‘La La Land’, um poema dedicado aos sonhadores

“Esta é para os tolos que sonham”, canta Mia (Emma Stone) num dos momentos mais emocionantes de La La Land. E é ainda a cantarolar repetidamente este verso que este exercício crítico, que tem tanto de ingrato como necessário, é feito. Raramente surgem filmes que despoletam uma mistura tão vasta de sentimentos no espetador, de tal forma que se torna penoso apontar-lhes falhas, mesmo que estas dêem um ar de sua graça, como é o caso. Nada é perfeito, e esta obra transmite essa mesma mensagem através da exploração de temas universais e dores comuns. Engane-se o leitor que acha que ao ser atribuído o estatuto de essencial a este filme, tal apreciação o desprovê de defeitos. La La Land tem defeitos, imperfeições, clichés, e pode até não agradar a todos com a mesma intensidade. Contudo, tudo isso parece supérfluo em contraste com o entusiasmo e alegria agridoce que esta ode aos clássicos de Hollywood e à música desperta. Por vezes, há que saber relaxar e meter todos os pretensiosismos e indisposições de lado e simplesmente usufruir. La La Land é diversão,  música, emoção, talento técnico e visual, melancolia. Duas horas de um cinema que já não volta.

Ryan Gosling and Emma Stone

Realizada por Damien Chazelle, que já havia surpreendido anteriormente com o estrondoso Whiplash (2014), estamos perante uma homenagem à vibe irresgatável dos clássicos musicais. Relembrando tudo o que já foi produzido dentro deste estilo, pode afirmar-se que Chazelle, não obstante a execução competente, não criou nada de novo. Porém, a mensagem que transmite é importante: às vezes é necessário voltar atrás no tempo e dar um passeio pelo que foi o passado, às vezes é preciso recordar. Enquanto que o filme protagonizado por Miles Teller se centra exclusivamente num jovem baterista obcecado por ir longe no mundo da música, La La Land aponta para as estrelas e leva-nos numa viagem nostálgica pelas calçadas de Los Angeles a reboque de uma aspirante a atriz que acumula audições falhadas e um pianista que sonha em abrir o seu próprio clube de Jazz. Quem viu Crazy Stupid Love (2011) certamente se recorda da cena em que Ryan Gosling e Emma Stone fazem uma imitação caseira de um dos momentos mais marcantes de Dirty Dancing (1987). Aí, para além de uma adoração desmedida pelos abdominais de Gosling, nasceu uma química inegável que serve provavelmente de catalisador para a escolha destes dois atores que cantam, dançam, tocam instrumentos, e nos presenteiam com uma performance sincera e até desajeitada em certos momentos, o que os humaniza no meio da cor e extravagância típicas de um musical. Emma Stone em particular é arrebatadora. A forma como nos agarra e transporta para uma reflexão sobre aquilo que somos e sonhamos é um feito gigantesco, pois no meio do tom descontraído , esta consegue, através duma interpretação sentida, que o filme se torne igualmente numa experiência comovente e intimista a todos os níveis. As referências aos clássicos são muitas, como Singin’ in the Rain (1952) ou Rebel Without a Cause (1955), e muitas das sequências primam pela semelhança com cenas icónicas. Toda a atmosfera e envolvência é desenhada de forma a criar familiaridade. É frequente darmos por nós a pensar “já vi isto em qualquer lado”. Porém, apesar da homage à indústria cinematográfica, a película filmada em CinemaScope (técnica de filmagem dos anos 50 e 60 que usa lentes anamórficas) não deixa de criticar a máquina megalómana e desumana em que Hollywood se tornou nos últimos anos.

O guarda-roupa, os cenários, a banda sonora, o sentido de humor, os planos pitorescos da paisagem hollywoodesca, as cenas filmadas num único take em que podemos perceber que Gosling está realmente a tocar piano. A cumplicidade contagiante que partilhamos com os protagonistas. A lágrima que ameaça invadir o nosso rosto quando enfrentamos os enormes olhos de Stone enquanto esta despeja o que lhe vai no coração. Uma lista infindável de pormenores que poderiam ser alvo de reparos, mas que nos limitamos a apreciar. É esse o grande triunfo deste musical, a capacidade de nos absorver e desligar do que está lá fora e, ao mesmo tempo, nos fazer debruçar sobre o nosso interior. Apaixonados pela sétima arte, cinéfilos dos pés à cabeça, criaturas a quem a música e o cinema corre nas veias, cidadãos de coração quente que procuram uma lufada de ar fresco, pessoas cujo salgado da lágrima já se misturou com o almíscar do suor, ide ao cinema. La La Land vale a pena. É um hino aos lutadores. Um tributo sentido ao que já não volta. Um poema dedicados aos sonhadores.

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