‘Joker’, um pervertido apelo à empatia.

A cidade de Gotham, no pico da degradação e do índice de criminalidade, encontra-se a ferro e fogo, após o homicídio de um trio de empresários endinheirados cometido por um homem disfarçado de palhaço. Depois de um conjunto de manchetes sensacionalistas e da intervenção de um político indelicado, o crime em questão faz surgir um implausível movimento anticapitalista, “Kill the rich”, conduzido por pessoas que se mascaram de palhaço e marcham pelas ruas em protesto contra as elites, dando origem a mais violência.

Posto este cenário caótico — palhaços a matar pessoas nas ruas —, um homem assim vestido, com uma maquilhagem a preceito e um revólver no bolso, entra num estúdio de televisão para participar num dos programas de comédia mais vistos do país. Praticamente anónimo para os que o recebem, apenas conhecido como um indivíduo estranhíssimo que ri de uma forma esquisita, não foi revistado, nem foi investigado por antecedentes criminais ou problemas psiquiátricos. Tal estirpe de descrição pode ser associada a tantos outros momentos de ‘Joker’, realizado e escrito por Todd Phillips, tamanha é a quantidade de momentos forçados que impregnam o filme de uma ligeira inautenticidade.

Alguns poderão afirmar que se está perante um enredo que serve de contextualização para um vilão da banda desenhada, o infame e anárquico Joker, logo, poderemos desvalorizar as inconsistências narrativas que se façam notar, já que estes projetos tendem a cair num espectro em que tais falhas são perdoáveis. E há que acrescentar que a Gotham tradicional é uma espécie de distopia pessimista, apesar das alusões à realidade contemporânea. Porém, é a própria obra que se apresenta debaixo de uma nuvem de seriedade, tendo inclusivamente os seus produtores tentado, em várias entrevistas, fugir dessa bolha de implausibilidade onde se encontram os filmes do género. Estamos perante uma longa-metragem que pretende ser realista, focada num ser humano com tendências psicóticas.

Feito o enquadramento, há que afirmar que ‘Joker’ assenta num guião algo débil onde a maioria das cenas violentas, que não são assim tantas quanto se poderia esperar, nascem de situações improváveis, como três empresários ricaços que se aventuram por uma estação de metro sombria a meio da noite — como não tinham dinheiro para um táxi, resolveram enfiar-se na toca do lobo, na “cidade do crime”. Ou como o principal alvo da ira popular sair pela porta principal de um teatro enquanto, em plena calçada e ruas adjacentes, decorre uma manifestação violenta e descontrolada que já ceifou várias vidas. Para o espectador mais atento, ou que exija lógica e coerência acima de tudo, estas escolhas pouco imaginativas podem afetar o impacto dramático pretendido.

Como podemos acreditar totalmente numa personagem e nas suas atividades, se os mecanismos narrativos que a circundam são facilmente questionáveis? Por exemplo, numa subtil cena, o realizador aproveitou para mostrar a forma descomprometida como uma arma de fogo pode ir parar às mãos de uma pessoa com um histórico de doença mental. Porém, como pode esse oportuno comentário ser levado completamente a sério se, mais tarde, a dita pessoa consegue fazer uso da mesma arma graças a uma irrealista e disparatada ausência de precaução e segurança? Onde devia de existir cuidado e atenção ao pormenor, persevera um significativo desleixo, mesmo que este seja disfarçado pela sugestão de que se está perante um narrador errático.

A personagem em questão é Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, um homem solitário, inicialmente inocente, pobre e azarado, com problemas psiquiátricos, que faz alguns biscates como palhaço na indústria do entretenimento e vive com a mãe num pequeno apartamento. A sua característica mais peculiar é um distúrbio que o faz rir descontroladamente em momentos de ansiedade, condição à qual associa um pequeno cartão informativo que mostra às pessoas caso a estranheza se instale — rir é a sua maldição, mas, ironicamente, o que o faz destacar-se. As cenas mais desconcertantes do filme devem-se a este pormenor, com a personagem a desfazer-se em gargalhadas histéricas em momentos inoportunos, o que a impede de manter relações sociais saudáveis.

