‘Lovecraft Country’ vagueia entre a desordem e a genialidade

Como tantos jovens que cresceram no século XX, o protagonista de ‘Lovecraft Country’ consome entretenimento que o seu pai carrancudo considera pueril e, do ponto de vista de um afro-americano, desadequado. A explicação é simples: muitos dos livros de ficção científica, terror e fantasia que este lê são escritos por caucasianos e, inadvertidamente ou não, estão repletos de estereótipos raciais.

É o caso de H.P. Lovecraft, escritor que, no século XIX, revolucionou o género de terror, ao adicionar-lhe elementos típicos da ficção científica e fantasia, ficando conhecido por contar histórias cínicas e pessimistas, onde se destaca a hostilidade do universo face ao ser humano padrão. Lovecraft também era um óbvio racista. Para justificar tal acusação, bastará recorrer ao poema da sua autoria, ‘On the Creation of Niggers’, em que este descreve pessoas negras como “bestas” e “semi-humanos”. A maioria dos seus livros assenta na teoria de que o nosso universo é nada mais que uma pequena bolha à volta da qual existe um vasto cosmos caótico e violento. Quando as suas paredes são violadas, entidades monstruosas com um apetite voraz provocam o pandemónio, uma subtil metáfora para os sentimentos do autor em relação à imigração.

Ironicamente, e fomentando algum irrealismo, a série da HBO, baseada no livro homónimo de Matt Ruff, inverte a retórica lovecraftiana e congemina uma América onde, a qualquer momento, em qualquer local, o cidadão afro-americano, no auge da segregação, pode ser alvo de um ataque brutal e lunático. Os monstros são os supremacistas brancos, o que, na década de 50, englobava uma parte considerável da população norte-americana.

Todavia, tem-se simultaneamente uma homenagem, visto a série usar com orgulho os apetrechos popularizados pelo escritor: monstros sobrenaturais, cultos esotéricos, feitiços, mansões assustadoras, livros de magia e segredos sombrios. Ao contrário dos heróis engendrados por Lovecraft, homens caucasianos e eruditos que descobrem, aos poucos, que o universo não gira à sua volta e é mais vasto do que eles supunham, os aventureiros de ‘Lovecraft Country’, na condição de afro-americanos, sabem desde o primeiro minuto que o estranho universo para o qual vão ser atirados não funciona de acordo com as suas vontades ou sonhos. Eles estão habituados a sentarem-se na parte de trás do autocarro e a beber café na secção para “pessoas de cor”. No fundo, sabem desde o primeiro instante que, independentemente do desafio, haverá sempre uma bota pronta a pisá-los.

É neste ambiente que Atticus, um veterano de guerra na casa dos trinta interpretado por Jonathan Majors, após reunir várias pistas, decide rumar, desde o seu bairro em Chicago, às terras perigosas do Massachusetts em busca do seu pai desaparecido. Consigo leva o tio, interpretado por Courtney B. Vance, o criador do ‘The Safe Negro Travel Guide’, uma clara referência ao “Green Book” popularizado pelo recente vencedor do Óscar de Melhor Filme, e Leticia, mais conhecida por “Leti”, uma amiga de infância interpretada por Jurnee Smollet. É fácil adivinhar que a viagem vai mudar por completo as suas vidas.

Após um episódio-piloto muito promissor, os problemas da série começam a surgir com um segundo episódio vertiginoso em que as mitologias fulcrais da história são contextualizadas a uma velocidade alucinante, edificando-se uma narrativa cujas fundações apresentam alguma fragilidade. A partir desse capítulo estonteante, a série vagueia entre a desordem e a genialidade.

