‘Mary Queen of Scots’, potencial desperdiçado

“Enforquem-na!”, grita uma camponesa enfurecida, enquanto o padre, interpretado por David Tennant, mais político que outra coisa, profere uma enxurrada de mentiras relacionadas com os hábitos supostamente pecaminosos da rainha Mary Stuart da Escócia, encarnada por Saoirse Ronan, a líder dum povo que, aos poucos, se vira contra ela, facilmente influenciável pela tese da ‘rainha meretriz’. “Prendam-na!”, grita a multidão, totalmente inconsciente de que lhe são servidos factos alternativos, falsidades construídas à medida dos interesses de poucos, os poucos que querem poder e riqueza, e não uma rainha forte e independente, uma mulher ambiciosa. E como poderia existir tal coisa em pleno século XVI? Como poderia uma mulher desafiar o sistema patriarcal vigente? Ficaram então para a História, pelo menos nesta versão, as maquinações de homens mesquinhos. E outros momentos desta estirpe se repetem ao longo de Mary Queen of Scots, com um Beau Willimon, o criador da série House of Cards, deserto por explorar as potenciais justaposições entre a inevitável desgraça de Mary e a de muitos candidatos políticos da atualidade que, bem intencionados ou não, acabam por ver as suas aspirações cair por terra, vítimas de campanhas megalómanas de desacreditação. Por exemplo, se visitarmos o interior dos EUA nos dias que correm, poderemos encontrar milhares de cidadãos, talvez milhões, que acreditam que Hillary Clinton é amante de Barack Obama ou um dos cabecilhas duma enorme rede de prostituição infantil. O mesmo está a acontecer com Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem congressista norte-americana de sempre que tem criticado duramente um Partido Republicano composto essencialmente por homens brancos defensores de ideias retrógradas. De repente, multiplicaram-se as histórias sobre Cortez, umas verdade, outras mentira, com destaque para uma foto forjada do seu corpo desnudo ou várias teorias da conspiração partilhadas nas redes sociais. Numa das suas entrevistas, Cortez afirmou que o seu principal objetivo é taxar “os multimilionários que fazem toneladas de dinheiro pagando pouco aos trabalhadores”. Como tal, que se desenganem os que pensavam que o criador do maléfico Frank Underwood, a personagem principal de House of Cards, que muitos dizem ter antecipado a “Era Trump”, não iria aproveitar esta narrativa já batida sobre uma das mais famosas disputas pelo poder de sempre para construir um muro de referências à atualidade sociopolítica, com um piscar de olho aos movimentos feministas. Outro exemplo desta abordagem é a descrição da rainha Elizabeth I, interpretada por Margot Robbie, a regente cujo poder é ameaçado pela sua prima, a infame Mary Stuart, como uma mulher que necessita de se “transformar” num homem para conseguir governar, o que lhe valeu a alcunha de ‘rainha virgem’, já que esta considerava que um casamento marcaria o fim da sua autoridade. Através desta personagem, somos transportados para as dificuldades da mulher empresária em pleno século XXI. Bastará olhar para as listas dos mais ricos ou dos melhores empreendedores para perceber o quão reduzida é a presença feminina, num seio empresarial onde, em alguns setores, engravidar ainda é visto como uma espécie de desvantagem ou fraqueza. Como tal, Mary Queen of Scots, realizado por Josie Rourke, mais conhecida pelo seu trabalho no mundo do teatro, é um filme ávido por apresentar ao espectador um espelho para o mundo de agora, na tentativa de que nos indignemos com a forma como a nossa sociedade pouco mudou – no máximo passámos do analógico para o digital, dos pergaminhos para o Facebook. O problema: o filme padece duma falta de ritmo quase catastrófica, focando-se demasiado num interminável jogo de traições e numa demanda descarada por ilustrar uma corte multicultural que, de acordo com a maioria dos historiadores, não existiu. O resultado dessa distorção dos relatos históricos – por exemplo, Elizabeth tem uma aia de origem asiática, Mary Stuart tem um servo homossexual que deambula pelos seus aposentos e um dos principais elementos da corte inglesa é negro – faz com que a obra se torne algo contraditória, hipócrita até. Ao mesmo tempo que aludem à problemática da distorção da verdade, as ’fake news’ do antigamente, Willimon e Rourke, baseados no livro «Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart», tentam reconfigurar a História adicionando-lhe elementos nunca comprovados, em harmonia com a premência de agradar a um público mais vasto e pluridimensional. Nasce, portanto, a necessidade de se avaliar esta obra não tanto como uma biografia totalmente fidedigna, mas mais como uma exploração revisionista da forma como o mundo, por mais séculos que atravessemos, continua a ser alimentado por fenómenos socioculturais idênticos, apenas diferenciados pelo avanço tecnológico e ideológico.

Mary Queen of Scots

Os ditos jogos de poder desenrolam-se num ecossistema claustrofóbico, com os palácios e as salas da corte a adquirirem cores amareladas ou escuras, a fazer lembrar os corredores geométricos onde Underwood cravava as suas garras nos seus adversários, em surdina, nos vãos de escada. Porém, fica a impressão que o efeito pretendido, quase à imagem dum thriller político, nunca é alcançado, sobrando as migalhas de conversas relativamente bem escritas, mas filmadas por John Mathieson duma forma algo estéril, nunca sobressaindo o nervosismo extraído das maquinações de bastidores ilustradas por algumas obras de referência – o torpor pode agigantar-se face à ausência de curiosidade. O mesmo acontece quando as cenas são transferidas para as planícies escocesas, esbeltas e vastas. Por mais que a banda sonora competente de Max Richter se faça ouvir nesses momentos, nunca nasce uma sensação de épico, de aventura ou desafio. Está-se perante um trabalho que não pode ser considerado deficiente, mas antes carente de inspiração, ressaltando uma estranha, quase inexplicável, falta de cadência entre os vários planos, um ser vivo de boa saúde cujo pulso nunca acelera por mais que corra e salte. Por outro lado, os figurinos ganham relevo, com destaque para a soberba caracterização das duas personagens principais, quase recorrendo ao folclórico no caso de Elizabeth, sofrendo esta ao longo do filme uma transmutação progressiva duma jovem bela e insegura numa mulher altiva e fria. Ronan e Robbie, duas das atrizes mais promissoras do presente, fazem um trabalho magistral na elevação do material que lhes foi fornecido, salvando o filme daquele que seria um enfado bastante comprometedor. Nos próximos anos, tanto uma como a outra, certamente farão as delícias dos cinéfilos, pois demonstram uma maleabilidade artística enorme, a acrescentar a isso uma presença atraente e impactante. Ambas são a alma deste Mary Queen of Scots, um filme que, apesar de estar repleto de conceitos interessantes e sumarentos, não consegue fazer sobressair o seu lado mais cerebral e ligeiramente metafórico, sobrando uma narrativa lenta e um pouco descuidada, apenas salva pela fogosidade duma última meia-hora, essa sim, empolgante. No fim, há mais espaço para refletir sobre o que este filme poderia ter sido, talvez nas mãos dum realizador mais experiente e esclarecido, e não tanto sobre o travo a desilusão que sobra, um claro caso dum enorme potencial desperdiçado.

Bom

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