A interpretação de Phoenix é, acima de tudo, um hino à fisicalidade, levemente inspirada no sujeito instável que encarnou em ‘The Master’ (2012) e ajudada por uma câmara apaixonada pela sua esguia e contorcida pose. Aliás, a fixação na sua figura, no seu rosto, em todos os seus minúsculos gestos, é tão insistente que raramente existe uma subjetivação da experiência pessoal de Arthur: o que este observa, as suas motivações para além da óbvia instabilidade psicológica e das frases soltas que vai escrevendo num caderno. Esta lupa obsessiva que não se desgruda deste objeto de estudo volúvel é prejudicial para o filme, pois o espectador quase nunca tem direito a recolher dados sobre a sua opinião em relação ao cenário sociopolítico que o rodeia, senão algumas dicas simplistas cuja mensagem é sempre a mesma: os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres estão cada vez mais pobres, abandonados pelas instituições em falência. O problema não é propriamente o martelar incessante e repetitivo no mesmo prego, é a forma rudimentar como o processo é executado.

Podendo encontrar-se vestígios de ‘The Killing Joke’, a banda desenhada de 1988 da autoria de Allan Moore e Brian Bolland, a obra evoca, de uma forma parasitária, trabalhos como ‘Psycho’ (1960), dirigido por Alfred Hitchcock, ‘A Clockwork Orange’ (1971) , de Stanley Kubrick, ‘Network’ (1976), realizado por Sidney Lumet, e, principalmente, dois dos filmes mais icónicos de Martin Scorsese, ‘Taxi Driver’(1976) e ‘The King of Comedy’ (1983), referência que é praticamente confirmada pelo recrutamento de Robert De Niro, o protagonista de ambos, para interpretar o apresentador de um talk show, a fazer lembrar Johnny Carson, pelo qual Arthur nutre uma particular obsessão.

Tal como Scorsese, mas sem a mesma habilidade, o cineasta tenta ilustrar Gotham, uma representação fictícia de Nova Iorque no início dos anos 80, como uma cidade suja e perigosa, um vulcão cuja câmara magmática vai acumulando ressentimento e desalento, face a uma sociedade cruel que pouco quer saber dos desafortunados. Porém, a exibição desta metrópole infernal, esta Sodoma moderna, é relativamente convencional, funcionando mais como passadeira para a personagem de Phoenix do que como um organismo com vida própria, como acontece nas obras de Scorsese.

Dentro deste nicho podem também referir-se abordagens recentes, deveras caricatas, como ‘Good Time’ (2017), filme protagonizado por Robert Pattinson que se banha numa história semelhante às já referidas, ou ‘Nightcrawler’ (2014), em que Jake Gyllenhaal interpreta um sociopata que anda por Los Angeles à procura de cenas chocantes para filmar. No campo das antiguidades, poderá mencionar-se ‘M’ (1931), da autoria de Fritz Lang, ‘Death Wish’ (1974), de Michael Winner, ou ‘Dog Day Afternoon’ (1975), novamente de Lumet, entre outros. Qualquer aventureiro que se pronte a visionar todas as obras mencionadas, se é que já não o fez, poderá chegar facilmente à conclusão de que ‘Joker’ é um pastiche no qual não foi injetado singularidade suficiente, ao contrário do que, por exemplo, costuma ser feito por Quentin Tarantino, um artista que, num sentido inverso ao de Phillips, pega nas técnicas e historietas de outrem, e oferece-lhes uma cara lavada com sátira, humor e revisionismo histórico. A única coisa que o realizador de ‘Hangover’ fez foi transportar o material que recolheu para o universo das bandas desenhadas sobre Batman e aplicar-lhe a irresistível maquilhagem de um vilão famoso em ascensão, ardil que, automaticamente, lhe deu acesso às massas e a um cachê milionário.

Em todo o caso, o grande triunfo técnico é a banda sonora de Hildur Guðnadóttir, que, recentemente, trabalhou na série ‘Chernobyl’. Em vários momentos, existe a ameaça do enfado, conforme a história se vai desenrolando sem que algo propriamente mordaz aconteça, como uma romaria secundária às vicissitudes da família Wayne que só evoca algum tipo de interesse devido ao nome em questão. É uma melodia umbrífera e perniciosa, criada com um violoncelo eletrónico, que permite que o filme se agarre com unhas e dentes à podridão e desolação que lhe servem de ambiente. O destaque tem de ir para uma cena assombrosa em que Arthur, já numa fase de transformação no vilão que todos conhecemos, dança em frente a um espelho ao som desta toada taciturna, gerando o raro momento no cinema em que personagem e som parecem ser um só: o requiem do homem que ri fora de tempo. E que mata.