Por um lado, as decisões dos protagonistas e reviravoltas do enredo são, por norma, pobremente expostas, com diálogos babélicos e sobrecarregados de detalhes, podendo dar-se o caso de alguns espectadores sentirem-se algo confusos, tal é a quantidade de termos que lhes assaltam o pensamento. Ademais, a construção das personagens principais deixa algo a desejar. Quem são estas pessoas quando não estão a combater cefalópodes assustadores, racistas tacanhos e a tentar decifrar textos ancestrais? Em alguns momentos, parece que estas funcionam apenas como um veículo para o comentário social, e não como seres emocionais e racionais. O mesmo acontece com os vilões, mais caricaturas que outra coisa — a principal antagonista parece tirada de um panfleto nazi a promover a raça ariana —, com motivações genéricas como alcançar a imortalidade. Como resultado, em alguns momentos, por mais dolorosa que a sua experiência esteja a ser, parece que apenas nos ligamos aos heróis por obrigação moral, porque o racismo que os rodeia é abominável, e não porque nos sentimos apegados à sua existência ficcional.

Por outro lado, a série faz esquecer essas imperfeições com uma descomunal dose de terror racial, misturada com uma refrescante alegorização da experiência afro-americana em meados do século XX. O guião, escrito pela criadora Misha Green, consegue enquadrar os assuntos mais relevantes da altura, do ponto de vista de um negro, no contexto sobrenatural do enredo, abrindo-se espaço para a exploração do trauma histórico, social e espiritual que acompanha o cidadão afro-americano, tanto em cenários e eventos reais como imaginários. Por exemplo, um episódio gira à volta da morte de Emmet Till, um jovem negro de 14 anos que foi brutalmente assassinado depois de, supostamente, ter assobiado a uma mulher branca.

Outro pormenor interessante é o facto de as personagens poderem incorporar os exploradores sobre os quais sempre leram. A série reclama a literatura popular para si, onde os negros, por regra, nunca são os heróis. Desde referências à fantasia sobrenatural, como a revista ‘Weird Tales’, passando pelas bandas desenhas sobre super-heróis, até às histórias de aventuras da Era Eduardiana, como ‘Allan Quatermain’ ou ‘Prisoner of Zenda’, é possível encontrar uma enorme panóplia de referências à ficção popular.

Quanto aos aspetos técnicos, a série, filmada por Robert McLachlan e Michael Watson, evoca um visual anamórfico, proporcionado pela Venice, uma câmara da Sony que possibilita filmagens em 6k e 60fps. Esta escolha permite que todos os episódios tenham um aspeto cinemático, digno de alguns blockbusters de topo, o que se justifica tendo em conta a ambição de atacar três géneros cinematográficos em simultâneo: ficção científica, fantasia e terror, havendo ainda a necessidade de enquadrar as imagens num retrato de época. Conforme a narrativa se desenrola, é possível encontrar planos que se assemelham imenso a fotografias icónicas da época, tiradas por fotógrafos como Gordon Parks, Fan Ho, Harold Feinstein ou Fred Herzog, que são famosas pela forma como conseguiram captar cenários amplos ao mesmo tempo que se focavam em interações íntimas.

A banda sonora e efeitos adjacentes também enriquecem a experiência, com as personagens a deambularem ao som de músicas da época ou de discursos marcantes da autoria de pensadores e autores negros. Numa cena em que a vida de Atticus está em risco, podemos ouvir ‘Whitey on the Moon’ de Gil Scott-Heron, um poema cantado sobre a pobreza vivida pela comunidade afro-americana, e não só, enquanto o governo gastava milhares de milhões de dólares nas missões Apollo, que culminariam na chegada de Neil Armstrong à Lua. Estas adições fornecem o peso histórico pretendido, como um lamento que ecoa geração após geração.

No fim, os aspetos positivos de ‘Lovecraft Country’ suplantam os negativos. Mesmo que alguns dos seus elementos narrativos sejam algo inconsistentes, esse fator é amenizado pelo dedo que aponta ao país quimerizado por pessoas como H.P. Lovecraft, uma nação onde, ainda hoje, um horrível abantesma jaz adormecido, à espera do assobio que o faça despertar. Os monstros não desapareceram, as suas ideias estão vivas.

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