Kingdom

‘Kingdom’, a jaula como refúgio

O retrato de lutadores obstinados em busca de glória ou redenção é um tema recorrente do Cinema. Desde ‘Rocky’ (1976), o grande catalisador da explosão do género, ‘Raging Bull’ (1980), a obra aclamada de Martin Scorsese, até abordagens modernas como ‘Million Dollar Baby’ (2004), ‘Cinderella Man’ (2005) ou ‘The Fighter’ (2010), os filmes sobre os desportos de combate, pelo menos os mais bem-conseguidos, e talvez pela tradição e ancestralidade da modalidade, têm-se concentrado inequivocamente no boxe.

Todavia, conforme as Artes Marciais Mistas, que muitos podem conhecer pela sigla MMA, foram ganhando destaque ao nível internacional, muito graças à proliferação da empresa UFC, os cineastas interessados na temática começaram a derivar a sua atenção para esta modalidade e para as suas implicações dramáticas. Após algumas tentativas iniciais, algo corriqueiras, de trazer este conteúdo para o grande público, eis que, em 2009, o realizador Gavin O’Connor pegou em Tom Hardy e Joel Edgerton, dois atores em clara ascensão, convenceu-os a treinar afincadamente durante vários meses e lançou-os para a jaula octogonal onde deram o corpo ao manifesto na produção daquele que se tornaria um dos filmes do género mais amados de sempre, ‘Warrior’ (2011). Um dos grandes motivos do seu sucesso, apesar do despropósito de algumas cenas de combate onde a personagem de Hardy despacha adversários em menos de dez segundos, foi a captação do drama humano que envolvia os lutadores e a forma como aquele tipo de luta permite a transladação dos seus sentimentos para o espectador — o uso da luta para exteriorizar os conflitos internos das personagens. “Desiste Tommy. Desiste. Eu amo-te”, grita o lutador interpretado por Edgerton, enquanto o seu treinador, interpretado por Frank Grillo, o instiga a não ter misericórdia do irmão.

Um nó na garganta do espectador que serviu para demonstrar uma doce realidade: as MMA têm um potencial cinematográfico enorme e oferecem-se como uma alternativa atraente para os amantes do género sobrecarregados pelos filmes sobre pugilistas. Dois anos passaram até que Byron Balasco, consciente deste potencial e da realidade dos bastidores da MMA, convidou Grillo para interpretar Alvey “King” Kulina, um ex-lutador e lenda das MMA, proprietário dum ginásio onde treina uma equipa de lutadores, a Navy Street. Nascia ‘Kingdom’, um dos dramas televisivos mais autênticos dos últimos anos.

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Esperados o típico enredo sobre a superação das dificuldades inerentes ao desporto e os lugares-comuns do género, a série surpreende desde o início pelo agregado de personalidades excêntricas que apresenta e pela sinceridade com que aborda a sua conjetura social. Alvey, com Grillo num registo mais asneirento que o utilizado em ‘Warrior’, luta contra a depressão e um passado marcado pelo abuso de substâncias, ao mesmo tempo que tenta gerir o seu “reino” onde serve de monarca e figura de referência para as personagens desajustadas que o rodeiam. O seu pupilo de eleição, o ex-campeão mundial Ryan Wheeler (Matt Lauria), é um indivíduo traumatizado, acabado de sair da prisão, a sua namorada Lisa (Kiele Sanchez) é a ex-namorada de Wheeler, a sua ex-mulher (Joanna Going) é uma prostituta toxicodependente, o seu filho mais novo Nate (Nick Jonas) enfrenta uma crise de identidade sexual e o seu filho mais velho Jay (Jonathan Tucker) é um comboio que viaja a alta velocidade na direção de um descarrilamento atroz e imprevisível, apesar do seu talento nato para a prática de artes marciais.

Dentro deste grupo de personagens, todas elas bem construídas e incorporadas, há que destacar o excelente trabalho do ator Jonathan Tucker. Jay Kulina é uma personagem de elite, um ladrão de cenas, carismático e complexo, possuidor de um alcance dramático raro de ser visto, como se o ator e a caricatura do jovem problemático que encarna entrassem em simbiose artística, quase como se Tucker tivesse nascido para o papel. Esta personagem funciona também como arquétipo da questão principal da série: o que paira na cabeça de alguém que vive para tentar exterminar outro ser humano dentro duma jaula para entretenimento de milhares?

