar-se numa região onde, nesta altura do ano, é quase sempre dia. Para filmar estas cenas diurnas, em parceria com o cinematógrafo e seu fiel companheiro Pawel Pogorzelski, o realizador usou objetivas grande-angulares de forma a obter um amplo campo de visão. Ao contrário do seu filme anterior, o objetivo não era ofuscar, mas sim mostrar o mais possível, da forma mais explícita possível, sem cair, no entanto, na armadilha do “kitsch”, ou seja, sem que o objeto de estudo parecesse falso ou uma imitação de outras referências eruditas.

Uma parte importante deste processo foi a utilização de lentes que permitissem que as cores escuras fossem ligeiramente suprimidas, fazendo com que os trajes brancos ganhassem brilho ao serem atingidos pelo sol, uma aura de deidade remanescente das fábulas sobre caricaturas míticas. Entre outros pormenores, é este castelo de detalhes técnicos que permite que esta se transforme numa experiência incomum, praticamente transcendental, mesmo que as armas dos bizarros anfitriões não passem de substâncias psicotrópicas naturais e uma amálgama de rituais que, na verdade, assentam em lendas nórdicas que podem ser investigadas nos livros da especialidade. Por sua vez, o cinéfilo mais calejado poderá encontrar alusões a obras longínquas e modestas como ‘Day of Wrath’ (1943) ou ‘Songs from the Second Floor’ (2000), sendo que a mais imediata recai sobre ‘The Wicker Man’ (1973).

Tal é a riqueza contextual, como um pêndulo que tudo hipnotiza, que é fácil ignorar os lugares comuns, típicos do género de terror, que vão surgindo. Por exemplo, a existência de um edifício onde não é permitido entrar ou ações altamente questionáveis por parte das personagens, mesmo considerando que estão sob o efeito de alucinogénios. Por mais prodigiosas que algumas cenas sejam, é inevitável que se gere alguma previsibilidade, despontando uma construção paradoxal, já que, esporadicamente, são as fascinantes pistas deixadas pelo realizador — quadros, pinturas nas paredes, mensagens subliminares — as causadoras dessa sensação.

Podendo ser encarado como uma óbvia alegoria sobre a crescente desanexação emocional e física de duas pessoas, a principal temática de ‘Midsommar’ é a comunicação humana e a importância da partilha de emoções. Aster fez questão de realçar esta asserção ao sobrecarregar a fase em que os estudantes ainda se encontram em solo norte-americano de meios de comunicação digitais, como SMS, chamadas e e-mails. Porém, quando estes chegam à aldeia pagã, as vias de comunicação são reduzidas a atos tão primitivos como dançar ou gritar.

Ademais, ao contrário dos jovens americanos, que exibem vários comportamentos individualistas, os aldeões aparentam partilhar todas as emoções entre si, desde a felicidade até ao desespero, adotando uma configuração de família gigante, como neurónios que se interligam dando origem a um só pensamento. Esta perceção de um espaço onde existe partilha faz com que Dani, cujos sentimentos são largamente subestimados pelo namorado, comece a encontrar conforto no meio da emergente monstruosidade que a rodeia. Por mais grotesca que seja a sua experiência ao encarar a brutalidade que vai assolando a narrativa, por mais que a desconfiança se faça sentir, a personagem não consegue largar este lugar onde finalmente é ouvida, onde se sente menos sozinha.

A orientação de Aster para este conceito é deveras relevante, visto vivermos numa época em que as pessoas cada vez mais se integram em movimentos de origem questionável devido a fatores como solidão, depressão ou desinformação — quando deixamos de nos sentir abandonados e desvalorizados, a razão e a verdade tornam-se relativas. No fundo, ‘Midsommar’ é também uma metáfora para a maneira como as seitas modernas são criadas e alimentadas, assumindo-se como espaços onde os seus membros podem obter atenção, afeto ou vantagem económica, mesmo que isso exija abandonar a razoabilidade ou odiar tudo o que está fora dessa bolha. E, claro, no meio desta exploração intelectual, encontra-se uma incrível fornada de terror folclórico, um inesquecível e macabro conto de fadas, um bouquet colorido onde se esconde um pesadelo surreal, assim como alguns momentos tão sádicos quanto caricatos.

Kubrickamente
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