‘Marriage Story’, um novo acordo de convivência

Se bem que seja uma realidade difícil de enfrentar, é razoável afirmar que no seio de cada casamento reside o potencial para a autodestruição. Surgem sempre problemas, imprevistos, divergências, tentações e, por vezes, com o passar do tempo, alteram-se prioridades e comportamentos. E cabe a cada casal contornar as armadilhas que podem levar a essa desgraça marital, o divórcio.

Num dado diálogo de ‘Marriage Story’, realizado e escrito por Noah Baumbach, esse processo doloroso é descrito como uma “morte sem corpo”, um lago negro onde é praticamente impossível ambas as partes não se afogarem no lodo da indústria do divórcio. Por melhores que as intenções sejam, as instituições legais estão montadas de forma a que os casais em desavença se devorem até ao osso, sobrando, no fim, uma pútrida folha de cálculo onde um ganhou e o outro perdeu, depois de terem sido atiçados por advogados sedentos de cheques encharcados em lágrimas.

Nicole, interpretada por Scarlett Johansson, e Charlie, interpretado por Adam Driver, estão nesse barco, numa viagem sem regresso em direção a um desfecho imprevisível. Visto terem um filho em comum, pretendiam levar a separação a cabo de uma forma pacífica e consensual, porém, essa intenção desvanece-se rapidamente quando, em conversa com os seus advogados, são confrontados com a terrível hipótese de o ex-parceiro, estando a custódia da criança em jogo, poder enveredar pela via do conflito, mesmo depois de anos de intimidade e convivência: pequenas frases do passado obtêm um peso dantesco, os segredos passam a ser armas de arremesso.

Ao serviço da exposição do lado absurdo do divórcio como processo legal, o realizador usa a comédia negra como principal aliada, dando espaço aos advogados, encarnados por Laura Dern e Ray Liotta, para exporem as táticas bélicas aos seus clientes, pondo a nu algumas regras que mais parecem ter sido inventadas para dificultar a vida aos cidadãos que queiram pôr fim a um casamento. Não será coincidência que os seus escritórios tenham sido filmados e decorados de maneira a exaltar uma sensação de alienação e ameaça, como se aquelas divisões em particular tivessem sido retiradas de outro filme qualquer, de uma realidade alternativa. Na lua-de-mel, ninguém imagina que, um dia, poderá ir parar a esse palco distópico.

Nicole foi viver com o filho para a casa onde cresceu em Los Angeles, com o intuito de relançar a sua carreira de atriz numa série de televisão de ficção científica. Como resultado, Charlie, um talentoso produtor de teatro, tem de repartir os seus esforços entre seguir a sua vida profissional em Nova Iorque, cidade onde gere a sua companhia de teatro, prestes a estrear uma peça na Broadway, e visitar o seu filho em Los Angeles, com o qual tenta manter uma relação minimamente saudável. Baumbach usa esta situação para metaforizar o muro que começa a erguer-se entre os dois protagonistas, aproveitando-se da velhinha discussão americana que opõe Los Angeles a Nova Iorque ou Hollywood à Broadway. Para mais, em contraste com os dois lares acolhedores, a casa da família em Nova Iorque e a casa de infância em Los Angeles, o apartamento que Charlie aluga em Los Angeles para poder conviver com o filho em privado está decorado de uma forma impessoal e em tons amarelados, representando o quão deslocado este se encontra da sua lide quotidiana e zona de conforto.

Ao contrário de alguns dos seus filmes anteriores, em que o realizador se foca bastante na ilustração dos cenários que rodeiam as personagens, apostando num leque variado de planos abertos e médios, neste novo trabalho, este apostou mais em planos fechados, talvez na tentativa de encontrar significado nas expressões dos atores à sua disposição. É impossível não pensar em ‘Persona’ (1966), da autoria de Ingmar Bergman, duplicando-se a forma como os rostos são enquadrados dentro de uma ação específica, quase como se o filme se transformasse num conjunto de retratos movediços. Esta tendência é notória numa cena em que Nicole, num monólogo depressivo, expõe à sua advogada os motivos que a levaram a pedir o divórcio, naquele que é talvez um dos momentos altos da carreira de Johansson, atriz que claramente necessita de se libertar das amarras dos estúdios da Marvel. No que lhe concerne, Driver faz um trabalho excecional, veiculando o sofrimento de um homem levado ao extremo, mesmo tendo feito todos os possíveis para manter a serenidade.

Outro pormenor técnico que eleva a obra ao patamar da excelência é a aproximação progressiva da câmara aos rostos dos protagonistas conforme a gravidade das discussões se acentua. Num minuto, o espectador está a ver duas pessoas calmas sentadas numa sala, no minuto seguinte, está preso aos olhos avermelhados e lacrimejantes de inimigos que disparam insultos impensáveis um contra o outro.

Todavia, a melhor característica de ‘Marriage Story’ é a autenticidade e a maneira cuidada como Baumbach afasta as suas personagens dos rótulos fáceis da atualidade. Não existe vilão ou herói, apenas seres humanos, com virtudes e defeitos, a cometerem erros. As pessoas que já passaram por esta experiência devastadora na vida real poderão encontrar nesta narrativa uma monumental catarse, ao passo que o espectador de ocasião tem material suficiente à sua disposição para compreender a complexidade emocional da situação descrita. Com um humor a fazer lembrar as melhores viagens de Woody Allen, notando-se alguma autoreferência — podem morar aqui resíduos do seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh —, o cineasta relembra e reafirma que não existe vitória no divórcio, apenas uma mudança drástica, a desintegração de um laço que se queria duradouro. E, quando isso acontece, tal como o título da obra sugere, talvez a solução seja olhar para a história do casamento, com outros olhos, com outra perspetiva, para que um novo acordo de convivência possa ser encontrado.

Kubrickamente
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