Na resposta a esta pergunta, o drama do lutador comum é exemplificado de uma forma responsável e sincera. Prova disso é a participação de vários lutadores, treinadores e jornalistas ligados à modalidade, assim como as visitas ocasionais ao estúdio do presidente da UFC, o ex-lutador Dana White. ‘Kingdom’ relembra eficazmente que a maioria dos lutadores, muitos deles fora da elite contratual da UFC, passa por dificuldades emocionais e financeiras, dor constante, verdadeiras odisseias corporais para “cortar” peso e problemas ligados ao álcool e às drogas, substâncias a que muitas vezes recorrem para combater os demónios trazidos pela profissão.

Nos 40 episódios a que a série teve direito, até ser cancelada devido a uma injusta falta de espectadores assíduos, vítima do sistema de subscritores da DirectTv, é raro o episódio em que não se assista a sequências dedicadas ao treino técnico e físico dos lutadores, existindo sempre uma ligação visual e sonora entre o confronto físico e o estado de espírito das personagens — a jaula como refúgio e catapulta de emoções e frustrações para o exterior.

Arrepiando por esta questão, as cenas de combate são satisfatórias, bem filmadas e aproveitam-se dum jogo económico entre os planos médios dos lutadores e os rostos preocupados dos que se encontram de fora. Em acrescento, o trabalho físico dos atores é impressionante, sendo estes facilmente confundíveis com lutadores de verdade, tal é a fluidez com que se gladiam e a robustez dos seus corpos secos e musculados. Tendo em conta o orçamento reduzido, a série é uma vitória incontornável ao nível criativo que, provavelmente, obteria um número elevado de fãs, caso fosse produzida e transmitida por um dos canais ou serviços de streaming mais populares.

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Todavia, o fulgor da série de Balasco reside no quadro social que apresenta. Com as lutas de MMA como pano de fundo, temas como as relações familiares, o alcoolismo, a toxicodependência, a prostituição, a sexualidade ou a depressão vão sendo explorados de uma forma realista e crua, dando lugar a vários momentos comoventes e inesperados. A grande proeza desta obra original é a forma como, no meio de um panorama trágico, consegue evitar por completo o tom melodramático que costuma habitar este tipo de projetos. Para isso, conta com um argumento inteligente repleto de frases relevantes e monólogos marcantes, geralmente atribuídos às sessões de psicanálise de Alvey Kulina, que se revela um protagonista sábio, apesar de, na prática, o seu comportamento ser errático.

Partindo da conduta cinzenta desta personagem principal, a série consegue o exótico feito de nenhuma das suas figuras principais ser excessivamente odiável ou adorável. A ambiguidade é rainha suprema, não existem heróis ou vilões, somente pessoas danificadas que tentam combater os fantasmas do passado e uma disposição social adversa, onde os problemas domésticos, as dívidas, a criminalidade e a degradação das condições de vida em geral são uma sombra persistente e visível.

É de louvar igualmente a maneira como a homossexualidade de Nate, tema raramente explorado neste tipo de projetos, é abordada através de uma arquitetura narrativa frontal e causadora de debate. A personagem de Jonas, que se revela um ator competente, funciona como ponto de partida para a discussão sobre os preconceitos presentes no desporto de alta competição, meio onde, em certas modalidades, ainda existe um modus operandi bastante machista e inflexível, como a série corajosamente demonstra.

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Qual sociólogo, Balasco vai ao fundo dos mitos e linguagens desta comunidade que opera segundo a ancestral lei do mais forte, ilustrada por um refogado televisivo picante onde uma noção distorcida de carpe diem funciona como uma malagueta escondida, à espera de ser trincada e amaldiçoada. Porém, apesar da simplicidade típica de um baixo orçamento e uma ligeira exposição gratuita do corpo feminino, no fim, a refeição será completa, um prato onde cada soco, ferida, discussão, grito de raiva e shot de vodka tem sabor a humanidade. ‘Kingdom’ é essencialmente uma história sobre os instintos destrutivos de um grupo de homens que vivem de acordo com um código insólito para quem a jaula serve de abrigo psicológico, assim como modo de subsistência numa sociedade cruel e injusta.

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