‘Kalifat’, uma ratazana devoradora

As fotografias foram publicadas em jornais por todo o mundo. Três adolescentes sorridentes, Kadiza Sultana, Amira Abase e Shamima Begum, percorrem o aeroporto de Gatwick, Londres, em fevereiro de 2015. Quem olhar para as imagens sem contexto pensará o óbvio: três jovens normais que, provavelmente, vão passear ou visitar algum familiar numa região distante. Algumas horas mais tarde, foram filmadas numa estação de autocarros em Istambul. Depois, partiram numa viagem de cerca de 17 horas até à fronteira com a Síria. Nunca mais foram vistas a sorrir. São agora relembradas como as “noivas jihadistas”, após terem sido obrigadas a casar com membros da ISIS, na parte ocupada da Síria. Entretanto, veio a saber-se que Sultana, que desejava intensamente voltar a casa, morreu vítima de um ataque aéreo na cidade de Raqqa. De acordo com os dados reunidos até ao momento, dos 800 britânicos que já se juntaram ao Estado Islâmico, 100 eram do sexo feminino, com uma média de idades a rondar os 15 anos, sendo que algo semelhante acontece noutros países europeus. É este o ponto de partida de Wilhelm Behrman, o criador de ‘Kalifat’, um drama sobre as ramificações do Estado Islâmico (EL) na Suécia.

No entanto, a série sueca, disponível na Netflix, não vai direta ao assunto, atirando antes o espectador para o clássico enredo sobre terrorismo em que uma personagem atormentada quer fugir das garras do sistema opressor. Portanto, a audiência é apresentada a Pervin, interpretada por Gizem Erdogan, uma mulher sueca que, após a radicalização, vive em Raqqa com o seu marido, também ele de origem nórdica, um militante do EL interpretado por Amed Bozan. Ela, a amamentar uma frágil criança, vive apavorada com o pesadelo que a rodeia, longe da subsistência idílica que lhe foi prometida, em comunhão com Deus e em paz. A não ser que seja com ajuda externa, fugir é praticamente impossível, visto as mulheres raramente andarem sozinhas na rua e o castigo para esse delito ser fatal. Como tal, após deitar as mãos a um telemóvel contrabandeado, Pervin consegue entrar em contacto com uma agente da unidade antiterrorista sueca encarnada por Aliette Opheim. O resultado dessa interação é um thriller fulminante com vários pontos de impacto.

O objetivo de Wilhelm é claro: criar um imaginário em que o público se possa basear quando, episódios à frente, a temática da radicalização de adolescentes ganhar preponderância, graças à exploração do comportamento de um trio de jovens dentro do qual se destaca Sulle, interpretada por Nora Rios. A angústia vivida por Pervin na Síria é o destino que as aguarda caso realmente decidam juntar-se ao EL, mesmo que, no seu pensamento, de acordo com o que lhes foi dito, se dirijam para um mundo melhor, onde podem usufruir da liberdade religiosa que, supostamente, lhes é negada na Suécia.

Sem entrar pela via da exaustão, o guião sugere a máquina de manipulação, operada por um sedutor que se infiltra na escola e por centenas de vídeos nas redes sociais, que leva as jovens a adquirir ideias cada vez mais extremistas e desfasadas da realidade, com a identidade religiosa e a etnicidade a funcionarem como o minúsculo buraco por onde entra uma ratazana devoradora, destinada a ceifar o senso comum e instaurar nas suas mentes suscetíveis a sensação de que, ao juntarem-se ao EL, estarão a partir para uma aventura. Esta dinâmica é desconcertante, não só pela gravidade das ideologias envolvidas, mas por chamar a atenção para a fragilidade deste grupo etário face a propaganda política e religiosa. Mesmo que apenas uma pequena minoria chegue ao ponto rebuçado do extremismo — matar em nome de Deus, partido ou organização —, quantos jovens, e também adultos, são radicalizados em surdina, numa versão light, transformando-se em agentes adormecidos que vão às urnas e estão dispostos a permitir e encorajar comportamentos incompatíveis com o civismo?

Apesar de parecer rudimentar, graças à utilização de câmaras de mão com uma qualidade de imagem banal, a cinematografia da série é soberba, evocadora de um realismo deveras difícil de alcançar. Ao mesmo tempo que se usa uma paleta virada para as cores aquáticas e frias, devido à escolha de cenários com muitos pormenores azulados e esverdeados, é emanada uma sensação de claustrofobia contagiante, principalmente nas cenas decorridas na Síria. As corajosas tentativas de Pervin de levar o plano de fuga avante, o que envolve correr enormes riscos, são sempre agraciadas com planos fechados ou médios, permitindo-se, no entanto, que o espectador ganhe noção do ambiente estéril que a rodeia, através de desvios para observar pequenas nuances do seu dia a dia. Por exemplo, numa cena em que esta se junta a outras esposas na rua, a câmara desgruda-se da sua silhueta, coberta pelas típicas vestes negras destinadas a tapar o corpo feminino, e foca-se num homem cujo braço está prestes a ser decepado no meio de uma ruela, provavelmente por ter cometido um crime que, na Suécia, seria considerado leve.

Por via da agente do sexo feminino, e também por causa do seu comportamento algo errático, é impossível não encontrar parecenças com a série norte-americana ‘Homeland’, que parte de premissas semelhantes. Contudo, enquanto a última pode ser descrita como um produto de consumo munido de algumas características irrealistas ou com queda para o exagero, ‘Kalifat’ beneficia, por comparação, de uma autenticidade que a sua congénere nem sempre apresenta. A série sueca é crua, implacável, profundamente trágica, e, a continuar assim, se o método de avaliação for somente qualitativo, configurar-se-á como um dos grandes clássicos televisivos com o terrorismo como pano de fundo.   

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