Chega-se então à derradeira encruzilhada em que é necessário ponderar até que ponto se está, ou não, perante um filme minimamente relevante. Primeiramente, há que assinalar que os dois guionistas — Phillips escreveu o guião em parceria com Scott Silver — usam um dos truques mais velhos que, por norma, existe no catálogo de quem não domina por completo o material que tem em mãos: vão inserindo variadíssimos temas na narrativa sem desenvolver nenhum em particular, redigindo todos os diálogos e situações para que praticamente qualquer pessoa se possa identificar com eles ou, pelo menos, criar algum tipo de ligação emocional ou cognitiva. Quase todas as ideias incitadas são vagas, desenhadas de forma a poderem ser adotadas por polos opostos. “Is it me or is it crazier out there?”, pergunta o protagonista à sua psicóloga. “These are rough times”, responde esta num tom genérico, quase como se a atriz fosse quebrar a “quarta parede” e piscar o olho à audiência.

Como resultado destas inúmeras interações, é fabricada uma máscara de relevância que, na verdade, é nada mais que um frágil trabalho de maquilhagem. O filme é bastante vazio, mas está realizado e escrito de forma a que o espectador o encha com as suas próprias projeções e reflexões, à medida que uma série de botões temáticos lhe vão sendo exibidos: basta carregar. Arthur Fleck é uma espécie distorcida de herói de todos, e de ninguém. Claro que muitos poderão afirmar que o cineasta tenta construir uma teia de fatores que, no caminho para a barbaridade, têm uma importância repartida. Logo, não existe espaço e tempo para perscrutar nenhum aspeto em particular. Esse, no entanto, pode ser considerado o caminho do artista preguiçoso, de quem, no fundo, não tem quase nada de original para dizer ou mostrar, senão engendrar uma subversão do que é suposto o público sentir numa obra com ligações a bandas desenhadas, franchises populares e afins, na esperança de que isso seja confundido com genialidade.

Ironicamente, visto abordar o assunto ao de leve, ‘Joker’ é um filme populista. Sem que grandes construções filosóficas e críticas sejam erguidas, com um guião à base de chavões e frases sonantes, e até com direito à ocasional contradição, vai lançando um feitiço redutor em que é fácil cair. Se Todd Phillips, em vez de guionista, fosse político, talvez fosse extremamente tentador votar no seu leque de ideias generalistas, assentes num centro no qual qualquer cidadão comum, desagradado com o rumo da sua vida pessoal ou do ecossistema coletivo do qual faz parte, se pode refugiar. “We are all clowns”, aparece escrito no cartaz de um dos protestantes sobre os quais nada sabemos.

Ademais, este quer fazer crer que Arthur, um ávido consumidor de televisão, existe dentro de um vácuo onde praticamente não existe política, religião ou influências negativas ou extremistas, as três motivações que, segundo as estatísticas da vida real, muitas vezes juntas, levam a maioria dos sujeitos com perfil idêntico a cometer atos violentos. E tem a desculpa perfeita para tal falta de risco, para idealizar este sujeito acriançado, virginal, à beira da pureza: o Joker do futuro é um anarquista, apenas acredita no caos. Por seu lado, Todd Phillips é, no fundo, um medroso. Quis fazer um filme sobre o nascimento de um dos maiores vilões de todos os tempos, sobre um dos assuntos mais sensíveis e problemáticos da atualidade, mas sem apontar o dedo a ninguém, sem escolher lados, sem apresentar nenhuma reflexão que possa ser considerada pungente, capaz de causar genuína inquietação ou entrar no campo da alegoria social competente, ficando-se por uma guerra elementar contra os 1%, como se a vida fosse assim tão simples. Tem-se, mesmo que Phoenix faça um esforço epopeico para o contrariar, um filme confortável, onde imperam pleonasmos abraçáveis como “Everybody is awful these days”.

Estamos perante o esquisito exercício fílmico em que um realizador, na tentativa de angariar o maior número de amantes possível com a sua mensagem pluralista, cria uma ilusória perceção de abundância e consistência temática, ao mesmo tempo que arranca essa mesma riqueza do filme. ‘Joker’ é um filme com dificuldades financeiras que finge ser milionário, enquanto um excecional ator vai servindo de fiador. Phoenix faz um trabalho tão exímio que quase é possível encontrar profundidade onde ela não existe, como um extraordinário dançarino que baila ao ritmo de música quadrada.

E, mesmo quando, a meio, surge a oportunidade de abraçar alguma subtileza e dúvida, derivada de um expectável plot twist, o realizador faz questão de exterminá-las, optando por enfatizar explicações e, por arraste, não confiar na capacidade do espectador de subentender um gritante enredo imaginário. Fica-se, então, com uma espécie de manifesto de um homem caucasiano, frustrado e revoltado, celibatário, psicologicamente perturbado, a quem a sociedade falhou — uma caricatura embrionária, primária, do típico sujeito que, levado ao extremo, acaba por cometer uma ou várias atrocidades. E Phillips, que não confia em nós, pede-nos encarecidamente que confiemos na sua construção desta persona que transborda autocomiseração e um questionável sentimento de desresponsabilização.

Este pede-nos que sintamos pena dele, que o amemos, mesmo que os seus problemas ou os estímulos à sua volta nunca sejam devidamente analisados. Podendo esta ser uma experiência catártica — entrar na mente de alguém que mata por desespero —, existe uma linha ténue entre vitimização e absolvição que, esporadicamente, é quebrada. Para mais, há que atacar a linha de pensamento errada — os especialistas assim o dizem — de que a pessoa com problemas psicológicos é perigosa para os outros, quando, apesar das exceções, percentagens esmagadoras apontam para o caminho da autoagressão. Este é um talking point comummente usado pelos políticos republicanos como pretexto para não alterarem as leis de acesso a armas de fogo: “a culpa não é das armas, é das pessoas com problemas mentais”. Talvez o realizador não seja tão apolítico quanto parece à primeira vista. Outro pormenor curioso é o facto de, numa das primeiras cenas do filme, o protagonista ser atacado por cinco adolescentes de cor num beco molhado, acontecimento que marca o início da sua transformação progressiva num monstro descontrolado. Os “Central Park Five” são inocentes, mas atenção que andam por aí outros cinco que realmente são perigosos. Recorde-se que esse crime em particular, que na verdade foi perpetrado por um único homem adulto, e não por um grupo de jovens negros, funcionou como bandeira para uma série de movimentos populistas — na altura, Donald Trump pediu a pena de morte para os cinco menores de idade. Mas, tal como tudo no filme que possa causar discórdia, o assunto é atirado para um canto esquecível, uma brisa que nunca chega a ser vento.

O realizador criou um cenário que se cola à Nova Iorque dos anos 70 e 80 e aos seus acontecimentos marcantes — crianças pobres de cor que roubam, o município à beira da bancarrota, a “Greve do Lixo” de 1981, a aura de negativismo, os protestos sociais —, mas recusa-se a explorar ou comentar as causas dessa instabilidade estrutural que levou várias pessoas, diante disso, a cometer vários crimes. Enfim, está-se perante uma situação em que o artista quer ficar com os dois lados da moeda: aproveitar-se grandemente das referências fílmicas, sociais e políticas do cenário escolhido, mas sem escrutinar as mensagens subliminares que possam daí surgir, agradando, no processo, a um público-alvo que talvez se sentisse ressentido com tal desconstrução que, hoje em dia, tem de ser obrigatoriamente política, mesmo que não seja essa a intenção.

Em suma, talvez se deva fazer uma reflexão profunda sobre até que ponto este filme não se aproveita do facto de estar assente na pré-condição da sua personagem principal ser um futuro malfeitor de um universo extremamente popular, um símbolo. Será que, se não existisse a apelativa associação a um dos maiores vilões ficcionais de todos os tempos e ao imaginário do Batman, estaríamos ante um potencial objeto de culto? Se este fosse simplesmente mais um filme sobre a descida de um indivíduo anónimo até à psicopatia, será que teria a mesma atenção? Teria sequer algum tipo de destaque? Ganharia prémios conceituados e venderia milhões de bilhetes? Talvez seja este um dos grandes problemas da forma como consumimos cultura atualmente: continuamos a dar importância e relevância desmedidas a certas expressões artísticas devido ao universo, à marca comercial, em que estas se inserem, quando a primeira condição deveria ser a existência de qualidade intrínseca, de sumo, de pensamentos visionários, de ácido. O ‘Joker’, sem o Joker, é um filme com bons pormenores técnicos, moderadamente cativante e sombrio, que aborda um assunto extremamente sensível de uma forma leviana e descomprometida, sem que qualquer observação propriamente imperdível ou pertinente seja desenvolvida.

Contudo, independentemente da superficialidade, é de louvar a chamada de atenção que é feita para a forma como podemos andar a ignorar as pessoas solitárias, deprimidas ou doentes deste mundo que, sujeitas a várias contrariedades, chegam ao desespero de cometerem o derradeiro ato de obliterarem a própria humanidade em troca de atenção, de um holofote que, finalmente, as faça sentirem-se especiais e ouvidas. Fora os seus problemas, há que destacar a capacidade do filme de se consagrar como um pervertido apelo à empatia.

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